terça-feira, 1 de julho de 2008

A situação complica-se ... crime à meia-noite!

Estou a começar a fartar-me desta situação. Nesta vila não vou a lado nenhum ... a Giselle andava metida com o padreco e agora casou com aquele animal do Manel (Reparem não casou com o burro pois o próprio Manel é um animal ... senti que devia esclarecer), não tenho uma única pessoa em quem confiar, a Marcolina tem-me na mão e em breve terei de libertar os dois prisioneiros pois não tenho provas contra eles. Não sei o que pode acontecer para piorar?
- Senhor inspector Manteigas Boas! Digo Boas Manteigas! Posso entrar?
- Diga senhora Eunice.
- Olhe ... como pessoa responsável e preocupada que sou achei que devia partilhar consigo uma ou duas coisinhas que ouvi no meu modesto salão!
- Se me vem aqui contar promenores da vida da Giselle e do outro esqueça!
- Não, não ... valha-me Deus não sou nenhuma intriguista!
- Claro ...
- Mas é o seguinte ... eu ouvi dizer que o rapazinho novo, aquele esquesitinho o Maurício ou lá o que é ... dá umas escapadelas à noite quando a mulher está em coma de maternidade.
- Sabe que isso não quer dizer nada? Sinceramente não sei como é que isso pode estar relacionado com ...
- Espere, não acabei! O homem anda sempre com aquele arzinho todo bem comportado mas eu desconfio que ele anda a esconder alguma coisa. Na semana passada ele acompanhou a mulher ao salão e reparei que ele estava muito nervoso e ...
- E ...
- Tinha a camisa manchada!
- Manchada? Tinha a camisa manchada de quê?
- Geleia de amora!
- Isso é gravíssimo tenho de o deter imediatamente!! Por amor de Deus!
- Mas você não entende? No dia em que a mulher dele teve o primeiro desmaio o espelho estava sujo com geleia!
Ela não me convenceu mas também não precisa. Eu sei toda a verdade, esta é só mais uma para eu empatar. Sim porque eu nunca estive preocupado com a segurança desta vila, simplesmente ando a prender quem me indicam e faço um ar preocupado quando alguma donzela desmaia. tem resultado até porque ninguém resiste ao meu charme, ao meu encanto. Só a Giselle! A ingrata! Era a única coisa que me prendia nesta aldeia, agora nada ... mas ela vai ver! Eles vão ver! Não saio daqui sem me vingar e não saio sem o dinheiro que me pertence!
Lá fomos nós a casa do casal. A casa está impecável, o que é estranho para uma mulher grávida que deve passar 22 horas a vomitar, 1 hora a dormir e a outra no cabeleireiro. O maridinho não estava. Ela foi muito atenciosa e serviu-nos um café. Deve ser tão burra que nem percebeu porque estávamos ali. Desatou na converseta com a Eunice e fingiu que eu não estava ali. Mas fingiu mal!Eu sei que ela reparou em mim ... a pobrezinha nunca deve ter visto um homem assim! Um homem ponto final porque o marido é uma amostra, parece um miúdo à beira da puberdade. E convenhamos que ela não é feia de todo. Olhando bem até está ao nível da Giselle! Isto é bom, muito bom! Se eu conseguir virar a esposa contra o marido, o resto da aldeia vai achar que ele é o assassino, pois ela nunca o deixaria senão por uma razão grave. Óptimo! É uma óptima companhia para estas últimas semanas nesta terra de doidos. Para isso não convém prender o marido. Tenho de ganhar a sua confiança.
- Deixe-me dizer-lhe Marta que os seus bolinhos são deliciosos!
- Muito obrigada senhor inspector! Ainda bem que gostou!
- E a sua casa está um brinco. Deve ser a mais bonita da aldeia. A casa e a dona claro!
- Oh senhor inspector ... é muito gentil, obrigada!
- Desculpe se a perturbámos vinhamos falar com o seu marido mas vejo que ele vai demorar. E eu ainda tenho muito trabalho a fazer por isso ... fica para uma outra vez ... talvez ... amanhã?
- Claro será um prazer!
Já cá canta! Ás vezes fico espantado comigo mesmo ... é tão fácil! Ninguém me resiste. Por falar nisso, a sonsa da Eunice não é parva nenhuma e percebeu que eu estava a tramar alguma. Reparei na forma como não protestou por nos termos ido embora. Afinal foi ela que denunciou o "machão". Acariciei-lhe o rosto e disse-lhe umas quantas petas e ela caiu. Começo seriamente a pensar que tenho poderes! Nem me lembro bem o que disse, mas prometi-lhe passar pelo salão no dia seguinte e lembro-me de ter dito as palavras "depilação", "massagem" e "pelota".
Só espero que a minha Martinha não tenho dito nada ao marido, senão o meu plano vai por água a baixo. De manhã lá fui eu ter com a desesperada da Eunice que ficou com um sorriso nos lábios mal me viu. O servicinho foi rápido e acho que suficiente para a calar para o resto da semana.
Agora é a minha Martinha! Fui comprar um ramo de rosas vermelhas (sei que é arriscado mas estou com pressa, não tenho tempo para olhares envergonhados, nem mãozinhas dadas) e lá fui eu todo pinota. Bati à porta e como era de esperar ela abriu-a imediatamente (tentou disfarçar, para parecer que não estava colada à porta à espera mas eu percebi).
- Você está linda Martinha! Estas flores ao pé de si não são nada!
- Pare, de tanta emoção ainda começo a dar à luz!
- (Para que é que foi isto?) Claro ... posso entrar?
- Entre, entre!! Eu estava aqui a fazer umas coisas mas ... acho, acho que podemos falar agora!
- Q-Que é que me queria dizer ontem? E-Era sobre o Mauzinho?
- Vamos com calma ... fale-me antes um pouco de si.
- De mim? N-Não há nada para dizer ... sou apenas uma dona de casa reprimida que passa os dias a limpar a casa, a engomar as roupas do meu maridinho, que gosta da sua permanente aqui e ali, que gosta de salsichas, já referi que sou obcecada com limpeza? Tem dias que esfrego tantas vezes o chão que provoco pequenos incêndios sabia? E também gosto de roupa mas o meu marido diz que são apenas trapos e que não vale apena gastar dinheiro com eles. É tudo positivo, positivo!
- (medo) Mas está assim tão infeliz?
- Não, não ... quer dizer sim, sim! eu sei que tenho este ar todo alegre e bem-disposto mas passo os dias sozinha agarrada à minha barriga e à esfregona. Só queria que o meu Mauzinho me desse um pouco mais de atenção, sentir-me desejada ... vou-lhe contar um segredo ... eu nunca tive dificuldades em engravidar mas recorria a uma técnica antiga para evitar, porque foi a altura em que o Mauzinho me dava mais atenção. E agora que está quase a nascer só se preocupa com o bébé e não comigo ... BUÀÀÀÀ!! D-D-D-Desculpe nem sei porque lhe estou a contar isto!
- Mas diga-me por curiosidade ... que técnica é essa? (pode dar jeito algum dia)
- É-É comer abacates misturados com leite após o ...
- Eu percebi. Você precisa é de um ombro amigo! Aqui tem o meu! (Isto está a ser mais fácil do que eu pensava)
- (Snif) Obrigada.
Nisto chega o "machão".
- QUE É QUE SE PASSA AQUI?
- M-Mauzinho? Pensei que estavas a trab ...
- Calma senhor Maurício! Vim a sua casa para falar consigo e a sua mulher aproveitou para desabafar!
- Desabafar? 'Tá à espera que eu acredite nisso??
- É a verdade Mauzinho! Não se passou nada eu juro!
- Mas diga-me o que é isso na sua camisa? (Arrisquei mais uma vez mas a mulherzinha já está no papo)
- A-A nada ... sujei-me ao almoço com um pouco de ...
- Geleia?
- Isso!
- Você está preso pelo assassinato da velha com a faca espetada nas costas!
- M-Mas o que é que a geleia tem a ver com isso?
- Por amor de Deus não se faça de estúpido! Todos sabem que a casa da dita velha estava repleta de pegadas de geleia!
- E então?
- E então??? Você está coberto dela homem!!
- Mas geleia é algo que está ao alcance de todos!
- Senhor inspector ele tem uma certa razão!
- Mas a questão é eu tenho testemunhas que o viram na noite do crime!
- Quem ?
- A-A Eunice e a Dona Marcolina! (É uma boa forma de calar a Eunice dando-lhe razão e a Dona Marcolina leva o Bica em troca do seu silêncio, quanto o Ostentação ... ninguém quer saber mesmo!)
- Mas, mas ...
- Mas nada! E aposto que para estar nesse estado deve ter aprontado mais alguma!
(Ouve-se um grito vindo da rua)
- AH! Não disse (só espero que não tenha sido uma velha que assistiu à nudez do Manel, tem acontecido durante toda a semana). Venha comigo!
A pobre prenha veio a atrás de nós a bater na cabeça do marido e a gritar coisas como "assassino", "crápula", "desgraçado", "sacana" e "mija lençóis". Quando chegámos à rua já se encontrava uma multidão à porta do café do Bica (continuou aberto a cargo do Crispim e do Manel).
- Mas o que se passa aqui?
- Inspector Margarina! Foi a Dona primeira Dama ela ... ela morreu! Mataram-na!
- O quê?? (Que sorte ... será que sou profeta para além de Don Juan?) Mas como? Deixem passar!
A pobre mulher estava deitada no chão de cabeça virada para baixo! Não havia sangue, parecia que a mulher se assustou com alguma coisa e teve um ataque de coração na cozinha do Bica! Desta não estava eu à espera ... acreditem ou não, mas não sei o que se passou! Não tenho nada a ver com isto! Vou confessar-vos ... nunca houve nenhum assassinato! Nunca existiu uma velha ... era apenas uma boneca insuflável que comprei em Torres (graças a Deus nunca ninguém viu a sua cara de ... espanto!). Fui em que pus lá a faca nas costas e deixei-a na cozinha. Claro que a boneca rebentou e enchi-a com o que havia à mão ... geleia de amora! A Dona Marcolina apanhou-me enquanto eu estava a exercer a minha patranha e por isso disse-lhe o que me veio à cabeça! Que era a prima dela e eu era o inspector vindo da capital para investigar o assassinato. A velha já está taramoca e nem deu por isso ... primeiro que não tinha prima nenhuma (daí nunca se lembrar do nome dela) e segundo que seria estranho um inspector da capital chegar ao local antes da aldeia dar por conta do crime. O resto dos desmaios, a geleia no espelho da Martinha foi encenado! Precisava de algo para me manter por cá e que estes broncos confiacem em mim.
Mas a Dona Marcolina tem-se revelado esperta e lembrou-se finalmente que a única prima que tem mora no Canadá e na realidade é agora um primo chamado Ernesto. Descobriu ainda que eu não sou inspector coisa nenhuma. O que ela não sabe é o meu verdadeiro interesse na vila.
Mas agora estou numa incruzilhada, existe um assassino e no é de mentira! E agora estão todos à espere que eu faça alguma coisa, mas eu não passo de um simples ... peixeiro!
- Faça alguma coisa senhor inspector! O assassino pode estar ainda por perto! - a Martinha está visivelmente nervosa e não pára um minuto.
- A ... eu preciso que saiam daqui. Tenho de analisar ... o local do crime. P-Preciso de algo para isolar o local para não deixar ninguém passar!
- Serbe papel higiénico? E podiamos órinar nele para ficar mais parecido com os filmes dos polícias ...
- Obrigado Manel!
E agora como é que eu saio desta? Tentei sacudi-la para a acordar, podia estar a fingir não sei! A mulher morreu com o sorriso na cara ... mas que raio! Não à marcas de luta, não há sangue, não há nada! Mas a mulher morreu de quê?
Estavam todos à porta histéricos para saber o que se tinha passado. Disse que tinha morrido de ataque cardíaco ... mas que tinha encontrado vestigios de geleia. Mandei prender o Maurício entretanto para acalmar os animos (que é como quem diz, pois a multidão furiosa atirou-lhe com tudo ... tremoços, cerveja, bancos, crispim). Soltei o Jerónimo para acalmar a Marcolina mas, estou seriamente preocupado quem fez aquilo?
A Marta apareceu à porta da pensão onde eu estava. A mulher ficou mesmo caídinha! Não estava com paciência para aturar as suas choraminguices mas ela esteve calada a noite toda abraçada a mim. Não disse uma palavra.

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