quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cães de louça

- Wolfgang está acordado?
- Sim chuchuzinho, deseja alguma coisa?
- Deixa-te disso não está ninguém a ver-nos, toca a levantar! temos muito que fazer hoje.
- Pgonto já vou. Vou tomage um banho e já desco liebling.
- Mau, mau deixa-te de lamechices!
Este homem tira-me do sério. Eu que nunca gostei de homens ando agora com este calmeirão cá por casa, a deixar as cuecas por aí espalhadas, arrotar à mesa e a beber o leite directamente da garrafa. Santa paciência!
- Estou pepgagado quegida.
- Tens a aliança?
- Opss, obgigado docinho!
O pior é fingir estar apaixonada pelo dito ... homem. Faço um esforcinho e agarro-me ao braço dele. Quando as pessoas passam junta-mos os lábios rapidamente. Ele tem andado a abusar ultimamente e por isso acabaram-se os beijos. Eu faço os possiveis para não arranjar suspeitas e por isso ando sempre alerta. Claro que sei os boatos que se circulam sobre mim. Aquele nome "panelona" que as crianças gritam por aí, os olhares vindos da Celestina, os comentários no restaurante e na própria drogaria. Mas eu não tenho tempo para perder com essa gente e não dou satisfações a ninguém.
A verdade é que esta gente é fácil de iludir. Ora eu desapareço do nada e volto casada, e alguém se lembra de me perguntar porque desapareci? Claro que não. Estão mais interessados no meu casamento devido às suspeitas que por aí havia. E é melhor assim, afinal não seria nada bom que descubrissem a verdadeira razão que me levou à Alemanha. Este país está cheio de estrangeiros malfeitores, bandidos e assassinos que vieram arruinar a paz do meu lar. Italianos, russos eu sei lá e agora os furagidos da guerra. Os judeus entram aqui e tomam conta de tudo. É só privilégios para os coitadinhos, e para nós as pessoas trabalhadoras que sempre deram a vida pela pátria ... nada! Ficam com os restos. Isto tem de acabar!
Decidi partir no momento em que estes inúteis estavam demasiado ocupados com os acontecimentos das suas vidinhas insignificantes. Ninguém me impediu ou questionou e suspeito que só deram por minha falta dias depois. Tenho família na Alemanha, gente importante. A minha prima Lucrécia é casada com um general alemão que é irmão de padeiro em Berlim. Padaria essa que é a preferida de Hitler e foi assim que o marido da Lucrécia conheceu o chefão. Ora eu fiquei hospedada na casa deles. Uma mansão enorme, com todos os luxos que se possam imaginar. A guerra não afecta os ricos e poderosos. O marido da Lucrécia apenas participa nos desfiles, levanta o bracinho e ouve os discursos, o resto do tempo está estendido no sofá a fumar charutos, na caça com os amigos ou metido num cabaret de volta das meninas da má vida.
Até que houve um dia que a Lucrécia recebeu convidados especiais. Sim, Hitler e os seus compadres foram jantar lá a casa a convite do Albert. Eu estava chiquissima nessa noite. Tinha um vestido de veludo azul e uma gargantilha de diamantes, o cabelo ao alto e uns sapatinhos pretos de verniz. Fiz sensação. passei-me pelo salão com um ar distante e desinteressado e logo chamei a atenção Führer.
- Gute Nacht dame!
- Ai senhor Hitler ... eu ... sou uma grande fã sua! Desculpe estou um bocadinho nervosa. O que é que disse?
- Oh priminha mais respeito. Sua excelência cumprimentou-te, agora levanta o bracinho e repete comigo ... Heil Hitler!
- Ai Hitler?? Mas isso é estúpido e ...
- Heil Hitler! - respondem todos em coro.
- Agora já podem falar.
- Mas Lucrécia, eu não percebo uma palavra de alemão! E não me parece que sua excelência perceba português.
- Aí é que se engana minha quegida! Vivi uns anos em Pézinhos-de-Lã e sei falag em pogtuguês pegfeito, modéstia à pagte.
- É o destino! A minha mãe era de Pézinhos-de-Lã! Passávamos lá os Natais.
- Que facto tão bonito meine liebe. Quegue dag-me o pgazeg de me acompanhague ao jantag na minha mesa?
- Será um prazer!
Falámos de tudo e mais alguma coisa. Das ruas de "Pézinhos", dos nossos pratos favoritos, dos filmes que gostamos, música, política internacional eu sei lá ... ah e no fim acabei por descobrir algo extraordinário ... partilhamos o ódio por judeus!
- Eu digo-lhe Hi, posso tratá-lo assim? Bom o que eu mais odeio nos judeus é o facto de serem individuos extremamente bem sucedidos e inteligentes que fazem parecer o comum dos mortais um completo asno. Eu sou uma defensora convicta de que o sucesso da pessoa deve ser baseada na ... batota! E você? Qual é o seu motivo?
- Cheigam mal dos pés.
- Ah ... pois, realmente é uma boa razão. Está bem visto sim senhor.
- Sabe minha quegida você é a pessoa mais integessante que conheci esta semana. Eu sei que isto da guegga paguece divegtido mas é uma chatisse. Dá pgezuíso e as manchas de sangue custam a saig. Não que eu me meta no meio da gentalha que está a lutag pelas minhas convicções, é que não tenho jeito nenhum paga fazeg a bagba e estou sempge a cogtag-me. Dito isto, peça-me qualqueg coisa e eu fagei pog si.
- Qualquer coisa?
- Qualqueg coisa.
- Bom ando com problemas na minha aldeia ...
Contei-lhe o meu plano, contei-lhe acerca do comunista e do judeu que por lá anda. Convocou os seus homens de confiança e disponibilizou alguns deles para me acompanharem. Foi aí que conheci o meu "marido", achei que era uma boa maneira de disfarçar perante os vizinhos e para acabar com a "panelona". Quero voltar a viver feliz na minha casa, feliz na minha vila. E também envolve outros assuntos que não vou revelar para já.
- Obgigada senhoga ... com a sua ajuda Pogtugal segá meu!
- E já agora ... sempre sonhei em ter um par de cães de louça na entrada da minha loja e ...
- Feito! Vou mandage fazeg um pag de canitos em ougo!
- Eu preferia em louça mesmo.

2 comentários:

Pata@Jesus disse...

Ahhhhhhhh, Já estou completamente baralhada na historia!!!!!

Gostei muito do: "a deixar as cuecas por aí espalhadas, arrotar à mesa e a beber o leite directamente da garrafa. Santa paciência!- " é muito LOOOL

agora vou tentar começar a acompanhar a historia diariamente, mas prometam que não escrevem mais do que uma vez por dia, prometem?

Beijos

Quem somos? disse...

Prometemos. Até porque o tempo não é muito!

Cabeçadas violentas,
Marijoana