domingo, 31 de outubro de 2010

Opera, Fronteira Italiana, 1159

Jantamos com o padre Romeo enquanto ele nos pôs a par - a mim, ao Rafael, Pedro, Miguel e Gualdim - da história daquela abadia. Tinha sido acabada de construir em homenagem a Santa Maria da Assunção mas o seu verdadeiro propósito foi como ponto estratégico para protecção dos seguidores da Ordem do Templo que queriam entrar ou sair de Itália. A Abadia era rústica, mas austera. Não muito bonita mas com espírito. Era como se o seu propósito vibrasse através das paredes e a tornassem mais bela do que era na realidade. Com uma grande porta de madeira, e com um vitral redondo, a abadia destacava-se dos restantes prédios pela sua torre sineira alta mas simples. Afinal de contas, chamar as atenções era tudo o que não era preciso. No entanto, toda esta simplicidade se desvanecia assim que se entrava na nave da igreja. Paredes brancas enfeitadas com 7 anjos, sendo que no meio estava o Arcanjo mais corajoso de todos, Aquele que expulsou Lucifer para onde este permanece até hoje. Tinha as feições lindas mas inquietantemente familiares…
Quando o padre acabou a sua oratória arquitectónica e artística, cada um de nós encaminhou-se para as suas funções. Eu e Miguel encaminhamo-nos para a cozinha para preparar a refeição; Gualdim e Rafael foram ter com o meu pai que se encontrava debruçado sobre o velho mapa amachucado enquanto António e Pedro tratavam das nossas montadas - Pobre Ébano…António era tão cuidadoso com ele como um ferreiro a martelar numa arma ainda em brasa….
- O padre Romeo é espectacular não é?
- Ena Miguel! Deve ser a primeira vez desde a infância que te oiço falar de clérico assim. - Era de facto surpreendente, Miguel era a bondade em pessoa, mas quando se tratava de injustiças praticadas pela própria Igreja, ele transformava-se literalmente num guerreiro impiedoso.
- É verdade sim senhora…infelizmente…quase que já tinha a perdido esperança de encontrar entre os homens alguém com o verdadeiro dom… Os homens agora apenas se interessam por guerra, poder, riqueza, aparências…tudo aquilo que devia simplesmente não existir.
- Só mesmo tu para veres o mundo com pena enquanto os outros todos o vêem com gula e avareza - disse enquanto descascava umas batatas da horta. - Perdoa-me a frontalidade… mas apesar de gostar imenso de ti e de te ter por perto…não consigo perceber o que é que uma pessoa com os teus valores faz aqui, no meio desta batalha. Todos os outros estão constantemente a pensar em guerra..o Rafael por exemplo parece um estratega nat…
- O Rafael é tudo menos um bronco moldado pela guerra Liena. - Interrompeu-me Miguel. - O facto de nos e do Gualdim, estarmos aqui em nada se deve ao gosto pela violência nem às birras do Homem. Assim como tu. Que eu saiba o teu pai nunca quis que viesses e tu vieste mesmo assim. E porquê?
- Não sei…talvez porque nao queria ficar sozinha em Portugal rodeava da serventia. Talvez porque tinha medo de perder também o meu pai. - posto isto a minha faca resolveu cortar um pouco mais do que a batata e desenhou um risco vermelho no meu dedo. Olhei de esguelha para Miguel, os seus olhos verdes a contrastar com o cabelo negro avaliavam-me como se entendesse os meus pensamentos melhor do que eu própria. E pelos vistos entendia.
- Eu vim - continuei - porque senti que era o meu dever, a minha missão, eu tinha de vir.
Era esta a resposta que Miguel queria ouvir. Sorria enquanto olhava para mim depois de ter posto os legumes ao lume para a sopa.
- Eu sei Liena, eu sei - consolou-me tocando-me na cabeça como um irmão mais velho. - Deixa aí as batatas que eu cuido delas antes que para além de alimentos vá também um dedo extra na sopa. - brincou - Alem disso eu sei muito bem que há aí uma estátua que chama por ti.
Era verdade, queria muito ter oportunidade para contemplar aquele anjo decentemente antes de ir embora.
Subi as escadas que davam para a sala onde o meu pai e os outros estavam reunidos e caminhei em direcção à nave central. Lá estava ele, no meio dos outros seis imponentes e graciosos. Aquele Arcanjo era lindo em toda a sua forma: corpo musculoso, mas não em excesso como o António, embrulhado em panos deixando as pernas e o tronco desprotegidos. A asas apontadas para o tecto da Igreja, onde muito pequenina repousava a nossa cruz vermelha. Tinha uma espada em punho e toda uma pose de guerreiro. O cabelo era encaracolado e a face terna e misteriosa. Aproximei-me.
- Que estranho - falei em voz alta para mim mesma - Não me lembro de conhecer ninguém assim. O único com caracóis que sei é o Gualdim mas esta cara não tem nada a ver com ele e no entanto parece que conheço alguém semelhante.
- Se calhar na tua vida anterior foste um calhau e como tal reconheces não a cara mas a pedra!
Eis que ele surge, para perturbar a minha paz de alma.
- Sois extremamente agradável, sabeis disso?
- Nada que não tenha ouvido já das demais donzelas, pequeno palito.
PALITO??? Ai que ódio profundo…
- Olha eu nem sequer me vou dar ao trabalho de te responder.
- Será isso por não teres resposta?
(já referí que esta personagem desperta em mim uma raiva imensa?!)
- Mas diz-me lá - continuou - Gostas muito desse Arcanjo é?
- Sim, ele desperta em mim muita calma e segurança, o que tem sido uma coisa rara nestes tempos correntes.
O sol poente trespassava as janelas da igreja atingindo a estátua, pintando-a de dourado com sobras que o tornavam ainda mais real.
- É, eu sabia que ia ter esse efeito em ti quando visses algo deste género. Seja quer for que o esculpiu fez um trabalho brilhante.
- Achas que o Arcanjo se parece com isto?
- Em matéria? Sim, bastante.
Estava-mos os dois lado a lado agora, a admirar o Arcanjo no meio de nós, a falar com ele mentalmente, ou seria pelo coração?
- Rafael..há uma coisa que me está a fazer espécie desde que o vi pela primeira vez..
- Ora essa, não precisas de me tratar por você. - Aí está ele no seu melhor.
- Não estou a falar de ti seu idiota!!! Do Anjo!
- Um Anjo? daqui a pouco tratas-me por Deus, ahahah, muito bom, gosto.
- Enfim - suspirei, eu não sei como é que ele consegue mas enfim - Fazendo de conta que estou imune à tua parvoíce e passando à frente. Ía dizer-te que há algo de estranho com a cara do Anjo.
- Estranho? Como assim?
- Uma sensação. Eu acho que já vi aquela cara, talvez, com outro cabelo ou assim.
Não sei o que disse mas a reacção do Rafael mudou naquele momento. Olhos trémulos e aterrorizados como se o fossem atacar.
- Rafael? Disse alguma coisa que não devia?
- Não..nada…só tive um arrepio pelo corpo, deve ter sido da corrente de ar.
- Tens a certeza?
- Sim, então, conhece-lo é? Mas não sabes mesmo de onde possa ser? Sabes que os artistas têm modelos na cabeça um pouco comuns, se calhar já viste uma obra de arte assim parecida.
- É…se calhar é isso. - Anuí.
- Quem quer enterrar os dentes num pernil assado e aquecer as entranhas com uma sozinha, han?? - Entrou o António por ali a dentro.
- Aí está o homem das boas noticias. Muito bem dito companheiro, vamos lá a isso - disse Rafael enquanto se pôs a caminho.
- Não vens Liena? - perguntou António ao ver-me para trás.
- Sim, vou já…
- Que foi? Estás com uma cara de sanguessuga.
- Não foi nada, António. Só estranhei agora uma reacção do Rafael.
- E o Rafael que não mexesse com o mulherio.
- Não ele não disse nada de mais mas ficou um pouco pálido e incomodado quando lhe falei da estátua. Quando disse que me fazia lembrar alguém.
- Esta pedra aqui? É bonita sim. E engraçado.
- Engraçado? - estranhei, onde poderia ser uma coisa daquelas engraçada?
- Engraçada a situação, O Rafael não ter gostado que conhecesses a cara d'O Arcanjo Rafael. Tem a sua piada. - E pôs a caminho ainda a rir da coincidência que encontrou.
Só mesmo o António para tornar tudo simples e ainda se rir.
Jantar servido. Um belo de um peru em tom caramelo, vinho tinto a sobressair de umas garrafas cujo gargalo tinha forma de pássaro com as asas eram agora as asas da garrafa, uma travessa de salva de prata - latão mas finjamos ser mais valiosa porque era assim que nos parecia - recheada de batatinhas assadas, descascadas pela minha pessoa (não tenho muito jeito, metade da batata foi na casca mas conta a intenção), iguarias espalhadas por toda a mesa, especiarias embotidas em frascos juntos da pasta, afinal de contas estávamos em Itália, no centro da mesa esperava apenas uma roda de madeira que seria ocupada pelo caldeirão de sopa. Que cheirinho…ainda com os ingredientes a boiar já prontos a casear os tambores que rufavam dentro das nossas barrigas.
Começamos, todos silenciosos a comer enquanto o meu pai contava as suas aventuras de jovem irreverente, dando simultaneamente dentadas no pão com chouriço deixando migalhas no bigode e na barba. Que engraçado! Nisto entrou o nosso ilustre pe. Romeu provido de mais dois jarros de vinho.
- Mais um copo excelência! - pedi num tom um bocadinho mais elevado do que o normal.
- É melhor deixares isso para outro dia, minha senhora, essas bochechinhas rosadas indicam que já estás bem animada! - brincou Rafael.
- Ah não, isto sou eu que estou corada por estar ao teu lado! - Tinha acabado de dar a prova de que já não estava no meu juízo perfeito.
- Hoje finalmente vamos poder dormir uma noite descansada, sem perseguições, tudo organizado. Depois deste farnel vai saber que nem ginjas! - Alegrou Gualdim com um ar de puro contentamento.
Todos concordaram e brindaram à nossa situação, incluindo o Pe. Romeo que nesta altura também já se apresentava bastante aconchegado com um ar de bebé e a barriguinha de boa vida.
Depois de ter reconfortado o embrulho no bolso de dentro do meu casaco, bem junto ao meu corpo, senti-me realmente aliviada e pronta para descansar o corpo e o espírito. Ao espreitar pela janela vi que a lua brilhava bem redonda e luminosa na companhia das estrelas que nos guiavam noite após noite nas nossas caminhadas. Depois de comermos até nem podermos sentir o cheiro a comida, alguns de nós adormeceram nos cadeirões junto da lareira enorme da cozinha que era utilizada para preparar as refeições. Eu era amante da noite, e nenhuma noite era tão bonita com a de Inverno, céu limpo e iluminado, a geada nos campos deixando apenas o cimo das árvores à espreita, o voo silencioso de uma coruja a rasgar a neblina adormecida, e principalmente as gotas de orvalho cristalizadas sobre a pedra fria da Igreja dando a ilusão de ter sido construída através de magia.
Embrulhei-me com o meu casaco e um cachecol vermelho e vim cá para fora observar este ambiente maravilhoso.
Estava frio, muito frio, mas eu não me importei. Estava noutro mundo. Via as estrelas a emanarem aquele brilho irregular. Aquele brilho a crescer. Aquele brilho a desfocar. Aquele brilho a aproximar-se de mim. Aquele brilho que se transfigurava agora numa forma humana mas imaterial. Apenas uma luz. Acho que já estou a sonhar…
- Quem és tu…o…que…és tu?
Foi então que uma voz entrou por mim a cantar.

EGO sum hic super ut te servo.
Unus of septem.
Ut vos orbis terrarum in posterus , fides perdo
UNUS vestri perfectus unus eripio per Operor vos vere vilis is.
QUOD vos admited nobis they ero iens tepirdo.

Operor? Verdade? Mas que Verdade?
Nisto, abri os olhos de repente, e tudo se encontrava exactamente como quando ali cheguei.
Já deveriam ser umas tantas da madrugada, era hora de voltar para dentro e aconchegar-me nos cobertores de pêlo.
Entrei e fechei a porta atrás de mim, sem saber que na janela alguém me observava desde o início.
- Ela está cada vez mais perto de saber a sua missão. Esta visita dela só pode querer dizer isso.
- Eu sei, nós já passamos por isso e em breve será ela.
O céu começara já a clarear.

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