quarta-feira, 28 de maio de 2008

Quimbé?

Ai Cristo! Queres ver que a minha Giselle anda por aí aos beijos de cinema com o nosso hospede? Ai Cristo, Cristinho, não pode ser! Vamos ficar faladas na aldeia. Ainda nem falei com ela por causa do desgosto que deu ao coitadito do Manel...E não é que agora o moço me aparece desmaiado? Quando chegámos a casa não tava ninguém! Nem Giselle nem inspector. Se toda a aldeia estava na missa, onde estavam eles? Não podiam estar nem no cabeleireiro nem no café nem em lado nenhum...Ai daqui a nada...Ai não...A minha Giselle não pode perder a honra! É uma menina pura e casta! Há de honrar a sua família quando desfilar de branco na igreja aqui da nossa paróquia! Ai se aquele inspector lhe tira a pureza...ai que eu não sei o que lhe faço! Sim, porque a minha filha é tão inocente, tão querida, tão nova. Meu amor, meu Quimbé! Peço-te, Quimbé! Protege a nossa menina! Protege-a. Agora tudo acalmou: O Manel levantou-se lá do chão da praça, foi para casa, a dona Marcolina foi para sua casa, o Jerónimo para o café, cada um para seu lado! Estava em casa a tricotar uma mantinha para o enchoval da minha Giselle que está muito bonita e...Oh...Sinto uma presença. Quimbé? Quimbé? MEU AMOR! QUIMBÉ ESTOU TE A SENTIR! Oh...as lagrimas correm-me pela cara a baixo. Deus ouviu o meu chamamento enviou-me Quimbé, o meu maridão! Conta-me Quimbé, meu bem, como tens passado? Hã?...Não te estou a ouvir! Quimbé? (uma janela bate com o vento) Oh! Sempre foste um vadio (risos), fujis.te meu malandreco! Mas sei que voltas. Tens de voltar...Ou então, meu bem, vai procurar a nossa filhinha. O quê? Queres que vá contigo? Mas está a chover! Mas eu vou à mesma...Pronto, Deus meu...Quimbé esteve aqui! Eu sei! Será que o seu espírto veio com a chuva? Oh! Espera Quimbé! Deixa-me vestir um casaquinho e pegar no meu chapéu de chuva. Seguir-te-ei, meu Quimbézinho. Foi então que segui o meu Quimbé. A chuva era muita e, na verdade, não via Quimbé, mas sabia que ele estava por perto e que me dizia: "Vém! Vém!". E eu fui. Quando andava praticamente a deambular pela vila e a espreitar todos os cantinhos, não fosse a Giselle estar na marmelada com o inspector num canto obscuro, ai, nem quero pensar, encontrei algo que me...intrigou. Já era quase noite, chuvia a potes e, num desses becozinhos da nossa vila, avistei dois vultos ao fundo. Dois vultos que se uniam num só, se é que me percebem. Eu sou velha mas ainda não estou chéché!
- Gise...- Ia eu a chamar, quando me aproximei mais e me apercebi de que não era a minha filha que tava lá toda engalfenhada com um sujeito. Cheguei mais perto. Tinha parado de chover, graças a Deus e a Quimbé que também deve ter ajudado à coisa (meu Quimbézão tão poderoso).
- Ai, meu amor!
- Ohhhhh!!- Gritavam as pessoas que estavam lá a beijarem-se no beco, aqueles beijos de cinema, aqueles, não sei sabem, aqueles de rodar em que as bocas se colam e depois é rodar...rodar...rodar...Eu no meu tempo não tinha nada disso! Eu morava em Vaquinha Branca, numa aldeia lá para depois de Torres e um dia o meu pai disse-me: - Tens de te casar!- E depois falou lá com uns amigos que conheciam um senhor que conhecia outro que tinha um filho também casadoiro e disseram que era mesmo aquele. Era, portanto, o meu Quimbé, que havia chegado de África à pouco tempo, mas que era bem parecido. E, apesar do preconceito pelo facto de Quimbé ser um bocado mais moreno (lá nas africas fazem se filhos ao sol e depois é o que dá), meu rico pai disse:- Ná mais ninguém, tã vai memeste!- E assim foi. Conheci Quimbé numa sexta, tomámos chá no sábado e casámos no domingo. Eu gostei logo dele! Ai...Era mesmo...Olha! Era bem bom, como diz o Manel da minha Gis...Pronto, o Manel. E olha, na noite de nupcias não houve cá beijos à cinema, de rodar, rodar, rodar. Nã! Agarrei-me ao estrado da cama, agarrei-me ao terço e olha...lá foi disto! No entanto a Giselle só nasceu à poucos anos, porque tive alguma dificuldade a...Shhiiiuu..Nós não queriamos ter filhos logo, era isso. Bom, mas depois de muitas tentativas (ai, Quimbé, quando me lembro até me arrepio) lá nasceu a minha menina que não era de certeza a pessoa que estava no beco naquele final de tarde! Ora, aproximei-me, aproximei-me e...
- SENHOR PRESIDENTE? E...DONA EUNICE?? MAS QUE POUCA VERGONHA É ESTA??- Eles ficaram estupefactos! O homem tinha o bigode com baton vermelho e ela tava toda bezuntada do próprio baton! Descabelados!Molhados! Que horror! Que tragédia!Lá está! Beijos de rodar e rodar e rodar! Malandros!
- Eu posso explicar cara senhora Mariana- disse ele.
- Matilde!- Disse a Euníce- O que faz aqui?
- Ando com o meu Quimbé à procura da Giselle...E você? O que faz aqui? Esta é a pergunta correcta sua...sua...aiiii meu S. Palito! O que dirá a senhora primeira dama! Ai...Boas razões tinha ela para não estar feliz e bem consigo! Sua...leviana!Vadia!
- Calma minhas senhoras, tudo tem solução!- dizia o presidente Costeleta que agora estava frita! Pelo menos quando a senhora Prudência souber...Só vai ficar o ossinho da costeleta, se ficar! Então, decidi não ouvir mais nada e correr para casa do Costeleta contar tudo à coitada da mulher traída! Voltei costas, eu e o meu Quimbé, claro (ai, meu Quimbé, chegas agora e vê lá o que vês...Não haveria melhor altura? Ou terás mesmo sido tu o responsável por eu estar naquele local áquela hora? Oh...sempre tão preocupado com as pessoas...Sempre tão justiceiro!), e, de repente, agarraram-me.
- Não vai contar nada!- Disse a Eunice.
- Ai isso é que vou! A senhora primeira dama é minha amiga!
- Nós arranjamos aqui uma maneira de resolver a questão- Disse o Costeleta...Mas vejam lá! Comigo não fazem farinha! Nem comigo nem com o meu Quimbé...oh...Estou-te a sentir...

Nenhum comentário: