
Sei de tudo, de toda a gente, de todos os objectos, do sol, da chuva, do vento, dos bichos, enfim...Sou um cidadão do mundo que é esta vila! Bom, basicamente sou eu...Basicamente sou alguém...basicamente sei de tudo porque tenho um café; de toda a gente poque ouiço conversas; de todos os objectos que as pessoas deixam no meu café, perdidos; do sol porque tenho uma plantação de guirassois no meu quintal; da chuva porque, para além dos girassois, tenho alfaces, coves, cenouras, pimentos, nabiças, nabos plantados na minha hortinha; sei do vento poque vivo sozinho com o meu piqueno e tenho de por a roupa a secar...bem que me fazia jeito uma madama, mas já sou tão velhote...Nunca casei, acham-me um machista, um bruto e um insensível, mas não sou! Ah! E sei dos bichos porque tenho caruncho na madeira. Sabidos pá! Levam com o sprey e nem assim falecem! O Crispim às vezes come-os, está um homem feito, não acham? Epá, mas vamos lá ver uma coisa: Ninguém sabe da horta, hã? Nem dos girassóis nem de todas essas "mariquices" e nem é para virem a saber. Não desconfio de quem está aí desse lado, oh leitor que estás sentado nessa cadeira a pensar que podias estar a fazer algo muito melhor do que estar aqui...Sei também das palavras! Faço versos, textos belos! Mas, epá...calminha! Sou muito macho! Não vamos por piadinhas fatelas! Mas, lá está, gosto de explorar o meu lado sensível que se esconde debaixo da minha camisola com nódoas e das minhas calças lavadinhas à dois anos ( O Coices já me propôs um desafio mas não me parece, até porque estou a pensar lavar as minhas amanhã. Ai, amanhã não tenho tempo...Não, depois. Depois também não tenho tempo...Talvez...Só pode ser para o mês que vem. Bom! Os versos que faço não são dedicados a ninguém, aliás ninguém os vê. Neste momento estou a escrever na minha escravaninha de madeira...Ai! C'um caroço! Filhos da mãe, estão me a comer a gaveta das folhas...Bichas d'um...Belos bichos que são seres vivos! Seres da natureza! Seres do paraíso! Criaturas de Deus! Merd...Já estás! Cabr...Agora tás! Já não vives mais! Hum...err...Não vives mais neste mundo cruel, oh bichinho da madeira! Animal pequenino mas com uma grande vida! Sabe-se lá como foi a tua passagem por esta vida, como fintas-te o futuro,como encontras-te o limiar entre a vida e a morte! Ai...Está-me a dar uma coçeira! AH! VÃO ME COMER AGORA? Chega. Estou infeliz. Estou a perder client...
- Oh, paaaaaaaiii!!
- Qué?
- Ond' tão os meus Chnélos?
- Tão ao pé dos blos que chegaram para a venda no café!
- Quê?
- CAFÉ!
- AH! B'gada!- O meu filho, Crispim...Bom, estou a perder clientela! Houve um crime perto do café e agora há pessoas que não vão lá, ao café, pois claro, porque dizem que podem induzir o inspector a algo. Têm medo de serem considerados suspeitos. Pelo que a dona Marcolina me disse, coitada, está destroçada a pobre mulher porcausa da morte da parente, as pessoas têm medo de serem acusadas por que dizem que "o assassino volta sempre ao local do crime" e se o inspector as vê lá...Estão feitas!
- Oh dona Marcolina- disse eu à dona Marcolina- Mas no meu café não houve cá falecimentos! Nunca um óbito tomou uma bica aqui, queira a senhora saber! Aqui não há nada dessas coisas!
- Oh senhor Jerónimo- diz-me ela- Mas eu...
- NÃO TÃO LÁ!- Crispim volta e fala-me lá de dentro.
- OH RAIOS PARTA O MIUDO! TÃO...
-NÃO TÃO PAIIII!
-AGORA NÃO ME VOU LEVANTAR DAQUI! DAQUI A NADA APANHAS! (Olha...Zás! Mais um bicho do inferno! Este já vai para o mundo das alminhas! he, he, he!)
-JÁ VIIIII!
- TAVAM ONDE, FILHO?
- TAVAM JUNTO ÀS HORTALIÇAS PARA A SOPA DE AMANHÃ, AO PÉ DAS TUAS MEIAS DE ONT...DE ANTEONT...DE À UMA SEMA...DE À UM ANO!
- OK! AGORA VAI BRINCAR C'O COICES! DESOPILA!- Ai...é preciso ter tanta paciencia para este meu rapaz. Bom! Como estava a dizer, a dona Marcolina disse que tinha receio de que o inspector desconfiasse dela por ela ser uma mulher tão misteriosa.
- Misteriosa?- disse eu, quando estava a falar com ela- Oh, dona Marcolina! A senhora é transparente! Vê-se que é temente a Deus! Uma mulher sábia...vivida (e ela ia se chegando ao balcão), bela...(e ela chegava mais), carinhosa...(maaaais)atenciosa... (ai que ela cai cá para trás do balcão e vê que os queques dela são feitos com a massa que sobre dos outros bolos) e...perigosa!- conclui.
- Perigosa?- disse ela indignada- Eu? Oh!- E deu meia volta e saiu.
- PERIGOSA NO SENTIDO DE...- E depois não continuei, porque, apesar de não estar muita gente no meu café, os que estavam iam-me dar de comer para a semana. Para trás ela deixou, caído, demaiado, derrubado, em cima do balcão, o seu terço madre-pérola...Guardei-o com carinho e agora olho para ele...Oh! Santo Deus! Santo Deus! Como amo...Como amo madre-pérola! E como estas madre-pérolas...Epa, bem avaliadas e vendidas...He he he! Temos comida para um mês! Santa Marcolina! Epá, qué aquilo?Ahhhh magano!...Zás! Este já vai para a barca infernal!
Um comentário:
Bem, voces agora só escrevem grandeeeeeeeeeeeees textos!!!!!
Gostei do Basicamente sou alguém...
Basicamente todos somos alguém!! xD
Tá girooo
Bjs\
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