quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Charlotte"

Isto parecendo que não somos uma família! Uma família muito estranha, mas ainda assim uma família. Se há uns anos atrás me tivessem dito que eu, maior estrela de Paris, estaria aqui no meio do nada ... ai, ai como a vida muda! Só espero encontrar um porto simpático onde atracar, preciso de ver terra, já enjoei de tanta água. Mais do que ver terra ... preciso de ver homens! Homens a sério, não como aquela amostra de gente que é o Pacheco. Pacheco é o negrinho que comnheci em Milão. O pobrezinho estava sem trabalho e sem sítio em que ficar e foi então que eu disse "E o que tenho eu a ver com isso??". Ele ficou a olhar para mim com aqueles olhas grandes e suspirou. Penso que foi o meu lado maternal que não resistiu e resolvi contratá-lo como ... como ... faz tudo! É meu mordomo, mas também limpa as casas-de-banho ocasionalmente. É também bailarino e comediante às quartas. Mas mais importante de tudo, é o nosso comandante! Sim o comandante do navio Charlotte. Naturalmente o nome é o da sua proprietária.
Mas não pensem que estamos apenas os dois neste enorme navio. Pronto neste grande navio! Uma dama tão talentosa, respeitada e bela como eu viaja, naturalmente, com uma grande companhia. Para além do negrinho (convém realçar que ele é um rapaz de 23 anos, não é nenhuma criança), viajo na companhia de Jaqueline que é a minha protegida, uma bonita corista com grandes dotes vocais e não só, o Florentino " o mágico" Chamuça que é de ascendência indiana e cheira a chamuça lá está. Para além disso, no meu negócio, é sempre necessário uma grande quantidade de bailarinas e a música é fundamental. Apesar de não ter bailarinas permanentes, neste momento conto com a Anne, a Monique e a Clare. Para além disso temos músicos que fomos encontro pelos portos por que passávamos: um pianista de Roma, um saxofonista de Barcelona, um violinista sabe-se lá de onde e um guitarrista de Lisboa.
É claro que manter um barco como o "Charlotte" não é fácil. É preciso ser dura com os meus "marinheiros". Quando não há espectáculo é natural que todos tenham de dar a sua ajuda, é quase impossível manter o barco limpo. Eu sou a administradora é claro, gostava muito de os poder ajudar a limpar, esfregar o porão, limpar as casa-de-banho e essas tarefas enfadonhas. Mas uma senhora não se pode entregar a tais trabalhos. Eu preciso do meu banho de beleza, que me ocupa praticamente toda a manhã. Em seguida tratao dos meus lindos cabelos negros e aplico os meus cremes caríssimos para retardar o envelhecimento. O Pacheco perguntou-me no outro dia " Como tu mantens tua beleza intacta?", é natural que a minha beleza o fascine, mas também sou uma jovem de apenas 39 anos. Está bem 41! (Charlotte tem na verdade 45 anos)
O barco é até bastante luxuoso para o estado em que eu o ... a ... a ... herdei. Estava num estado lastimável mas eu decidi que valia apena investir nele. Mandei retirar o chão de madeira velho e esburacado e colocar carpetes cor de vinho por todo o barco (excepto no porão). As paredes estão revestidas com papel de seda que varia consoante a divisão. os candeeiros são de vidros coloridos, mas também temos candelabros e velas perfurmadas pelos corredores. O corredor principal tem espelhos por todas as paredes, com molduras douradas. As bailarinas partilham o quarto que dispões de 2 beliches e uma casinha-de-banho. Já os músicos não tem tanta sorte e dormem na mesma cama, uma King Size bastante confortável. O Florentino dorme junto à cozinha, na antiga despensa em que colocámos uma cama com colchão de penas. O Pacheco teve menos sorte e costuma dormir ao relento no porão, aconchegado entre os sacos de farinha. Para a Jaqueline reservei um quartinho especial, junto ao meu, com uma janelinha em forma de coração, cama com dossel e papel de parede cor-de-rosa com pequenas flores douradas. Claro que o meu quarto é o mais requintado. está repleto de tudo o que possam imaginar ... sedas da China, estátuas de mármore, uma cama redonda com um colchão de água delicioso, lençóis pretos e colcha vermelha sangue, e um candeeiro enorme recheado de cristais e adornado com pequenos rubis em forma de rosa. Devem estar a perguntar onde arrenjei tanto dinheiro, e porque o investi nesta lata velha ... bom não se deixem enganar pelo exterior.
No lado direito do barco, ao passar por umas escadinhas estreitas e por um corredor de 8 portas encontramos ... o meu cabaret! Sim! É esse o meu projecto, encontrar o sítio perfeito para estabelecer o meu negócio! Encontrar as melhores raparigas, cantores e bailarinos ... ser o centro artístico de França, esqueçam Paris a capital do amor agora é ...
- Terra à vista! - grita o Pacheco lá de cima.
Até que enfim o nosso destino! Ora a capital do amor é agora ... Fleury?
- Mas que raio? Negrinho!! Tens a certeza que não te enganas-te na rota??
- Não senhora. Fiz tudo o que a dona mandou.
- Bom vamos mas é continuar isto ... isto é o fim do mundo! Que vilazeca mais sem graça! Só há pescadores, barcos ... peixe! Que cheiro horrível! Vamos já embora, muda lá o rumo e essas macacadas que fazes, vamos é ...
- Sinhora ...
- Que foi?
- Nós encalhámos dona, agora não dá para voltar para trás.
- NÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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