
Atchim, atchim! Mon Dieu, toda eu sou mucosidade, toda eu sou fluídos pegajosos! E onde se terá metido aquele rapaz? Disse que não demorava. Já está bem escuro e as estradas não são nada seguras a estas horas. Ainda por cima a chover! Oh mon dieu! Que terá acontecido? Estará caído no meio da estrada, já com corvos de volta dele???
- Maman?
- Ai graças a Deus estás bem!! Oh meu rico menino, já estava a pensar o pior! Nunca mais me fazes uma destas ... ai o meu pequenino!
- Mãe, tem calma! Só me atrasei um pouquinho e ... temos visitas por isso, podias largar-me um pouco? Só um pouquinho?
- Mas quem? Que ... não me digas que engravidas-te a moça? Bem isto começa a ser repetitivo! Alan Phillipe tu não tens juízo nenhum e ...
- Calma, calma maman! E não confundas as coisas, a Pauline estava com gases nesse dia. Não comeces já!
- Bom senão a engravidas-te o que está ela aqui a fazer? É uma das tuas amiguinhas de Paris?
- Não, vê se te acalmas e me deixas explicar!
- Estou ATCHIM calma.
- Esta é a Odette. Conhecia no caminho para cá quando te fui fazer o recado. Ela é de fora e precisa de um lugar para ficar. Trouxe-a para aqui por já sabia que mais ninguém a ia acolher na vila.
- Porque é cigana?
- Não, mas para vocês ninguém é suficientemente bom para cá ficar.
- Temos as nossas razões. Mas ATCHIMm diz lá rapariga, de onde és?
- Mamam ela deve estar cansada. Vou levá-la para o quarto da Emanuelle está bem?
- Mas ...
Calou-me com um beijo na testa. O meu querido Alan bem sabe como me dar a volta. Só espero que a rapariga não esteja aqui para ficar, quero-a fora daqui em uma semana. Não a quero para ali a dormir no quarto da minha pequenina, a minha pobre menina que nos deixou tão cedo. Foi a maldita tuberculose que a levou! E tudo por culpa dos malditos saltimbancos que só sabem espalhar o mal. Morreu tanta gente nesse ano, a vila ficou praticamente sem crianças e por isso a gente de Fleury não vê com bons olhos a chegada de pessoas estranhas à nossa terra. Já não bastava o barco e agora esta flausina. E o Alan entrou com aquele brilho nos olhos, o mesmo brilho de quando falava da Pauline.
- Alan? Chega cá ao meu quarto se faz favor.
- Diga maman.
- Tu nem penses em arrastares a asa para aquela moça ATCHIM ouviste? Tens tanto moça bonita em Fleury, não precisas de estrangeiras! Tu vê lá filho não partas o coração à tua velha mãe!
- Primeiro tu não és velha, és uma múmia mesmo!
- Seu idiota! não se fala assim com a própria mãe!
- Ahahaha ... estava a brincar! Eu não arrasto a asa para ninguém, mas achas que ela gostou de mim?
- Vai já para o quarto! E olha que eu vou lá trancar-lhe a porta se for preciso!
- Tenho sempre a janela! Ahaha!
Saiu ao pai o que se há de fazer. Não leva nada a sério, tudo é motivo para brincar. Ai a minha cabeça! Mas será que isto nunca mais passa? Tenho tanta coisa para fazer, não posso estar na cama. Preciso é de uma boa noite de sono e acabou-se. Amanhã volto ao trabalho.
Esta loja está uma bagunça. Os tecidos todos enrolados, botões e agulhas por todo o lado. os manequins tem as pernas e os braços trocados. Que criança! Preciso é de uma esposa que lhe meta juíza na cabeça e o torne responsável, pois eu estou farte de tentar!
Enquanto estava a arrumar e limpar ouvi um barulho vindo da cozinha. Imaginei que fosse o Alan. Nunca foi de dormir muito.
- Querido andas à procura de alguma coisa?
- Eu ... desculpe madame! Vim só beber alguma coisa para me fazer à estrada. Se não for incomodo ...
- Claro que não filha (alegria, obrigado mon Dieu, pequenos festejos na minha mente, salto, pulo e rio) deixa que eu mesma te sirvo uma chaveninha de café!
Derepente sinto-me como se tivesse 40 anos outra vez!
- Mas diz-me ... dormis-te mal foi?
- Não, não! A cama era óptima. Aliás já não dormia tão bem desde ... sempre.
- Que bom saber. mas então vai para onde?
- Penso ficar em Fleury mas talvez numa pensão. Não quero incomodar.
- Compreendo. talvez seja o melhor sabe? Afinal a vida está cara e uma viúva~mal consegue sustentar um filho e ela própria, mais uma boca e ...
- Eu percebo.
A rapariga lá bebeu o café e um bolinho de mel que eu para lá arrenjei e partiu. A coitada não vai arranjar quem a albergue e acaba por ir embora hoje mesmo.
- Bom dia maman!
- Então dormis-te bem meu amor?
- Maravilhosamente ... a Odette já desceu?
- Já desceu e já saiu.
- SAIU? Para onde?? Tu não ...
- Eu nada! A moça diz que queria ir embora para não incomodar e eu concordei. O que podia eu fazer?
- Olha eu vou sair e não volto até a encontrar. Falamos quando eu chegar!
- Mas que é que eu fiz?
Ele ainda me vai agradecer. Só espere que já não a encontre. Entretanto vou reabrir o negócio, tenho de compensar os tempos que tive parada.
Não tarda nada e tenho a loja cheia com as clientes do costume. A Françoise com a gata Estelle, a viúva Georgette e a Edith.
- Bonjour Edith!
- Bonjour! Vejo que se sente melhor Anne Marie!
- É verdade. A vida tem destas coisas, quando mais precisamos Deus dá-nos saúde para enfrentar os tempos dificeis.
- Está a referir-se ao barco do pecado atracado no porto de Fleury? - questiona Françoise enquanto acaricia a gata.
- E não só! Imaginem-me que o meu Alan trouxe-me uma rapariga ontem para casa! Uma estrangeira!
- Oh mon ... não me diga que ... como a Pauline? - pergunta Georgette curiosa.
- Non, cruzes credo, era uma desgraçada que estava perdida na estrada ou sei lá. Sabe Deus o que ela lhe fez para o convencer a trazê-la para casa. Só espero que não seja dessas bruxas que andam por aí. Se bem que não me pareceu cigana.
- E como é ela Marie? - Edith parece ter-se arrependido de ter feito a pergunta, pois logo a seguir baixou a cabeça e murmurou baixinho.
- Bom, não se pode dizer que seja feia. É até bastante bonita. Um tanto ou quanto pálido e de cabelos dourados aos cachinhos. Vinha com uns trapos vestidos e toda molhada.
- Hmmm ... tu tem cuidado Marie essa parece daquelas ... nem quero dizer a palavra que me arrepio.
- Há muitos anos que nenhuma ... anda por estas bandas Georgette. E o meu Alan ganhou algum juízo depois da Pauline. Não acredito que se deixe enganar tão facilmente!
- Vocês estão a falar de ... ahh ... pros ... senhoras da vida? É que ... eu acho ... quer dizer eu sei ...
- DESEMBUCHA EDITH! - gritámos em coro.
- Bom, eu acho que o barco está ... é ...
- Não pode? Um ...
- Sim Marie. Eu própria vi com os meus olhos!
- Isto é gravíssimo temos de avisar ...
- Não Françoise! Isso fica para depois. Agora tudo faz sentido ... a rapariga deve ser uma dessas pegas do barco. A querer desviar o meu Alan. Ela vai ver!
Acabei por fechar a loja mais cedo do que o previsto. Simplesmente não me conseguia concentrar. A raiva era demasiada! Fiquei na sala a tarde toda à espera e como de previsto o Alan chegou sozinho.
- Que pensas que estás a fazer? Não sou nenhuma criança para te andares a meter na minha vida!
- Estou a zelar pelos teus interesses! Não quero que te magoes!
- Magoar? Conheço-a à um dia!! Achas que me quero casar com ela??? Mal a conheço!
- Então por é que ficas-te tão chateado quando ela partiu?? E porque estás a gritar agora?
- É IMPOSSIVEL FALAR CONTIGO!
- Estás a portar-te como uma criança ... vê se te acalmas, vai ao Louis beber uns copos e volta quando estiveres mais calmo!
- Vou e não volto esta noite!
Aquilo passa-lhe. Muito provavelmente está de volta antes da uma.
Dito e feito, uma da manhã e já estava o menino de volta a casa!
- Anda cá meu palerma! A maman faz-te um cházinho quentinho e ... TU??? Mass ...
- Desculpe madame. O seu filho não estava em condições de vir para casa sozinho como pode ver ...
- "Viva, viva as raparigas de Paris
Belas e jovens raparigas de Parisssssss
Venham cá para a meu colinhooooo
Dêem-me um beijinhoooo
Lindas e ..."
- Que lindo estado sim senhora! Que vergonha Alan, levanta-te!
- Oh mamann, foi só para celebrarrr. Quando saí daqui estava tão mal e agora ... estou tão FELIZ ... deliz, feliz, feliz. Não é linda a Odette?
- É linda mas tem de se ir embora não é? Desculpe lá qualquer coisinha!
- Com certeza arranjei um quarto na pensão do Louis. Não precisa de se preocupar, já ouvi o que a senhora espalhou a meu respeito. Não volto a esta casa e se me vir na rua não precisa de me cumprimentar.
- Se não fosses estrangeira até gosta de ti.
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