
- Alan! Chega aqui...Sim, já sei de tudo bem podes desfazer essa tua carinha de cão abandonado porque a mim não me comoves. Alan, Alan!! Uma mãe cria um filho para isto? Olha para ti: bonito, educado, gentil, tal como o teu falecido pai. Para quê trabalhares naquele barco horroroso? Porque não segues o oficio da família? Tens jeito para a costura, poderias vir a ser um alfaiate dos melhores do mundo! Já estou mesmo a ver todas as donzelas e madames a comprar nas “Casas Alan”, ai…era um sonho! Pensa nisso! Pensa nisso, filho! Era uma coisa…e as vizinhas aqui a morrerem de inveja, essas sim ia-se roer! Os filhos delas, uns padeiros, uns coveiros, outros donos de agências de mortos, que não dão em nada, como o filho da Claude…Ai, o meu Alan! Mas agora vens me com esta de ser pianista num bord…
- Mére! Não é um bordel!
- Alan Antoine…Olha a linguagem!
- Mas…
- Chiu! Que desgosto estas a dar a esta tua pobre mãe doente!
- Estás com gripe, mãe, mais nada…
- Vou morrer!- começo a desfalecer no sofá.
- Mãe…
- Olha! Já ouço os anjos cantar!
- Vá lá, mãe...
- Como cantam bem…
- Deve ser o padre que está a ensaiar o coro dos miúdos!
- Alan! Não brinques comigo! Não vês que estou quase a partir, mon Dieu!?- recompus-me bruscamente- Bolas! Pára de te fazer de parvo! Andas-te a beber?
- Por acaso até…
- Não era para responderes! Mon amour, vá lá, olha pela tua mére, velha, a desfalecer…Sai daquele sítio horrível.
- Mas a mãe ainda não viu aquilo. É muito giro, mesmo! A Edith gosta e a Odette adora lá estar!
- A Edith, outra que cai em tentação! Anda lá enrabichada por um garçon. Malditos homens! Só o teu finado paizinho era às direitas.
- Os rapazes da banda são bem educados, alegres e bem-dispostos, eu gosto deles.
- Pois! Tu e a desavergonhada da Edith! Depois é “Padre, pequei mais ou menos”, é…eu bem oiço ela a dizer isso.
- A mãe escuta as confissões para o padre Fontaine?
- Eeeeeeeu? Ouvi de longe, e foi só daquela vez, estava a por flores no altar de nossa senhora dos filhos mal-agradecidos!
- Isso não existe mére…
- Mas devia existir! Alan, reconsidera, por favor! Vamos ficar falados!
- Quero lá saber! Não me interessa nada disso! - disse ele, levantando-se da pequena poltrona onde estava sentado, cujas capas bordei- Mére, entenda de uma vez: Não vou ser alfaiate!
- E padeiro? O teu falecido tio era e olha que aquilo dá…
- Mére! Acabou…quero ser músico. Sempre estudei piano, adoro piano foi você que me pôs nas aulas de piano!
- Maldita a hora! Conselhos do teu falecido avô Jaques!
- Não vou sair de lá e quando o barco rumar a outro sítio eu…eu…vou com eles.
- Hã???? Ai, ai…está-me a dar uma dor aguda na zona do peito…Espera por mim Antoine, mon amour, vou ter contigo daqui a 5…4…3…
- Mãe!
- 2…2…2…
- …Não vou mudar de ideias -disse aquele filho ingrato!!- Vou para o barco, não devo voltar para jantar. Adieu. -Ainda lhe consegui gritar:
- 1!!!!!!!!!!!!!!- Mas ele já ia em direcção àquele mamarracho podre flutuante. Foi ela. Foi ela! Foi ela!!! Foi a estrangeira que lhe meteu coisinhas nos miolos! Odette, Odette…Virou-lhe a cabeça de tal maneira que agora o rapaz só pensa em viajar e tocar e…Antoine! Antoine! Tu que estás aí no céu, Antoine! Olha pelo teu filho! Ai, mais isto iria ficar assim. Fui ajustar contas com aquela estrangeira e com a dona daquela barraca flutuante! Calcei os meus melhores sapatos, o chapéu que veio de Paris, oferecido pela minha prima Caroline, e fui, fui sem medo e com uma raiva que só Dieu sabe! Cheguei e bati à porta, se é que era uma porta. Veio-me “atender” uma criança!
- Digá.
- Queria falar com alguém crescidinho, alguém responsável.
- É…- a criança tirava um pequeno chapéu e coçava a cabeça- eu sou isso, acho eu- pobre menino, perdido naquele antro!
- Oh, mas que amoroso. Vá, a tua mére?
- Tá em Angóla!
- Ai…tão longe! Ela é…?
- É…? Africána!
- Ah…sim, pois, claro, agora até os povos africanos…ai, Dieu! Bem, sabes onde pára uma menina chamada Odette?
- Tá na cama.
- Oh!!! Jesus…Oh! E sabes onde está o Alan?
- Pianista?
- Sim.
- Entre e veja pelos seus próprios olhos…- A criança estava tão segura de si, supostamente já viu mais com aqueles inocentes olhos que muito homem feito nesta vida. A criança levou-me, então, a uma salinha. Dizia: “Em ensaio”.
- Não sei se quero entrar…
- Dona! Vamo lá! Não ouve a música? É só abaná as perna e as anca! Olha eu…- A criança começou a dançar. Um dançar demasiado adulto e sensual. De um relance abri a porta e vi aquilo que…oh…que estava a ser ensaiado. A Odette, irreconhecível, estava sentada numa cama, num palco, a simular um choro e o Alan tocava uma música melancólica no piano. Era arte, o que faziam ali! Juro que por momentos senti uma lágrima a querer fugir do meu olho. Fiz sinal para continuarem e continuaram. A criança ofereceu-me um lenço para enxugar as lágrimas. Agradeci. Um teatrinho…e a estrangeira representava bem…até que…
- Voilá!- e mostrou uma perna.
- Voilá!- e mostrou outra!
- Voooooooooilá!!- E muitas mulheres entraram praticamente nuas, cheias de plumas e brilhos, pintadas como palhaças a dançar e a mostrar as pernas os seios, ai, Jesus me perdooe, mas que…atrevimento! Continuavam a dançar e a cantar e o meu Alan super divertido ao piano. Entra um saxofonista, um contrabaixista, um violinista que tocava à velocidade da luz e todos estavam felizes! Bailarinas, bailarinas, plumas e vaidade! Umas sem vergonha! A Odette era uma delas! A principal, vejam bem! Ainda no outro dia me apareceu lá em casa toda sem abrigo, toda coitadinha, toda eu não faço mal a uma mosca…hã! O tanas! Olha como ela está, agora? Credo!
- Criança, abre a porta, quero sair!- ordenei, no meio de tanta confusão.
- Mas ainda não viu nada! O mágico vai tirá…
- Tirar mais alguma coisa? Aqui já se tirou praticamente tudo! Vá! Abre a porta, criança e que Deus te acompanhe nesta vida!- A criança abriu-me a porta e saí disparada, o me valeu um valente encontrão com o que me parecia uma das bailarinas.
- Ai! Quem é você? E que chapéu é esse?
- Desculpe, menina, ou seja lá o que for! - e continuei a andar. A moça, que até era bonitinha, veio ter comigo. Enquanto eu caminhava para a saída ela acompanhava-me a passos largos.
- Quem é a senhora?
- Olhe…nem queira saber!
- Não me diga que é a mãe da Edith, aquela rapariguinha sem sal que…
- Não, filha! Sou a mãe do Alan, neste momento não estou feliz por isso! Mas eu sei que foi aquela mosca morta, foi ela, toda songamonga, toda do estrangeiro. Vá, tenha paciência, uma boa tarde, adieu!- Abri uma brecha da porta da rua quando a moça a fecha rapidamente, quase me entalando. Fiquei a olhar para ela. Ela ria-se.
- Mãe do Alan, hã? …Muitíssimo prazer, madame! Sou a Jaqueline, Jaqui. Acho que temos de conversar…
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