sábado, 14 de fevereiro de 2009

Bolinho de cenoura

Mas que ...? Mas o barco está com problemas? Porque é que parámos? Mas ... que sítio é este? A Charlotte anda a beber demais, ela pensa fazer negócio aqui?
- Charlotte?? Madame??
Onde se meteu aquela mulher? Bati à porta do quarto mas não respondeu. Fui até ao porão e olhei à minha volta ... mas que vilinha mais patética! CHARLOTTE????
- Jaqui não nos queres vir ajudar docinho?
- Agora não Marcelle ...
- Estás linda hoje, vejo que estás a usar o corpete que te comprei em Veneza!
Opss, está explicado o friozinho que me percorreu a espinha, ou seria por causa do Marcelle ...
- Bom já vi que não me vais ajudar ... já agora que estão aí a fazer?
- Foi a âncora docinho. Ficou presa em alguma coisa, mas não deve demorar. Devemos partir ainda hoje.
Ao menos isso. Mesmo assim a maldita Charlotte deve estar a fazer das suas, vai-me sempre acordar quando chegamos a um novo porto. Costuma-mos fazer o reconhecimento da zona juntas.
- Ah aqui está a minha Jaqui! Apresento-te a Edith.
- Edi ... quem? (Que mulherzinha enfezada)
- Uma rapariga que veio cá ver o nosso "Charlotte", vim mostra-lhe as instalações.
A mulherzinha enfezada olhou-me de cima abaixo e fez um gesto de desaprovação com a cabeça. A Charlotte disse que tinha de tratar de uns assuntos e eu fiquei encarregue de lhe mostrar o resto das salas. Era o que me faltava. Já nem me lembrava que haviam pessoas assim, desinteressantes, pobremente vestidas e penteadas, com as unhas pálidas e sem verniz. A única coisa que se aproveitava deste quadro triste eram os olhos, tem uns lindos olhos cor de azeitona. Mas os óculos redondos e de armação gasta quase não nos deixam vê-los.
- Venha por aqui Edith.
- Chegámos ao corredorzinho das oito portas. Oito portas para oito raparigas, as eleitas de Charlotte que iram brilhar no palco mais adiante. Só um quarto está ocupado, o meu. Mais ninguém esteve a altura de ocupar algum dos outros, talvez eu tenha alguma coisa a ver com isso. As bailarinas têm indo e vindo mas nenhuma delas ficou nos quartos do corredor. Expliquei à Edith que estes quartos eram especiais e que cada um tinha um tema próprio.
- Temas?
- Sim temas. Cada quarto tem uma função diferente ...
A rapariga ficou visivelmente perturbada, apertou as mãos dentro dos bolsos e simulou um sorriso. Tentou disfarçar perguntando ...
- E aquela porta ali?
- Bom ... (eu sei que a Charlotte não gosta que alguém mostre o cabaret sem ser ela a fazê-lo, ainda por cima com tudo por arrumar) é a nossa sala de espectáculos!
Pensei duas vezes antes de abrir a porta, mas tenho a certeza de que se a enfezada sair daqui a correr e for espalhar pela vila o que realmente se passa no barco ... nós vamos ter de partir!
- Está tão escuro! Que tipo de espectáculos fazem ...
- Jaqui!! Que estás a fazer??
- Madame, eu vim mostrar ...
- Venha Edith não há nada para ver aqui.
Está cada vez mais insuportável! Qualquer dia ... calma, tenho de ter calma. Logo, logo vamos embora talvez a convença a voltar a Paris.
Parece que o problema do barco era mais grave. Parece que o motor sofreu uma avaria e vamos ter de ficar por aqui pelo menos uma semana. Se ainda estivéssemos num sitio interessante ... agora aqui! Não há nada para ver. As pessoas da vila parecem divertir-se com pescarias, pescada frita e trazerem as suas cadeirinhas para o porto e ficarem o dia todo a especular e a apontar como se fossemos aberrações de circo.
Já não aguento mais estar aqui dentro! Preciso de ar! O Marcelle foi pescar mais o resto da banda por isso não tenho nada com que me entreter. Acho que vou à vila. Pode ser que encontre uma boutique ou uma perfumaria, e cigarros! Preciso desesperadamente de cigarros!
Ao sair deparei-me com dois homens de meia idade, encostados ao barco a fingirem-se ocupados.
- Oh coisinha linda! Psst ó bolinho de cenoura! Anda aqui para a nossa beira ... nós ... não mordemos!
Francamente, parece que nunca viram uma mulher! Certamente nunca viram uma mulher como eu ... linda e glamorosa. Ninguém resiste aos meus cabelos ruivos e aos meus olhos cor de avelã.
À medida que fui percorrendo as ruas percebi o desespero daqueles homens. As mulheres pareciam uma cópia da Edith, desinteressantes, pele queimada pelo sol, olhos pequenos e corpos malfeitos. Não admira que estejam tão desesperados, eles próprios não são propriamente deuses do Olimpo.
Entrei num cafezinho chamado "Café de Poisson", que apropriado! Era um daqueles cafés típicos, chão com mosaicos aos quadrados pretos e brancos, paredes verdes lima, bancos de pele gordurosos e frequentadores gordos e oleosos.
- Bonjour.
- Boujour madame. - respondeu-me uma senhora corpolenta com os olhos demasiado juntos e com os dentes esborratados de baton.
- Queria um café por favor.
- Com certeza mademoiselle.
Olhei em volto à procura de alguém minimamente interessante. Á primeira vista nada de especial mas foi aí que ele entrou. Senti os joelhos a tremer e fiquei com as mãos suadas e a boca seca.
- Bonjour Clarisse!
- Bonjour Alan!
- Tem aqui o jornal do dia e um bolinho que lhe fez a minha mãe.
- Merci Alan, manda um beijinhos à tua mãe e as melhoras!
Fiquei completamente boqueaberta com aquela visão. Aquele homem punha todos os outro que alguma vez conheci a um quanto debaixo de uma goteira! Era lindo! Cabelo castanho, olhos castanhos esverdeados e uma barbinha aqui e ali daquelas que me picam e arrepiam ... corpo de deus e sorriso ... ai ai!
- Menina? Menina tem aqui o seu café!
- Merci ... desculpe a indescrição mas ... aquele ...
- O Alan?
- Sim. Ele é daqui de Fleury?
- Sim, sim! É um bom rapaz sabe. Veio agora de Paris para tratar da mãe que está doente.
- Mas ele não vive cá o tempo todo?
- Suponho que agora cá fique de vez. Ele foi para Paris estudar piano. Devia ouvi-lo tocar!
- E é ...
- Não é casado não! Mas nós estamos a ver se lhe arranjamos noiva cá na aldeia, para ver se fica. Precisamos cá de juventude.
- Pois estou a ver.
- Você é daquelas do barco?
- S-sim ... porquê?
- Desculpe lá estar a perguntar mas ... vão cá ficar muito tempo?
- Algo me diz que sim.
- Já agora, desculpe estar a incomodar, você não é aquela atriz? A daquele filme?
- Sim sou eu.

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