- Rodriguez! Anda lá com isso!- Anda lá com isso, anda lá com isso...Rodriguez faz tudo! Temos alguns trocados, mulher...pelo menos vamos comprar uma vaca daquelas magras, que são mais baratas para nos levar as coisas...
- Rodriguez, já te disse temos de economizar! As estrelas dizem-me que não vêm lá bons tempos.
- Essas maganas também só sabem prever porcaria...
- Cala-te e anda! Rodriguez...olha o que estás a fazer! Estás a deixar cair incenso por todo o caminho...ah! Mas que homem este!
- Tu é que quiseste sair do acampamento, Morgana! Não fui eu! Eu estava muito bem lá com a mamã e com os meus irmãos e com os teus e com os nossos tios e primos e cães! Lembras-te da gipsy a nossa cadelinha zarolha? Tenho saudades...
- Eu não me dava bem naquele acampamento. Ninguém me compreendia! E depois era aquela história de não te dar um filho homem...raça das ciganas que são chatas como tudo!
- Agora somos uns sem tecto, que andamos a vaguear pelas cidades e aldeias...Onde estamos afinal, Margona? Doi-me os pés de tanto andar...
- França, mon cheri!
- Hã?? Nós...viemos de Espanha, estou morto...
- Morre quando chegarmos aquela vila que estou a ver agora. Estás a ver? Ali ao fundo! É lá que vamos ficar, beber uma águinha e descansar. Lá podemos montar a nossa banquinha, tu tocas as tuas pandeiretas, eu danço e leio a sina e assim ficamos menos pobres!
- Que futuro risonho...- O Rodriguez, o meu marido por conveniência, não têm paciência nenhuma. Eu não gosto muito dele, esta é a verdade. Quando eu nasci ele já tinha seis anos e disseram-lhe "estás a ver aquela cigana ali? É a tua mulher". Pelo que dizem ele começou a chorar. Quando eu fiz quinze anos casámos. Uma semana de boda. Uma coisa nojenta. Ainda não lhe dei um filho, nem tenciono dar...As estrelas não o quiseram até agora e eu não fico triste, sinceramente. Um filho ia-me prender. Sou uma cigana do mundo! Ando descalça! Os meus pés estão sujos de passar por tanta lama e terra! Mas pelo menos sinto o mundo...Um filho, seja ele homem ou mulher, ia-me prender a uma terra e eu ia ter a responsabilidade de cuidar dele. Assim, decidi sair do acampamento. Já estava farta daqueles trolólós das ciganas do filho para aqui e do filho para ali. Chega! Fiz-me ao caminho e trouxe o Rodriguez. Chegámos a Fleury num lusco-fusco tardio. Que simpática vila.
- Encosta ali àquele pinheiro, Rodriguez- disse eu ao Rodriguez, que levava a nossa casa às costas.
- Estou morto...
- Óptimo! É da maneira que não incomodas! Vou dar uma volta pela vila, queres vir?
- Estou morto...
- Óptimo!- E lá fui. Mesmo sendo já tarde, as pessoas olhavam para mim com desconfiança. Um rapazito, um miúdo, veio ter comigo, quando espreitava uma montra de uma barbearia "Barbearia Fillipe".
- A senhora é cigana?
- Que tens a ver com isso?- disse.
- O meu pai diz que os ciganos trazem doenças...
- O teu pai é um ignorante- respondi. O rapazito ficou a olhar para mim. Simulei um espirro para cima dele e ele começou a correr que nem um doido a gritar. Ignorantes...
- Aposto que o infectou...- disse uma rapariga, que passava na rua nesse momento. Depois, percebi que estava na brincadeira. Riu-se e apresentou-se- sou a Odette. Já vi que temos algo em comum: ambas somos novas na cidade e ambas incompreendidas!
- Esta gente é toda assim?- perguntei, já com intenção de dizer ao Rodriguez para não desmontar as nossas traquitanas. Assim, era só pegar e pousar noutro sitio.
- Nem todos- respondeu a rapariga- alguns são bem gentis...- As estrelas começavam a aparecer no céu timidamente. A rapariga ficou pensativa mas depois voltou à terra- vão se instalar onde?- perguntou.
- Estamos ao pé de um pinheiro...o meu marido está lá a descarregar as coisas.
- Não vão ficar numa pensão?
- Ai, não! Onde fariamos fogueiras, onde assaríamos morcelas e comiamos cabrito? A questão é: Qual o melhor sitio para montar a nossa tenda?
- Bom- disse a rapariga- eu sou nova aqui, como lhe disse, ainda não sei muito bem os cantos à casa. Mas pode ficar ao pé do mar, sempre se pode...hum, lavar!- A rapariga tinha razão. Eu cheirava a podre. E o Rodriguez? Esse matava passaros ao levantar os braços...
- Boa ideia!- disse eu- vamos agora mesmo para a ribeira. Vamos ficar na praia.- A rapariga lá foi à vida dela e eu fui ter com o Rodriguez que dormia junto ao pinheiro.
- Rodriguez, acorda, vamos para outro sitio...
- Nhão...Nhão...eu estou cansado...
- RODRIGUEZ! Pega lá nas tralhas que vamos tomar banho na praia, e fazer uma figueira para nos aquecer. Ainda tens de ir pescar qualquer coisa, porque não temos o que comer.
- Morgana, por favor, estou cansado, não me aguento...- Ele não teve escolha, como devem imaginar. Fomos andando até à praia. Avistámos um barco. Já não vamos ter sossego, estou mesmo a ver. Montámos a tenda, as traquitanas todas e fomos tomar banho. Que bom...estava fria, a água, mas finalmente estava lavada! O Rodriguez não queria tomar banho. Disse que estava fria, mas como devem imaginar não teve escolha. Quando saímos da água, depois de umas brincadeiras, tínhamos uma plateia a assitir. Não diziam nada, apenas olhavam para nós.
- Temos companhia, Morgana- disse o Rodriguez.
- Chiu, espera, não lhes dês trela, não ligues- e continuámos a andar do mar até à fogueira que tínhamos acendido. As pessoas continuavam a olhar e começaram a fazer imensos comentários.
- Já não basta andarem por aí a infectarem pessoas também infectam o mar!- gritou um deles. Não dissemos nada àquela gente. O Rodriguez entrou para dentro da tenda e mudou de roupa. Eu fiquei a aquecer-me junto à figueira.
- Saiam daqui seus saltimbancos! Seus ciganos! Não vos queremos cá!- Não dei resposta, estava de costas, a aquecer-me no lume, mas virei-me quando percebi de que alguém me estava a defender. Um rapaz, falava para aquela gente. Não consegui ouvir o que estava a falar, mas percebi que estava a repreende-los. Pensei que era uma daquelas pessoas gentis de que me falou a rapariga da praça, a Odette. E depois tive a resposta, quando a multidão dispersou e a vi com aquele rapaz, o que me defendeu, os dois, a ver o mar e a falar. Olhei para eles e para as estrelas do céu. Maldita a minha sina, que me faz compreender o inexplicável, aquilo que nem todos vêem. O que vi nelas, não foi nada risonho...
- Rodriguez, já te disse temos de economizar! As estrelas dizem-me que não vêm lá bons tempos.
- Essas maganas também só sabem prever porcaria...
- Cala-te e anda! Rodriguez...olha o que estás a fazer! Estás a deixar cair incenso por todo o caminho...ah! Mas que homem este!
- Tu é que quiseste sair do acampamento, Morgana! Não fui eu! Eu estava muito bem lá com a mamã e com os meus irmãos e com os teus e com os nossos tios e primos e cães! Lembras-te da gipsy a nossa cadelinha zarolha? Tenho saudades...
- Eu não me dava bem naquele acampamento. Ninguém me compreendia! E depois era aquela história de não te dar um filho homem...raça das ciganas que são chatas como tudo!
- Agora somos uns sem tecto, que andamos a vaguear pelas cidades e aldeias...Onde estamos afinal, Margona? Doi-me os pés de tanto andar...
- França, mon cheri!
- Hã?? Nós...viemos de Espanha, estou morto...
- Morre quando chegarmos aquela vila que estou a ver agora. Estás a ver? Ali ao fundo! É lá que vamos ficar, beber uma águinha e descansar. Lá podemos montar a nossa banquinha, tu tocas as tuas pandeiretas, eu danço e leio a sina e assim ficamos menos pobres!
- Que futuro risonho...- O Rodriguez, o meu marido por conveniência, não têm paciência nenhuma. Eu não gosto muito dele, esta é a verdade. Quando eu nasci ele já tinha seis anos e disseram-lhe "estás a ver aquela cigana ali? É a tua mulher". Pelo que dizem ele começou a chorar. Quando eu fiz quinze anos casámos. Uma semana de boda. Uma coisa nojenta. Ainda não lhe dei um filho, nem tenciono dar...As estrelas não o quiseram até agora e eu não fico triste, sinceramente. Um filho ia-me prender. Sou uma cigana do mundo! Ando descalça! Os meus pés estão sujos de passar por tanta lama e terra! Mas pelo menos sinto o mundo...Um filho, seja ele homem ou mulher, ia-me prender a uma terra e eu ia ter a responsabilidade de cuidar dele. Assim, decidi sair do acampamento. Já estava farta daqueles trolólós das ciganas do filho para aqui e do filho para ali. Chega! Fiz-me ao caminho e trouxe o Rodriguez. Chegámos a Fleury num lusco-fusco tardio. Que simpática vila.
- Encosta ali àquele pinheiro, Rodriguez- disse eu ao Rodriguez, que levava a nossa casa às costas.
- Estou morto...
- Óptimo! É da maneira que não incomodas! Vou dar uma volta pela vila, queres vir?
- Estou morto...
- Óptimo!- E lá fui. Mesmo sendo já tarde, as pessoas olhavam para mim com desconfiança. Um rapazito, um miúdo, veio ter comigo, quando espreitava uma montra de uma barbearia "Barbearia Fillipe".
- A senhora é cigana?
- Que tens a ver com isso?- disse.
- O meu pai diz que os ciganos trazem doenças...
- O teu pai é um ignorante- respondi. O rapazito ficou a olhar para mim. Simulei um espirro para cima dele e ele começou a correr que nem um doido a gritar. Ignorantes...
- Aposto que o infectou...- disse uma rapariga, que passava na rua nesse momento. Depois, percebi que estava na brincadeira. Riu-se e apresentou-se- sou a Odette. Já vi que temos algo em comum: ambas somos novas na cidade e ambas incompreendidas!
- Esta gente é toda assim?- perguntei, já com intenção de dizer ao Rodriguez para não desmontar as nossas traquitanas. Assim, era só pegar e pousar noutro sitio.
- Nem todos- respondeu a rapariga- alguns são bem gentis...- As estrelas começavam a aparecer no céu timidamente. A rapariga ficou pensativa mas depois voltou à terra- vão se instalar onde?- perguntou.
- Estamos ao pé de um pinheiro...o meu marido está lá a descarregar as coisas.
- Não vão ficar numa pensão?
- Ai, não! Onde fariamos fogueiras, onde assaríamos morcelas e comiamos cabrito? A questão é: Qual o melhor sitio para montar a nossa tenda?
- Bom- disse a rapariga- eu sou nova aqui, como lhe disse, ainda não sei muito bem os cantos à casa. Mas pode ficar ao pé do mar, sempre se pode...hum, lavar!- A rapariga tinha razão. Eu cheirava a podre. E o Rodriguez? Esse matava passaros ao levantar os braços...
- Boa ideia!- disse eu- vamos agora mesmo para a ribeira. Vamos ficar na praia.- A rapariga lá foi à vida dela e eu fui ter com o Rodriguez que dormia junto ao pinheiro.
- Rodriguez, acorda, vamos para outro sitio...
- Nhão...Nhão...eu estou cansado...
- RODRIGUEZ! Pega lá nas tralhas que vamos tomar banho na praia, e fazer uma figueira para nos aquecer. Ainda tens de ir pescar qualquer coisa, porque não temos o que comer.
- Morgana, por favor, estou cansado, não me aguento...- Ele não teve escolha, como devem imaginar. Fomos andando até à praia. Avistámos um barco. Já não vamos ter sossego, estou mesmo a ver. Montámos a tenda, as traquitanas todas e fomos tomar banho. Que bom...estava fria, a água, mas finalmente estava lavada! O Rodriguez não queria tomar banho. Disse que estava fria, mas como devem imaginar não teve escolha. Quando saímos da água, depois de umas brincadeiras, tínhamos uma plateia a assitir. Não diziam nada, apenas olhavam para nós.
- Temos companhia, Morgana- disse o Rodriguez.
- Chiu, espera, não lhes dês trela, não ligues- e continuámos a andar do mar até à fogueira que tínhamos acendido. As pessoas continuavam a olhar e começaram a fazer imensos comentários.
- Já não basta andarem por aí a infectarem pessoas também infectam o mar!- gritou um deles. Não dissemos nada àquela gente. O Rodriguez entrou para dentro da tenda e mudou de roupa. Eu fiquei a aquecer-me junto à figueira.
- Saiam daqui seus saltimbancos! Seus ciganos! Não vos queremos cá!- Não dei resposta, estava de costas, a aquecer-me no lume, mas virei-me quando percebi de que alguém me estava a defender. Um rapaz, falava para aquela gente. Não consegui ouvir o que estava a falar, mas percebi que estava a repreende-los. Pensei que era uma daquelas pessoas gentis de que me falou a rapariga da praça, a Odette. E depois tive a resposta, quando a multidão dispersou e a vi com aquele rapaz, o que me defendeu, os dois, a ver o mar e a falar. Olhei para eles e para as estrelas do céu. Maldita a minha sina, que me faz compreender o inexplicável, aquilo que nem todos vêem. O que vi nelas, não foi nada risonho...
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