sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Edith não fala com estranhos!

"Que dia bonito que vai estar!", pensei eu ao acordar às cinco em ponto, como todos os dias. Não havia nuvens no céu, o sol ainda não tinha nascido, mas de certeza que iria nascer em grande e iria aquecer a nossa vilazinha. Vesti-me, como todos as manhãs e lá fui eu para a "loja", é como lhe chama-mos. Trabalho na "loja" do senhor Leonard, uma agência funerária. Sou recepcionista. Sim, lá vem a piadinha de sempre: "Ah, lida com os mortos, recepcionista, já viu algum fantasma? ah ah, piadinha...". Não, na verdade faço mais das seis da manhã até às oito do que durante o dia. O senhor Leonard quer que eu limpe sempre tudo, todos os dias! Não vá o diabo tece-las e apareça um cliente...Na verdade não há clientes há muito, muito tempo. As pessoas teimam em não morrer. É chato. Eu ganho à mesma aquela miséria que o senhor Leonard me dá! Mas sinto pena do homem. Tão novo ainda, experiente, anseia mudar a roupa de pessoas pálidas, de lhe tratar das coisinhas, de encomendar os seus caixõezinhos e nada...Nem um defuntinho para alegrar o pessoal! Ai, credo, olha eu aqui a falar assim...Mas o que posso dizer? Estou parada naquela loja, sentada atrás do balcão, a fazer nada. Se não fosse a dona Anne Marie, de vez em quando a lá ir dar-me um beijinho e um agradinho, hoje a defunta era eu. Bom, levantei-me, então e saí para a rua. A minha humilde casa, da minha avózinha, coitadinha, que já se foi, no tempo em que finavam pessoas, fica mesmo junto ao mar, o que é mau, porque para além da humidade, de manhã o frio quadriplica! Estava eu cheia de frio, andava rapidamente, quando, ainda à média luz, sinto ficar mais escuro ainda. Pensei: " Hoje é o juizo final..." e logo depois: "Corre, Edith, que por isso hoje a loja vai estar cheia!". Mas não, talvez infelizmente não. Andei um pouco mais rapido, mas a sombra cobriu-me por inteiro. Quando me atrevi a olhar para cima, para o lado, sei lá! Para o mar. Avistei um monstro! Um barco, grande, volumoso, meio velho meio novo, não sei bem, que atracava no nosso porto. De repente ouvi um "Nãaaaaaaaaaaaaaaao!!". Dei um pulo! Assustei-me! O que seria aquele barco? Oh! Homens! Seriam homens! Marinheiros! Oh...Piratas...eram piratas...foge, edith? foge? Não...eu tenho de ver aquilo. Ai! E se eu fosse levada por piratas? Daqueles que cheiram a rum que se farta! Daqueles porcos e selvagens, mas lindos de morrer! Cabelos compridos, barbas mal arranjadas...Vou entrar! A coisa foi dificil, porque o barco não estava ainda totalmente atracado, mas lá dei uns pulitos e lá entrei. "Charlotte". Que nome mais...afemeninado para um barco pirata. Será que os piratas eram...não! Não há piratas...Enfim. Deambulei um pouco pelo convés. Não havia sinal de ninguém. Quando me atrevi a gritar "Oh, do barco!", caiu uma coisinha vinda não sei de onde! Assutei-me, novamente, e a recepção foi magnifica...
- AHHHHHHHHHHHHHHH!
-AHHHHHHHHHHHHHHH!- gritou a coisinha.
-AHHHHHHHHHHHHHHH!
-AHHHHHHHHHHHHHHH!- gritou a coisinha. Ainda não estava luz suficiente para ver o que era aquilo! Era pequena, só sabia isso! E tinha uns bons pulmões. Depois a coisinha aproximou-se e acendeu um cigarro, que iluminou um pouco as coisas, em todos os sentidos- Que está aqui a fazer, dona?- e chegou mais de perto- A dona...Xi! Também não precisa estar assim a tremer! Parece que viu um fantasma!
- Fantasma? Alguém morreu aqui? Alguém do barco? Vêm enterrar alguém a Fleury?
- Não...-respondeu a coisinha. Percebi que era meio homem. Era algo estranho. O papá contava-me histórias de animais meio homem. A pequena coisinha fazia-me lembrar algo a que o papá chmava de sátiros- meio homem, meio bode. Só lhe via a cara, por causa da luz do cigarro. Felizmente a parte de homem era a de cima. Ou será que infelizmente?
- Não me faça mal, senhor sátiro!
- Qué?
- Sou só uma curiosa!
- Pois, vamos ter muitos, já estou a ver...Está um frio aqui. Não quer entrar?
- Oh, não eu não aceito coisas de estranhos, muito menos convites para entrar na casa deles!
- Venha conhecer a minha dona.
- É domesticado...? Pobrezinho...
- Qué?
- Tem dona...Ela é a dona do barco?- Acendeu-se uma lamparina ao fundo do corredor. Vi uma figura andar na nossa direcção. Quando chegou mais perto, percebi que a coisinha era todo homem. Pequenino, mas que homem...
- Sim. Não a quer conhecer? Ela está...
- Estou mesmo aqui!- disse uma senhora toda bem vestida. Uma madame- Vocé é quem, criatura?
- Olá, madame, sou Edith, sou da vila- e comecei a rir estupidamente. Nervosismo.
- Ah...Pacheco, temos mesmo de fica aqui? Oh, por Dieu! Quer sair o mais rapido daqui!
- Tem alguma coisa contra Fleury, madame?- perguntei. Ela olhou-me de uma maneira que quase me matou.
- Non...- disse ela com uma cigarrilha ao canto da boca, que deixava um fumo não totalmente desagradavel- Mas não gosto disto, tinha outra coisa em mente! Queria atracar noutro porto, só isso.
- Isso agora é complicado, dona. Baixamos a âncora, ela encalhou numa coisa qualquer. Vou pedir para os rapazes da banda me ajudarem a ver isso. Vamos mergulhar.
- Oh...Ha mais gente, do que vocês os dois. Homens, portanto.- disse eu, arrependendo-me no minuto seguinte.
- Sim, sim- disse a madame- E agora não tem mais nada para fazer, não? Não trabalha numa coisa qualquer, tem ar de professorinha, não?
- Oh, não...Sou secretária numa agência funerária!- Que orgulho...
- Ah...- disse a senhora- Felizmente não precisamos dos seus serviços. Por isso, se não se importar...- Naquele momento uns 10, talvez 8, talvez 6 homens, lindos, piratões, entraram, vindos de sei la de onde, do céu, quem sabe, e preparavam-se para saltar para o mar.
- Um banhinho fresco, logo pela manhã, hã, mes cheri?- disse a madame àqueles todos maravilhosos seres. Seria ela..."dona" de eles todos? Que pecado.
- Sim!- respondeu um deles, um loirinho, uma joia- e aproveita-mos e vamos ver a âncora!- Finda a frase, ele arregaça a escalças, e, todos em conjunto, tiram as camisetas, as camisolas, as camisas.Ali! à minha frente! Dei um pulo, outra vez! Que visão do...paraíso! Coisas destas não me contava o papá nas histórias! Pimba, pimba, todos para a aguinha, que estava geladinha, de certezinha, àquela hora da manhãzinha! Homens fortes, aqueles. Olhava de boca aberta para eles. Debrcei-me no barco. Estavam alguns a brincar com a água e a fazer piadas tontas! Um deles até gritou: "Moça! Oh, moça! Anda cá, moça!". E eu, que não falo com estranhos, de qualquer espécie, sejam eles sátiros ou até valentes e encorpados minotauros, como aqueles, voltei para o sitio onde estava, onde a madame me olhava.
- Precisas de mais alguma coisa, ma cherie?
- Não, acho que não. Na verdade tenho de ir trabalhar...Vão ficar por muito tempo?
- Non! Partimos assim que conseguirmos! Se possivel antes do sol raiar por completo!
- É pena...
- Por causa dos garçons, hã? Gostas-te dos garçons...ah ah ah!!- Ria-se a madame, tirando e pondo a cigarrilha na boca.
- Oh! Por Dieu! Nada disso, sou moça de respeito...Mas moram todos aqui no barco?
- Nunca ouviste falar do "Charlotte", ma cherie?
- Non, madame.
- Então anda comigo. Vou-te mostrar o que é o "Charlotte"- e aproximou-se de mim, pegando-me levemente no braço. Eu recuei.
- Oh, sabe senhora madame, é que eu tenho de ir trabalhar...E além disso eu não falo com estranhos, nem aceito convites...
- Oh! E quem é que me vai ajudar a trazer as toalhas para os garçons da banda? Coitadinhos...ao sair da água vão tremer de frio.
- Bom! Sendo assim, quem sou eu para negar conforto aos pobres rapazes! Um dia sem limpar aquela espelunca, não se vai notar! Então vamos lá a isso!

Nenhum comentário: