"Que dia bonito que vai estar!", pensei eu ao acordar às cinco em ponto, como todos os dias. Não havia nuvens no céu, o sol ainda não tinha nascido, mas de certeza que iria nascer em grande e iria aquecer a nossa vilazinha. Vesti-me, como todos as manhãs e lá fui eu para a "loja", é como lhe chama-mos. Trabalho na "loja" do senhor Leonard, uma agência funerária. Sou recepcionista. Sim, lá vem a piadinha de sempre: "Ah, lida com os mortos, recepcionista, já viu algum fantasma? ah ah, piadinha...". Não, na verdade faço mais das seis da manhã até às oito do que durante o dia. O senhor Leonard quer que eu limpe sempre tudo, todos os dias! Não vá o diabo tece-las e apareça um cliente...Na verdade não há clientes há muito, muito tempo. As pessoas teimam em não morrer. É chato. Eu ganho à mesma aquela miséria que o senhor Leonard me dá! Mas sinto pena do homem. Tão novo ainda, experiente, anseia mudar a roupa de pessoas pálidas, de lhe tratar das coisinhas, de encomendar os seus caixõezinhos e nada...Nem um defuntinho para alegrar o pessoal! Ai, credo, olha eu aqui a falar assim...Mas o que posso dizer? Estou parada naquela loja, sentada atrás do balcão, a fazer nada. Se não fosse a dona Anne Marie, de vez em quando a lá ir dar-me um beijinho e um agradinho, hoje a defunta era eu. Bom, levantei-me, então e saí para a rua. A minha humilde casa, da minha avózinha, coitadinha, que já se foi, no tempo em que finavam pessoas, fica mesmo junto ao mar, o que é mau, porque para além da humidade, de manhã o frio quadriplica! Estava eu cheia de frio, andava rapidamente, quando, ainda à média luz, sinto ficar mais escuro ainda. Pensei: " Hoje é o juizo final..." e logo depois: "Corre, Edith, que por isso hoje a loja vai estar cheia!". Mas não, talvez infelizmente não. Andei um pouco mais rapido, mas a sombra cobriu-me por inteiro. Quando me atrevi a olhar para cima, para o lado, sei lá! Para o mar. Avistei um monstro! Um barco, grande, volumoso, meio velho meio novo, não sei bem, que atracava no nosso porto. De repente ouvi um "Nãaaaaaaaaaaaaaaao!!". Dei um pulo! Assustei-me! O que seria aquele barco? Oh! Homens! Seriam homens! Marinheiros! Oh...Piratas...eram piratas...foge, edith? foge? Não...eu tenho de ver aquilo. Ai! E se eu fosse levada por piratas? Daqueles que cheiram a rum que se farta! Daqueles porcos e selvagens, mas lindos de morrer! Cabelos compridos, barbas mal arranjadas...Vou entrar! A coisa foi dificil, porque o barco não estava ainda totalmente atracado, mas lá dei uns pulitos e lá entrei. "Charlotte". Que nome mais...afemeninado para um barco pirata. Será que os piratas eram...não! Não há piratas...Enfim. Deambulei um pouco pelo convés. Não havia sinal de ninguém. Quando me atrevi a gritar "Oh, do barco!", caiu uma coisinha vinda não sei de onde! Assutei-me, novamente, e a recepção foi magnifica...- AHHHHHHHHHHHHHHH!
-AHHHHHHHHHHHHHHH!- gritou a coisinha.
-AHHHHHHHHHHHHHHH!
-AHHHHHHHHHHHHHHH!- gritou a coisinha. Ainda não estava luz suficiente para ver o que era aquilo! Era pequena, só sabia isso! E tinha uns bons pulmões. Depois a coisinha aproximou-se e acendeu um cigarro, que iluminou um pouco as coisas, em todos os sentidos- Que está aqui a fazer, dona?- e chegou mais de perto- A dona...Xi! Também não precisa estar assim a tremer! Parece que viu um fantasma!
- Fantasma? Alguém morreu aqui? Alguém do barco? Vêm enterrar alguém a Fleury?
- Não...-respondeu a coisinha. Percebi que era meio homem. Era algo estranho. O papá contava-me histórias de animais meio homem. A pequena coisinha fazia-me lembrar algo a que o papá chmava de sátiros- meio homem, meio bode. Só lhe via a cara, por causa da luz do cigarro. Felizmente a parte de homem era a de cima. Ou será que infelizmente?
- Não me faça mal, senhor sátiro!
- Qué?
- Sou só uma curiosa!
- Pois, vamos ter muitos, já estou a ver...Está um frio aqui. Não quer entrar?
- Oh, não eu não aceito coisas de estranhos, muito menos convites para entrar na casa deles!
- Venha conhecer a minha dona.
- É domesticado...? Pobrezinho...
- Qué?
- Tem dona...Ela é a dona do barco?- Acendeu-se uma lamparina ao fundo do corredor. Vi uma figura andar na nossa direcção. Quando chegou mais perto, percebi que a coisinha era todo homem. Pequenino, mas que homem...
- Sim. Não a quer conhecer? Ela está...
- Estou mesmo aqui!- disse uma senhora toda bem vestida. Uma madame- Vocé é quem, criatura?
- Olá, madame, sou Edith, sou da vila- e comecei a rir estupidamente. Nervosismo.
- Ah...Pacheco, temos mesmo de fica aqui? Oh, por Dieu! Quer sair o mais rapido daqui!
- Tem alguma coisa contra Fleury, madame?- perguntei. Ela olhou-me de uma maneira que quase me matou.
- Non...- disse ela com uma cigarrilha ao canto da boca, que deixava um fumo não totalmente desagradavel- Mas não gosto disto, tinha outra coisa em mente! Queria atracar noutro porto, só isso.
- Isso agora é complicado, dona. Baixamos a âncora, ela encalhou numa coisa qualquer. Vou pedir para os rapazes da banda me ajudarem a ver isso. Vamos mergulhar.
- Oh...Ha mais gente, do que vocês os dois. Homens, portanto.- disse eu, arrependendo-me no minuto seguinte.
- Sim, sim- disse a madame- E agora não tem mais nada para fazer, não? Não trabalha numa coisa qualquer, tem ar de professorinha, não?
- Oh, não...Sou secretária numa agência funerária!- Que orgulho...
- Ah...- disse a senhora- Felizmente não precisamos dos seus serviços. Por isso, se não se importar...- Naquele momento uns 10, talvez 8, talvez 6 homens, lindos, piratões, entraram, vindos de sei la de onde, do céu, quem sabe, e preparavam-se para saltar para o mar.
- Um banhinho fresco, logo pela manhã, hã, mes cheri?- disse a madame àqueles todos maravilhosos seres. Seria ela..."dona" de eles todos? Que pecado.
- Sim!- respondeu um deles, um loirinho, uma joia- e aproveita-mos e vamos ver a âncora!- Finda a frase, ele arregaça a escalças, e, todos em conjunto, tiram as camisetas, as camisolas, as camisas.Ali! à minha frente! Dei um pulo, outra vez! Que visão do...paraíso! Coisas destas não me contava o papá nas histórias! Pimba, pimba, todos para a aguinha, que estava geladinha, de certezinha, àquela hora da manhãzinha! Homens fortes, aqueles. Olhava de boca aberta para eles. Debrcei-me no barco. Estavam alguns a brincar com a água e a fazer piadas tontas! Um deles até gritou: "Moça! Oh, moça! Anda cá, moça!". E eu, que não falo com estranhos, de qualquer espécie, sejam eles sátiros ou até valentes e encorpados minotauros, como aqueles, voltei para o sitio onde estava, onde a madame me olhava.
- Precisas de mais alguma coisa, ma cherie?
- Não, acho que não. Na verdade tenho de ir trabalhar...Vão ficar por muito tempo?
- Non! Partimos assim que conseguirmos! Se possivel antes do sol raiar por completo!
- É pena...
- Por causa dos garçons, hã? Gostas-te dos garçons...ah ah ah!!- Ria-se a madame, tirando e pondo a cigarrilha na boca.
- Oh! Por Dieu! Nada disso, sou moça de respeito...Mas moram todos aqui no barco?
- Nunca ouviste falar do "Charlotte", ma cherie?
- Non, madame.
- Então anda comigo. Vou-te mostrar o que é o "Charlotte"- e aproximou-se de mim, pegando-me levemente no braço. Eu recuei.
- Oh, sabe senhora madame, é que eu tenho de ir trabalhar...E além disso eu não falo com estranhos, nem aceito convites...
- Oh! E quem é que me vai ajudar a trazer as toalhas para os garçons da banda? Coitadinhos...ao sair da água vão tremer de frio.
- Bom! Sendo assim, quem sou eu para negar conforto aos pobres rapazes! Um dia sem limpar aquela espelunca, não se vai notar! Então vamos lá a isso!
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