"ick, ick, ick, ick"...- Bolas, não aguento mais o som desta bicicleta ferrugenta! Tenho de parar em algum sitio para arranjar este ferro velho...Quem me manda a mim deixar o padrinho e fazer-me ao caminho?- "ick, ick, ick"- chega!- Saltei da bicicleta e larguei-a bruscamente no meio do caminho de terra que me levaria a Ponpouse, uma vilazinha ribeirinha onde, digamos, tinha alguns afazeres a fazer. Nunca mais voltaria a Toulouse...Não quero mais nada com aquela cidade, só me trouxe desgostos...A morte da mére, o desaparecimento do pére...Não quero pensar nisso. Agora vou rumar a uma vida nova. Deixei para trás os "não, Odette, não vás..." e os "é muito perigoso!" e até os " vais te arrepender!", peguei na bicicleta do padrinho, o fiel Jacob, melhor amigo dos meus pais, e tracei o meu destino passando por Ponpouse, onde tinha e tenho umas coisinhas a fazer. Se não fosse aquela maldita bicicleta! "Ela já não me leva a mais lado nenhum...", pensei eu sentada à beira de um caminho em que não passava vivalma. Era meio da tarde e, apesar de ser Inverno, o sol estava tão quente como num dia de pleno verão. " E agora, mon Dieu? Nem uma reles carroça passa por aqui!". Ainda não avistava o mar, de onde estava, nem me ainda tinha batido na cara aquela brisa fresca vinda do oceano...Estava com tanta sede. De repente o céu encheu-se de nuvens, muito rapidamente mesmo fiquei boqueaberta! E num abrir e fechar de olhos começou a chover o que não tinha chovido desde à uns anos para cá naquela região da France. Abri a boca e engoli umas gotas de chuva. Depois começou a chover com tal violência que corri para baixo de uma arvore que me abrigou o possivel. Perfeito. Via a minha bicicleta à chuva e pensava nos mil "icks icks" que ela ia fazer, ainda mais enferrujada, ainda mais podre! Passada a chuva, tinha um caminho pegajoso e lamacento pela frente. Peguei na bicicleta e pensei que teria de descansar o mais rapido possivel. Depois arranjaria maneira de ir a Ponpouse e de me livrar de vez daquela bicicleta horrivel. Lá fui eu pela estrada. Eu e os meus "icks, icks". Para me abstrair daquele barrulho irritante comecei a cantar uma canção que o padrinho me cantava quando era pequena, uma canção de miudos! "Le papillon a volé, a volé, et elle était si belle! Le beau papillon qui a volé, a volé, a volé". Ia tão dstraída a cantar que não notei que uma carroça vinha na minha direcção! "Volé, volé, voléeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!! ahhhhhhhhhhhhhhh". Fui de encontra a uma árvore e uns arbustos e a carroça tombou, o cavalo fugiu e...oh, não...a minha bicicleta...Feita em cacos. Levantei-me com esforço e reparei que ninguém saíra da carroça. Corri para lá e reparei que tinha rasgado o meu vestido branco, o meu melhor vestido. A madrinha disse que eu tinha, enquanto andasse a viajar, de andar sempre apresentavel, porque nunca sabia quem ia encontrar pelo caminho, e então vesti o que já não é o meu melhor vestido. Tinha folhas na cabeça, tinha perdido um sapato e as minhas lindas meias brancas, que o padrinho trouxe de Paris, estavam castanhas e rotas! Corri ao alcance da carroça.- Oh! Dieu! Está aí alguém? Perdeu o seu cavalo...- A carroça estava tombada. Estivesse lá quem estivesse, estava debaixo dela!- Está bem? Oh!- ninguém respondia, comecei a entrar em pânico! Peguei num pau forte e tentei levantar a carroça, mas não conseguia! Era demasiado fraca...Continuava a bater na carroça e a perguntar se a pessoa me ouvia. Depois de algum esfoço e de alguns paus partidos, levantei a carroça. Mas...Eram só tecidos, panos...Remexi os panos todos, à procura de alguém mas não estava lá ninguém. Mas...
- Bravo! Adorei o seu trabalho!- Uma voz, vinda de trás de mim. Levantei-me bruscamente, não estava lá ninguém- Não desiste, é uma rapariga pressistente! Como as folhas desta árvore!- Olhei para a árvore, que realmente estava atrás de mim, mas continuava a não ver ninguém...
-Pst! Aqui em cima- olhei para cima. Em cima de um ramo da árvore estava um rapaz, sentado, refastelado, melhor dizendo, e comia uma maçã- Bonjour!- disse ele. Fiquei a olhar para ele e enchi-me de raiva!
- Esteve aí este tempo todo? Era você que conduzia a carroça?
-Oui, madame!
- Mademoiselle!
- Oh, pardon, mademoiselle...- E desceu da árvore num só pulo. Quando desceu desequilibrou-se e torceu o pé, caindo no chão. Fui ao seu auxilio rapidamente. Este meu instinto de...ah, enfim.
- Isto não é nada, madame...
- Mademoiselle...- Ajudei-o a levantar-se e...que olhos, por Dieu! E que...
- Já vi que gosta muito de ajudar os outros!- disse ele, apanhando os tecidos do chão, que ficaram todos sujos, sacudindo-os e dobrando-os.
-E eu já vi que gosta de fazer troça das pessoas! Este na árvore o tempo todo e não me ajudou!
-Queria ver até onde ia para me salvar, neste caso foi até ao fim! Estou impressionado. Sou o Alan- disse atirando um role de tecido para dentro da carroça e estendendo-me a mão. Fiquei a olhar para a mão dele. Normalmente eram as damas que estendiam a mão, para os rapazes a beijarem. Mas ele pretendia um aperto de mão? Estendi a minha mão receosa e lentamente.
- Odette...- disse, desconfiada. O rapaz sacudiu-me a mão e o braço e acabou por me sacudir toda!
- Está toda suja, deixe-me ajuda-la- E apressou-se a me sacudir a saia, e o...decote do meu vestido. Quando acabaou olhou para mim com a maior da descontração. Eu estava estupefacta...
- O-obrigada- disse eu.
- Oh, tem a meia rota...Deixe-me ver isso, apanho-lhe essa malha num instante...
- Espere, espere lá!- Disse eu desviando-me do rapaz- Sabe coser?- Ele riu-se e subiu para o cimo da carroça. Quando se instalou lançou-me a sua mão, para eu me sentar lá.
- A carroça não tem cavalo...vai me levar para onde?- perguntei, a rir. Ele riu-se também. Tinha um sorriso mesmo bonito, o...Alan.
- Vou só lhe coser a meia, mademoisselle...- Subi e sentei-me ao lado dele. Que olhos tinha aquele garçon!
-Posso?- disse ele, apontando para a minha meia- afinal fui eu o causador da sua queda...
- Eu é que ia distraída...- Disse eu. Tirei a minha meia branca e dei-a a ele. Que estranho! Estava a tirar a minha meia a mostrar parte da minha perna a um rapaz que não conhecia de lado nenhum...Mas sentia-me tão à vontade com ele, que nem reparei no que estava a fazer. Ele tirou da carroça uma pequena maleta, de onde tirou uma agulha e uma linha. Num abrir e fechar de olhos a minha meia só não estava como nova porque estava suja. Ele fez questão de me calçar a meia. Foi um momento, digamos que esquisito. Se o padrinho me tivesse visto, naquela posição, com um rapaz a calçar-me uma meia, era corrida à chapada até casa. Mas vamos ver pelo lado positivo: Ele estava-me a vestir, pior seria se me estivesse a despir.
- Que habilidoso...-disse eu- onde aprendeu a fazer isso tudo? Eu nem coser um botão sei!
- A minha mãe é modista. Vive em Fleury, aqui perto. Aliás ia para lá quando me deparei consigo e com a sua bicicleta...Fui buscar uns tecidos. Agora que ela está doente, eu tenho de fazer um pouco de tudo. Cheguei de Paris à pouco tempo. A madame é de onde?- O rapaz falava, e bem!
- Mademoiselle e sou de Toulouse. Quer dizer, não bem de Toulouse mas...vivi sempre por aquelas bandas- respondi, ajeitando aquilo que restava do meu melhor vestido.
- Vai para onde?
- Tantas perguntas, tantas perguntas! Agradeço por me ter ajudado e por me ter enganado...- ele começou-se a rir...- mas agora vou continuar a minha viagem, adieu!- e pulei da carroça.
- Mas está a escurecer e...
- Oh non! Onde está uma das rodas da bicicleta? Deve estar por aqui por perto...talvez atrás deste arbusto...
- Mademoisselle...Venha comigo para Fleury.
- Ela deve andar por aqui...Eu concerto-a num instante, não é necessário ir para Fleury!- dizia eu, nem lhe dando muita atenção, apenas desfolhando todos os arbustos daquela área.
- Pensei beeeeem- dizia ele com aquele tom trocista, com que me abordou da primeira vez, quando estava em cima da árvore.
- Pense bem, pense bem- resmunguei eu ainda enfiada em arbustos- nem caval...- Quando me virei, o cavalo estava na carroça- como é que...?
- O Voyageur? Ah, foi só comer umas ervinhas no monte, eu sabia que ele voltava!- disse o rapaz, dando umas palmadinhas amigáveis no cavalo. A roda da minha bicicleta não aparecia. E vendo bem, não a iria conseguir concertar. Mas aquele rapaz já me devia achar demasiado fútil e estúpida, não lhe ia dar o gosto de me achar ainda mais!
- Deixe lá, vou a pé!
-Vai a pé??- Perguntou ele, dando meia volta com o cavalo e com a carroça e acompanhando o meu passo coxo, sem um sapato. Que figura...- Então se vai a pé, terei de a acompanhar...- disse parando de vez a carroça. Parou, amarrou o cavalo a uma árvore e disse:- Vamos?
- Está parvo?- disse eu- Vá à sua vida! Já o atrasei demasiado...
- Acha que a vou deixar a vaguear por estes caminhos pela noite fora, sozinha?- Oh, Dieu! Que cavalheiro! Ai, se o padrinho me visse...- Você é teimosa! Mas eu sou mais!- Olhei-o. O sol estava-se a por. As nuvens que choraram toda aquela chuva estavam agora coradas de um rosa velho, que o sol fazia questão de fazer realçar. Os olhos do rapaz brilhavam mais que o próprio sol e eu corava como as nuvens...- Odette?- disse ele, despertando-me de repente.
- Oh!- disse- Eu vou sozinha! Vá lá cuidadar da sua mãe para a sua terra!
- Está a ser maldosa, agora, Odette...
- Eu? Você é que se atravessou no meu caminho!
- Se a deixar ir, com que certezas fico de que a verei outra vez?- Estagnei. O rapaz não tinha papas na língua. O sol, as nuvens, o rosa, o amarelo, a brisa...Tudo desapareceu quando o rapaz me pegou ao colo de um trago!
- AH! Largue-me! Que pensa que está a fazer?
- Vou leva-la daqui. Se a apanham na estrada, à noite, os gatunos e os malfeitores, não imagina o fim que leva!
- Está a ser grosseiro!
-Fica em Fleury até ter transporte ou qualquer coisa do género...
- Qualquer coisa do género?? Largue-me está-me a magoar!- Mentira.Ele era um cavalheiro perfeito, não me estava a magoar, tinha um jeito para pegar em raparigas...ai se o padrinho me ouvisse agora...E...pimba! Carroça, no meio dos tecidos. Fiquei sentada, a compor-me. Os meus ricos cachinhos dourados, o meu cabelo...Estava um ninho de ratos! O Alan foi buscar o meu cestinho de pertences, à retaguarda da minha bicicleta e partimos rumo a Fleury.
- Vai gostar daquilo, Odette- disse o rapaz enquando conduzia a carroça- Agora até chegou lá um barco qualquer! As pessoas dizem que é um circo, mas eu acho que aquilo é mais um bordel...
- Tenha tendo na língua! Está na presença de uma dama!- disse eu.
- Peço desculpa, peço desculpa- disse ele. Após um silencio aterrador...
- Frequenta esse tipo de sitio?- perguntei.
- Não, não...não preciso. Tive...algumas namoradas- disse ele, sempre a rir.
- Disse que era um barco. Esse barco tem nome?
- "Charline", ou que é...- disse ele.
- Ah...
- "Charllote", assim é que é.
- Ah! Está em Fleury??- disse eu.
- Conhece?
- Eu?...Não, não, não faço ideia do que seja...Nunca ouvi falar.- E avistámos Fleury no fim do caminho. Parecia que estava a pegar fogo, com aquele por do sol. Ao chegar à vila senti a tal brisa fresca e avistei não só o mar mas também o enigmático barco..."Charlotte".
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