Quando desci aquelas escadas, parecia que tinha o mundo aos meus pés! Sentia-me tão bem! Estava bem vestida, perfumada, com classe! Se o padrinho me visse…ui! Não sobraria um pedaço de mim! Mas a verdade é que a Charlotte sabe fazer as coisas. Não estou excessivamente pintada, nem excessivamente atrevida. Não. Estou…melhor!- Sinto-me livre, Alan!- Disse, ao chegar ao pé dele, após descer as escadas.
-Sim, lá menos saia tens…
- Não, sinto-me como nunca me senti antes! Achas que estou bem?...Alan?
-Ah, sim, estás bem, sim…bem, sim.- O Alan gostou. Ele e todos os outros! Digo, todos, não só os senhores. As meninas também me congratularam. Solidariedade feminina, já se sabe como é. A multidão que assistiu à minha chegada dispersou, assim como o Alan.
- Vá! Odette! Começamos a ver todas as coisas, teatrinhos, musiquinhas, danças e tudo mais amanhã bem cedo! Sim, porque estas meninas precisam de treino, não as vou atirar aos leões sem terem o mínimo de experiência…
- Aos leões?- disso o Alan, saltando do banco do piano.
- Sim, mon cheri! Aos...- e ria-se – senhores que viram assistir! - e continuou a rir-se, e saiu da sala principal, onde estávamos. O Alan olhou para mim, abanou com a cabeça negativamente e foi para o piano. Pegou numa partitura e começou a tocar. Fui até ele. Encostei-me ao piano e ouvi-o tocar. Bolas, o que é que o rapaz não sabia fazer?
- Tocas tão bem…- disse-lhe. Ele não me respondeu - podias-me ensinar, um dia destes…
- Não me parece – respondeu- vais estar demasiado ocupada a mostrar as pernas a uns bêbados quaisquer.
- Alan! - Ele misturou umas notas no piano, e bruscamente parou.
- Oh, vá lá, Odette! Achas que vais fazer o quê aqui? Dançar ballet? Representar umas peças rascas? Cantar como cantavas na missa da tua terra? Aterra de uma vez…Em Paris cada esquina tem uma coisa igual a esta! A única diferença é que não são barcos.
- Já sei o que pensas! Já me tinhas dito que achavas que isto era um bordel, não é? Mas não é! E a Charlotte é tão querida! E se achas que isto é um antro de perdição, porque te vieste aqui meter? E porque me trouxeste para aqui também?
- Vieste comigo, APENAS, não era para cá ficares! - Naquele momento o Pacheco, com a sua figurinha minúscula, entra na sala. Vinha com uma caneca na mão.
- Cachaça…?
- Não! – dissemos ao mesmo tempo. Ele foi-se e nós continuámos.
- Ainda não me respondeste, Alan. Vieste para aqui por que razão?
- Vim, porque precisva de trabalho! Não quero ser ajudante de costureira a minha vida toda! Não é isso que tenho em mente.
- Queres ser pianista de um cabaret?
- E tu? Saíste da casa dos teus padrinhos para seres bailarina de um cabaret?
- Odette, Alan, aqui está o que têm de fazer para…hum…amanhã – Charlotte entra na sala.
- P-para amanhã?
- Oui, é apenas uma música, para as meninas se guiarem. Não era para seres tu a cantar, mas enfim, a nossa estrela principal resolveu ficar de cama... Maldita febre!
- Mas, Charlotte- disse o Alan, levantando-se de vez- Não temos tempo…
- Oh, claro que têm! Ainda têm esta tarde e esta noite e a manhã de amanhã! Ah! Estavam a discutir ? perguntou ela.
- N-não…- disse eu- Estávamos a falar de umas coisinhas…
- Hum…- e saiu da sala. O Alan não me respondeu. Apenas me disse: Tu, eu, aqui, à noite para ver esta maldita música. E ia a sair da sala…
- Achas que a tua mamã te vais deixar ficar aqui toda a noite com uma menina que mostra as pernas ?- Disse eu, baixando a tampa do piano e fazendo dela um acento. Ele olhou-me de cima a baixo.
- Ela sabe lá…- e saiu. Aquilo ia ser pior do que eu imaginava, oh se ia! Mas estava no “Charlotte”! Ouvi um "Olá, Alan e um "Que fazes aqui?" e depois uma figura não totalmente desconhecida entrou no salão. Edith.
- Não sei se podes entrar aqui...- disse logo. Ela ficou a olhar para mim espantada. Estava mesmo gira, eu!
- Odette? Santíssimo sacramento do altar, que Jesus seja cego neste momento...És mesmo tu?
- Sim, sim, Edith, sou mesmo eu!
- Pai do céu...
- Que te trás aqui? A Charlotte não quer ninguém aqui...
- Ah, eu conheço já essa senhora. Eu vinha era à pricura de...de um...
- De um?
- Moço.
- Tu? Hum...e quem?
- Não sei o nome...- disse ela, sem conseguir olhar para mim. Depois, descreveu-mo e eu percebi que era um dos rapazes da banda.
- Olha, Edith, eu não sei onde eles estão, costumam estar sempre todos juntos, mas devem estar para a vila, ouvi qualquer coisa acerca de irem beber uns copos no "Poison".
- Oh, obrigada, obrigada, obrigada, a sério...- E ia virar costas, quando se arrependeu- A dona Anne Marie não gosta lá muito de ti, diz que és estrangeira...
- Sou de Toulouse, Dieu! Não sou estrangeira...
-Pois, pois, eu sei, mas é aquela coisa, já sabes, depois o Alan...
- Ela contou-te alguma coisa?
- Não, não eu só queria dizer que ela, apesar de ser minha amiga, não tem razã em não gostar de ti! Acho que vamos ser grandes amigas!- Disse a interesseira Edith. Boa rapariga, sim, mas estava na cara que era por causa do rapaz da banda que eu seria sua amiga para a eternidade- Vou então ao Poison, não que esteja desesperada, não...Vou lá beber um cafézinho! Adieu!- E lá foi. Enfim, queria lá saber das paixonetas da menina da funerária,estava tão contente! Saltei para o palco e comecei a dançar, mesmo sem haver música. O salão estava vazio, mas já imaginava todos a baterem palmas, as luzes ligadas, o Alan ao piano com um cigarro ao canto da boca a piscar-me o olho...Ok, vamos passar esta parte, a cortina, as raparigas a dançar e eu no meio delas com todo o glamour, em todo o meu esplendor! As palmas, como ansiava as palmas!
- Clap, clap, clap- Alguém estava na sala, será que não tenho um momento de silêncio? Desci dos meus sonhos e do palco muito rapidamente sem ver quem era. Que vergonha. Depois, vi que era uma rapariga, envolta numa manta. Estava a fumar- Bravo! Tens jeito até- disse ela.
- Ah, não, eu…eu tenho coisas para fazer, vou-me embora para o meu quarto.
- Quarto? - disse a rapariga - Agora moras cá?
-Sim, fui contactada pela madame Charlotte…Sou a nova cantora do barco.
-Ah sim??? Olha que…bom para ti!- disse ela. Não me parecia contente com a notícia. Seria ela?...- Porque eu sou A cantora deste barco. Jaqueline, não com prazer, mas enfim…
- Oh, não sabia que era…quer dizer, está doente, a Charlotte disse que…
- Estou doente mas não estou a morrer! Ainda consigo cantar, que é o que de melhor sei fazer. Já tu…tenho sérias dúvidas. Os músicos disseram-me que havia uma nova miúda, que a Charlotte a tinha transformado, mas nunca pensei que fosse assim como tu.
- Que quer dizer com isso? Eu vou trabalhar bastante aqui! Estou disposta a fazer tudo e…
- Ma cheri- disse ela aproximando-se demasiado de mim, atirando-me com aquele fumo branco para cima- eu, eu, e só eu é que faço tudo aqui, estás a ouvir? Eu, Jaqui. Ficou entendido?- Ai, a rapariga queria molho…Se a madrinha aqui tivesse a moça já estava com os dentes do meio metidinhos para dentro.
- Entendi, sim- disse eu- então, sendo assim…- fui ao piano, tirei de lá as partituras que a Charlotte nos tinha dado e estendi para aquela “madamesinha”- cá está.
- E isso é?
- É para amanhã. Uma música. Tem de cantar e interpretar e ajustar o tom, falar com o pianista e mudar ao seu gosto.
- Hum…- ela ficou a olhar para as folhas - Hoje sinto-me particularmente fraca, é uma pena…Vou falar com a Charlotte, isto não pode ser assim…Até porque eu acho que essa música é um tanto ou quanto difícil para o Giovanni, o nosso pianista, nem deves conhecer…
- Não, na verdade o Gio…
- Desculpa?- disse toda emproada - já se dirigindo para a porta do salão- agora também me vais ensinar quem é quem neste barco? Estou demasiado fraca para te ouvir…Provavelmente a Charlotte quer que faças tu este trabalhinho rasca...
- Rasca? Mas disse que a música era difícil…
- Continua a ser rasca, porque és tu que o fazes, estás a perceber, ma cheri? Incrível, tenho de explicar tudo. Enfim, o Giovanni nem deve conseguir tocar isto…
- Mas…- Naquele memento o Alan entra no salão e aquela horrorosa fica espantada, especada a olhar para ele. Que raiva! Odeio-a. Começou a lançar aquele charme todo típico de mulheres como ela para cima dele. Odeio-a mais ainda!
- Oh lá lá! Olá…- disse ela- mas se não é o rapaz do café!- O Alan não sabia o que fazer, olhava para mim e para ela alternadamente e esboçava um sorriso amarelo, enquanto ela lhe fazia umas festinhas no cabelo e coisinhas assim. Raiva…- Que te trás aqui? Oh! Espera…não respondas, já sei…Eu, não é? Oh…eu sabia- Ele olhava para mim sem perceber nada.
- Não, poderia ser, poderia ser - disse ele entre risinhos melosos – mas não. Na verdade sou o novo
- Porteiro! - Disse eu rapidamente -O Alan é o novo porteiro do barco. A Charlotte contratou-o esta manhã.
- Oh…-disse ela, triste, coitadinha, que horrorosa, que pirosa que…adiante – Então isso quer dizer que vais estar mais lá fora do que dentro do “Carlotte”…pena…O que não quer dizer que não possas entrar de vez em quando, se é que me…- Puxei o Alan para mim. Maldita mulher! Nem conhece o rapaz começa logo a largar aquele charme nojento para cima dele!
- O Alan, hum…tem uma reunião com a madame Charlotte , agora.
- Agora? - disse ele.
- Agora mesmo - disse eu -Por isso, vamos até ao seu escritório. – Peguei-lhe no braço e rumámos corredor a fora, deixando a patética perua no salão, a sonhar com o Alan encantado ou raio que a parta. No corredor, cortei para o meu quarto e não para o escritório da Charlotte. Entrámos no quarto.
- Já me podes largar o braço - disse ele.
- Ah, sim…
- Olha, o quarto nem é mau de todo…- disse ele ao andar pelo meu pequeno quartinho. Tens vista para o mar…percebeste? Vista para o mar. Que piada! - E começou-se a rir. Mas vendo que não esboçava nem um pequeno sorrisinho, parou - Agora sou porteiro do barco? Nem sabia que isso existia…- disse ele sentando-se na cama.
- Foi o que me ocorreu na altura.
- Porque não lhe disseste que sou o novo pianista? - Foi então que lhe contei a minha conversa com ela e como ela tinha a mania que era boa.
- Ela tem medo que ocupes o lugar dela - disse o Alan.
- Pois, eu percebi, mas eu não quero ocupar o lugar de ninguém, aliás…sei lá! Estou tão entusiasmada! - Mas como o Alan não perde uma oportunidade…
- E no meio disto tudo por que sou eu porteiro e não pianista? - Olhei para ele, olhei para o quarto, olhei para o espelho que estava no pequeno tocador, onde estava sentada, em frente do Alan. De um salto saltei para Alan e beijei-o como nunca tinha beijado um homem. Ai, aquele Alan…Envolvemo-nos, por instantes esqueci-me de tudo…Oh! Estava sozinha, num quarto com um homem. Dei conta disso, empurrei bruscamente o Alan e dei-lhe um estalo.
- Odette!- disse ele agarrado à cara.
- Então? -disse eu, compondo-me, quase sem fôlego -sou uma moça direita!
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