
-Bom dia!- Disse eu, ao entrar no quarto do Marcelle e vendo que ele ainda estava deitado.
- Edithezinha...anda aqui para o pé de mim...
- Não, nem tentes! Só depois do casamento!
- Mas nós não vamos...
- Não interessa! Afinal de contas ainda nem foste pedir a minha mão à Anne Marrie.
- Tenho de fazer isso? Porquê??
- Ora! Sou moça de respeito! E a Anne Marrie é uma mãe para mim. Sentir-me-ei ofendida se não fizeres. Aliás, ela já me perguntou quando é que lá ias. Levaaaaaaaaanta-te!- disse eu, empurrando-o para fora da cama.
- Esta pressa toda é para ir a casa da Anne Marrie ou é para quê?
- O Alan está a organizar pessoal para procurar a Jaqueline e a Charlotte, pronto, mais a Charlotte que a Jaqueline.
- Estou cansado...
- Aaaaanda. Que marido molengão que eu arranjei. E, já que falaste nisso, podemos passar, no caminho, na casa da Marrie, realmente...Assim, falavas com ela e as coisas ficavam logo arrumadas.
- E se ela disser que não? Que fazes?
- Nada, fica td na mesma. Mas eu preciso da aprovação dela. Vá, upa, upa e toca a tomar banhoca!- Ele lá me fez esse favor e, após o banho, fi-lo vestir o seu melhor fato (sem eu ver, obviamente, saí do quarto nessa altura, sou rapariga de respeito). Perfumadinho, arranjadinho (como sempre) estava lindo (também como sempre). Fomos os dois para o convés e o Alan organizava, como tinha dito, o pessoal. Aquele barco não viveria sem a Charlotte. Disse ao Alan o que primeiro pretendia fazer, que era falar com a sua mãe sobre o meu "casório", e depois eu e o meu Marcelle, partiriamos, então, em busca da Charlotte perdida. Assim foi. Entrámos na casa da Anne Marie, ela abriu a porta, claro, olhou para o Marcelle e disse: "Não gosto de ti, mas está bem fica lá com a Edith, porque também se não fores tu não é mais nenhum". Eu abracei-a e depois abracei de felicidade o Marcelle, que também estava muito feliz. Isto demorou, ora...uns 3 minutos. Depois fomos então à procura da madame. O Alan tinha-nos dado indicações para perguntar nos cafés, nos bares, nas praças, em todo o lado! Mas não foi nem preciso proferir uma palavra...
- Oh! Pst!- disse uma velha que estava encostada ao pé da igreja. Pelo aspecto era...enfim- Andas à procura da velha do barco?
- Andamos- disse o Marcelle.
- Epá, é assim, ah...ah...-e tira um papelinho de sabe-se lá de onde e começa a ler- Ora...eu vi-a quando saiu do barco e ela estava a falar com um homem que...- e parou, não deveria estar a perceber a letra, ou sei lá- que...que era...esquece esta parte! Iam para Marselha.
- Oh!!- disse eu- Temos de avisar o resto das pessoas! Obrigada minha boa senhora!
- Dizem que sim!...- e lá fui eu e o Marcelle, a correr para o barco, dizer ao Alan (que estava na "base") o que acabavamos de saber!
- Marselha? Mas porquê?- perguntou.
- Não sei, agora vamos rapidamente!- disse o Marcelle.
- Vamos de barco?- Alan.
- Claro, querias levar esta gente toda como? Vá!- De facto, a Charlotte tinha deixado o barco ao Marcelle. Tinha de ser! Que espírito aventureiro! Ai! Juntou-se toda a gente e fomos rumo a Marselha, que não era nada longe. Demorámos um dia. De noite, o Marcelle e o Alan ficavam acordados à vez para conduzir o barco e eu e a Odette também, claro, para fazer companhia aos nossos heróis. Ouvi uma conversa enquanto eu dormia ao lado do Marcelle ("dormia") e a Odette e o Alan enfrentavam o mar, sempre avistando a costa, não vá o diabo tece-las.
- Não consigo acreditar que estamos aqui, sem Jaqueline, sozinhos...
- Nem eu...Estive a pensar: Gostava de voltar para Paris, mas desta vez contigo-
- Também gostava, sim. E Marselha? Desde pequena que gosto da cidade, ia lá muitas vezes com o meu pai, aliás não me admira nada a Charlotte ter ido para lá, o meu pai deu-lhe...- Nesta altura abri o olhito. Sabia que havia mais qualquer coisa sobre a ida da Odette para Fleury, mas não sabia exactamente o quê. O Alan fez questão de perguntar o que eu tanto desejava perguntar e a Odette acabou por dizer tudo- Deu-lhe tudo, Alan, tudo...A Charlotte era amante do meu pai. Ele largou uma cadeia de talhos que tinha, largou a minha mãe, a mim, aos meus irmãos, tudo por ela. Passado um ano de ele se ter ido embora, para Marselha, precisamente, a minha mãe morreu e eu e os meus irmãos fomos distribuídos pelas casas dos nossos padrinhos, não tínhamos mais ninguém. Foi uma sorte ter os meus padrinhos, sempre tão queridos, nunca me negaram nada. Assim, fui para Toulouse e os meus irmãos, mon Dieu, um foi para Paris, outro para Lion, outro ficou por lá mesmo, sei lá, já lhes perdi o rasto há muito. Não me quero vingar da Charlotte, só quero o que é meu por direito. Até porque acho que ela nem sabe que o meu pai tinha uma família, um negócio...Soube mais tarde, por ter ouvido uma conversa dos meus padrinhos, que a Charlotte tinha um barco, com o nome dela, e que andava pelas terras a fazer espetáculos. O nome ficou-me na memória e desde esse dia que decidi que a quero encontrar e quero o que é meu por direito.
- Falas do barco?
- Falo de tudo, Alan. Das casas em Marselha, por exemplo. O meu pai era um homem endinheirado. Tinha duas casas, pequenas, é certo, em Marselha, uma em Lion, onde moravam os padrinhos do meu irmão mais novo, e para onde ele foi, outra sei lá onde...Ela só conseguiu erguer aquele barco porque o meu pai a ajudou. Foi com o dinheiro do meu pai que ela andou com o negócio do cabaret. Claro que depois a isto tudo juntou-se o facto de me ter apaixonado por ti...E se nunca mais conseguir encontrar a Charlotte, mesmo depois de chegar a Marselha, também, sinceramente, não quero mais saber dela para nada. O facto de me ter apaixonado por ti já vale tudo o que vivi. Quero uma vida nova para mim e tu estás incluido nela.- Seguiu-se um beijo apaixonado. Não queria acreditar no que estava a ouvir. Enfim, uma pessoa vive trinta e poucos anitos sem ver nada nem fazer, nem ouvir nada nesta vida, nada de relevante, vá, e de um momento para o outro acontece tudo. Incrível. Mais uns dois turnos do Marcelle e chegámos, pela manhã, a Marselha. Que porto magnifico. A minha primeira viagem! Afinal, nunca tinha saído de Fleury, assim, para tão longe. O Alan reuniu o pessoal no convés, mais uma vez, e avisou que ele e a Odette iam sair. Após todos terem dispersado, ele fez-me sinal e disse para eu e o Marcelle, nos juntar-mos à busca, assim como fez com a cigana. Curiosamente, mesmo curiosamente porque para todos os efeitos não sei de nada, em abri a boca para dizer nada, o que eu menos quero é xatices, mon Dieu, a Odette sabia exactamente onde é que, supostamente, a madame estava escondida com o cigano (que fraco gosto, realmente).
- Já vieste aqui?- perguntou o Marcelle quando chegámos à porta de uma casa, um pequeno prédio de dois andares . Pois claro! Estava a roncar em vez de ouvir a conversa, como eu!
- Sim- disse a Odette- É uma longa história...Se ela não estiver aqui, deve estar numa outra casa, parecida, mas na rua abaixo.- Batemos à porta. Nada. Não era ali que ela se escondia. Descemos a rua e batemos à porta daquela casa de que a Odette falou. Eu já nem queria saber da madame, estava a adorar a cidade grande! Se o Marcelle não fosse um marinheiro de cabaret, não me importava nada de arrumar os meus trapinhos por lá. Desta vez abriram a porta.
- Pacheco???- dissemos os cinco.
- Oi! Entrem, entrem a madame está a vossa espera!- Entrámos. A madame?
- Pacheco- disse o Alan- a madame Charlotte espera-nos? Como, se ela nem sabia que vinhamos para cá...?- E entrámos numa sala, grandita até.
- Não, mon amour! Não é essa madame que vos espera, amour de ma vie. Sou eu! Jaqui, a tua Jaqui, para sempre! Ainda bem que já chegaram! Sentem-se, sentem-se! Pacheco, vai lá buscar a velha. O cigano deixa o lá estar, está a fazer um bom trabalho com a loiça suja- Fomos supreendidos pela Jaqueline, que, sentada numa chaiselong fumava a sua irritante cigarrilha e fazia questão de estar só de roupão. Tapei os olhos ao Marcelle logo a seguir! A Odette agarrou o braço do Alan e lançou-lhe um olhar fulminante e a Morgana apenas levanta a saia comprida , sem pudor algum, e tira da meia uma navalha, uma considerável navalha, faz um olhar matador à Jaqueline e senta-se no sofá, de perna aberta, à homem e fica-se por ali. Mulherzinha desfrutável,aquela "Jaqui"...
- Edithezinha...anda aqui para o pé de mim...
- Não, nem tentes! Só depois do casamento!
- Mas nós não vamos...
- Não interessa! Afinal de contas ainda nem foste pedir a minha mão à Anne Marrie.
- Tenho de fazer isso? Porquê??
- Ora! Sou moça de respeito! E a Anne Marrie é uma mãe para mim. Sentir-me-ei ofendida se não fizeres. Aliás, ela já me perguntou quando é que lá ias. Levaaaaaaaaanta-te!- disse eu, empurrando-o para fora da cama.
- Esta pressa toda é para ir a casa da Anne Marrie ou é para quê?
- O Alan está a organizar pessoal para procurar a Jaqueline e a Charlotte, pronto, mais a Charlotte que a Jaqueline.
- Estou cansado...
- Aaaaanda. Que marido molengão que eu arranjei. E, já que falaste nisso, podemos passar, no caminho, na casa da Marrie, realmente...Assim, falavas com ela e as coisas ficavam logo arrumadas.
- E se ela disser que não? Que fazes?
- Nada, fica td na mesma. Mas eu preciso da aprovação dela. Vá, upa, upa e toca a tomar banhoca!- Ele lá me fez esse favor e, após o banho, fi-lo vestir o seu melhor fato (sem eu ver, obviamente, saí do quarto nessa altura, sou rapariga de respeito). Perfumadinho, arranjadinho (como sempre) estava lindo (também como sempre). Fomos os dois para o convés e o Alan organizava, como tinha dito, o pessoal. Aquele barco não viveria sem a Charlotte. Disse ao Alan o que primeiro pretendia fazer, que era falar com a sua mãe sobre o meu "casório", e depois eu e o meu Marcelle, partiriamos, então, em busca da Charlotte perdida. Assim foi. Entrámos na casa da Anne Marie, ela abriu a porta, claro, olhou para o Marcelle e disse: "Não gosto de ti, mas está bem fica lá com a Edith, porque também se não fores tu não é mais nenhum". Eu abracei-a e depois abracei de felicidade o Marcelle, que também estava muito feliz. Isto demorou, ora...uns 3 minutos. Depois fomos então à procura da madame. O Alan tinha-nos dado indicações para perguntar nos cafés, nos bares, nas praças, em todo o lado! Mas não foi nem preciso proferir uma palavra...
- Oh! Pst!- disse uma velha que estava encostada ao pé da igreja. Pelo aspecto era...enfim- Andas à procura da velha do barco?
- Andamos- disse o Marcelle.
- Epá, é assim, ah...ah...-e tira um papelinho de sabe-se lá de onde e começa a ler- Ora...eu vi-a quando saiu do barco e ela estava a falar com um homem que...- e parou, não deveria estar a perceber a letra, ou sei lá- que...que era...esquece esta parte! Iam para Marselha.
- Oh!!- disse eu- Temos de avisar o resto das pessoas! Obrigada minha boa senhora!
- Dizem que sim!...- e lá fui eu e o Marcelle, a correr para o barco, dizer ao Alan (que estava na "base") o que acabavamos de saber!
- Marselha? Mas porquê?- perguntou.
- Não sei, agora vamos rapidamente!- disse o Marcelle.
- Vamos de barco?- Alan.
- Claro, querias levar esta gente toda como? Vá!- De facto, a Charlotte tinha deixado o barco ao Marcelle. Tinha de ser! Que espírito aventureiro! Ai! Juntou-se toda a gente e fomos rumo a Marselha, que não era nada longe. Demorámos um dia. De noite, o Marcelle e o Alan ficavam acordados à vez para conduzir o barco e eu e a Odette também, claro, para fazer companhia aos nossos heróis. Ouvi uma conversa enquanto eu dormia ao lado do Marcelle ("dormia") e a Odette e o Alan enfrentavam o mar, sempre avistando a costa, não vá o diabo tece-las.
- Não consigo acreditar que estamos aqui, sem Jaqueline, sozinhos...
- Nem eu...Estive a pensar: Gostava de voltar para Paris, mas desta vez contigo-
- Também gostava, sim. E Marselha? Desde pequena que gosto da cidade, ia lá muitas vezes com o meu pai, aliás não me admira nada a Charlotte ter ido para lá, o meu pai deu-lhe...- Nesta altura abri o olhito. Sabia que havia mais qualquer coisa sobre a ida da Odette para Fleury, mas não sabia exactamente o quê. O Alan fez questão de perguntar o que eu tanto desejava perguntar e a Odette acabou por dizer tudo- Deu-lhe tudo, Alan, tudo...A Charlotte era amante do meu pai. Ele largou uma cadeia de talhos que tinha, largou a minha mãe, a mim, aos meus irmãos, tudo por ela. Passado um ano de ele se ter ido embora, para Marselha, precisamente, a minha mãe morreu e eu e os meus irmãos fomos distribuídos pelas casas dos nossos padrinhos, não tínhamos mais ninguém. Foi uma sorte ter os meus padrinhos, sempre tão queridos, nunca me negaram nada. Assim, fui para Toulouse e os meus irmãos, mon Dieu, um foi para Paris, outro para Lion, outro ficou por lá mesmo, sei lá, já lhes perdi o rasto há muito. Não me quero vingar da Charlotte, só quero o que é meu por direito. Até porque acho que ela nem sabe que o meu pai tinha uma família, um negócio...Soube mais tarde, por ter ouvido uma conversa dos meus padrinhos, que a Charlotte tinha um barco, com o nome dela, e que andava pelas terras a fazer espetáculos. O nome ficou-me na memória e desde esse dia que decidi que a quero encontrar e quero o que é meu por direito.
- Falas do barco?
- Falo de tudo, Alan. Das casas em Marselha, por exemplo. O meu pai era um homem endinheirado. Tinha duas casas, pequenas, é certo, em Marselha, uma em Lion, onde moravam os padrinhos do meu irmão mais novo, e para onde ele foi, outra sei lá onde...Ela só conseguiu erguer aquele barco porque o meu pai a ajudou. Foi com o dinheiro do meu pai que ela andou com o negócio do cabaret. Claro que depois a isto tudo juntou-se o facto de me ter apaixonado por ti...E se nunca mais conseguir encontrar a Charlotte, mesmo depois de chegar a Marselha, também, sinceramente, não quero mais saber dela para nada. O facto de me ter apaixonado por ti já vale tudo o que vivi. Quero uma vida nova para mim e tu estás incluido nela.- Seguiu-se um beijo apaixonado. Não queria acreditar no que estava a ouvir. Enfim, uma pessoa vive trinta e poucos anitos sem ver nada nem fazer, nem ouvir nada nesta vida, nada de relevante, vá, e de um momento para o outro acontece tudo. Incrível. Mais uns dois turnos do Marcelle e chegámos, pela manhã, a Marselha. Que porto magnifico. A minha primeira viagem! Afinal, nunca tinha saído de Fleury, assim, para tão longe. O Alan reuniu o pessoal no convés, mais uma vez, e avisou que ele e a Odette iam sair. Após todos terem dispersado, ele fez-me sinal e disse para eu e o Marcelle, nos juntar-mos à busca, assim como fez com a cigana. Curiosamente, mesmo curiosamente porque para todos os efeitos não sei de nada, em abri a boca para dizer nada, o que eu menos quero é xatices, mon Dieu, a Odette sabia exactamente onde é que, supostamente, a madame estava escondida com o cigano (que fraco gosto, realmente).
- Já vieste aqui?- perguntou o Marcelle quando chegámos à porta de uma casa, um pequeno prédio de dois andares . Pois claro! Estava a roncar em vez de ouvir a conversa, como eu!
- Sim- disse a Odette- É uma longa história...Se ela não estiver aqui, deve estar numa outra casa, parecida, mas na rua abaixo.- Batemos à porta. Nada. Não era ali que ela se escondia. Descemos a rua e batemos à porta daquela casa de que a Odette falou. Eu já nem queria saber da madame, estava a adorar a cidade grande! Se o Marcelle não fosse um marinheiro de cabaret, não me importava nada de arrumar os meus trapinhos por lá. Desta vez abriram a porta.
- Pacheco???- dissemos os cinco.
- Oi! Entrem, entrem a madame está a vossa espera!- Entrámos. A madame?
- Pacheco- disse o Alan- a madame Charlotte espera-nos? Como, se ela nem sabia que vinhamos para cá...?- E entrámos numa sala, grandita até.
- Não, mon amour! Não é essa madame que vos espera, amour de ma vie. Sou eu! Jaqui, a tua Jaqui, para sempre! Ainda bem que já chegaram! Sentem-se, sentem-se! Pacheco, vai lá buscar a velha. O cigano deixa o lá estar, está a fazer um bom trabalho com a loiça suja- Fomos supreendidos pela Jaqueline, que, sentada numa chaiselong fumava a sua irritante cigarrilha e fazia questão de estar só de roupão. Tapei os olhos ao Marcelle logo a seguir! A Odette agarrou o braço do Alan e lançou-lhe um olhar fulminante e a Morgana apenas levanta a saia comprida , sem pudor algum, e tira da meia uma navalha, uma considerável navalha, faz um olhar matador à Jaqueline e senta-se no sofá, de perna aberta, à homem e fica-se por ali. Mulherzinha desfrutável,aquela "Jaqui"...
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