terça-feira, 7 de abril de 2009

Lavar de roupa suja também conhecido por VINGANÇA!

Cambada de lamechas, gente sem vida, sem sal! Até estou aliviada de tudo ter acabado e de estar livre desta gente. Parece que a Charlotte é que foi esperta e safou-se enquanto pode. A espertinha soube que ía sobrar para ela, é aí que reside o meu último trunfo. Eu não vou sair de cena assim sem mais nem menos, eles não se vão ficar a rir de certeza. A última palavra é minha. Se nem o Alan nem o Marcelle são meus não são de mais ninguém e a Charlotte vai se arrepender de não me ter defendido e por ter aceite aquela desgraçada no meu lugar.
Enquanto acabavam aquela aberração a que chamam espectáculo eu corri para os quartos e tirei todas as jóias que encontrei. A maioria estava no quarto da Charlotte, como seria de esperar. Devia estar mesmo desesperada para as ter deixado para trás. Ainda tentei ir à arca onde guardava todos as suas fotografias e as cartas dos seus amantes, mas disso ela não se esqueceu, aliás deve ter sido a primeira coisa que levou consigo. Não interessa, alguma coisa hei-de arranjar.
Os aplausos fizeram-se ouvir, para um público provinciano e estúpido qualquer coisinha serve para uma ovação. Escondi-me na nos bastidores enquanto o público voltava ao porão para "raspar o prato". Ouvi uma conversa sobre a Charlotte e um cigano, parece que fugiram e a mulher fez a escandaleira que era de esperar, seguida de um mar de lágrimas e a berrar pelo seu maridinho agarrada à barriga. Tenho saudades de pessoas civilizadas, que sabem estar, que lidam com as tragédias de forma fria e insensível um "tu é que perdes" ou um "paciência nem eras assim tão bom". Ai como tenho saudades de Paris! Com sorte estou lá daqui a uma semana, mas para isso preciso de uma lista de ajuste de contas.
Vidas a arruinar:
- Odette: por se ter metido no meu caminho e arruinado as minhas chances com o Alan;
- Alan: por ter caído na conversa da pindérica e me ter ignorado por completo apesar da maneira descarada como me atirei a ele;
- Anne Marie: por me ter traído, prometi que separava a Odette do querido filhinho, quando chegou a hora a velha acobardou-se;
- Edith: por me ter roubado o Marcelle, o meu homem-reserva e adorador/ lambe-botas;
- Marcelle: Edith!
- Charlotte: por me ter trocado pela desenxabida, eu que sempre fui a estrela do cabaret, eu que sei da vida dela coisas que todos desconhecem;
- Pacheco: por me ter estragado o meu vestido preferido e por me cuspir na sopa já lá vão 10 anos.
É claro que tenho tudo planeado. com a Charlotte longe daqui até será mais fácil e usarei as jóias para angariar apoiantes. A verdade é que durante a minha estadia fiz algumas "amizades", a Francesca e a Sophie Tereze são duas velhas prostitutas que não arranjam trabalho na vila, não me perguntem como as conheci. É certo que são velhas (podiam ser irmãs da Anne Marie) mas estão desesperadas por algum dinheiro e assim derepente são as únicas que me podem ajudar neste momento.
A gentalha estabeleceu-se no barco e por isso tive de voltar à vila para procurar as minhas camaradas. Como sempre estavam na esquina junto da igreja, em pose atrapalhada e a serem importunadas por uns individuos claramente ... bêbedos.
- Oh boa! Belos presuntos que tens aí Sophie, posso dar uma trinca?
- Oh jóia deixa-me ser o teu ourives!
Apesar dos comentários menos simpáticos elas pareciam gostar, deve mesmo ter sido a única atenção que recebem em meses já que os rapazes saíram entusiasmados do cabaret. Tive de ser eu a acalmar os ânimos e a resgatá-las pois o padre ameaçou atirar um balde de àgua fria para fazer desaparecer estes "animais". Dito e feito, ficaram encharcados, deitados no chão a olhar as estrelas e a cantar as músicas do espectáculo. Tristes! Fomos para a casa delas onde lhes contei o meu plano. Ao contrário do grupinho que ficou no barco eu sei perfeitamente para onde a Charlotte fugiu, só pode ser para Marselha o único sítio no mundo onde está alguém que se importa com ela.
- Oh queridinha e o que pensa fazer? Chegar lá e armar uma confusão? Que ganho eu com isso? - pergunta Francesca com o seu sotaque deliberadamente carregado que pensa, erradamente, ser sexy.
- Nós vamos fazer com que o esquedrão de tristes lá chegue. Mas claro que não vão saber que sou eu quem dou a pista, é aí que preciso de vocês. Sabe-se lá porquê mas as gentes do cabaret ouvem o que velhas pêgas têm a dizer, ops falei de mais!
- Han? - perguntam ambas em coro.
- (não sei porque tento ser subtil com este tipo de gente) Eles estão habituados a serem liderados por uma pêga ... a Charlotte! Não passa de uma reles meretriz que andava pelas ruas de Paris a fingir-se de cantora e a ganhar trocos roubando-os a ceguinhos e a velhas pernetas. Subiu na vida graças ao Senhor Genet, velho jarreta que se encantou com ela e a conseguiu por a trabalhar num cabaret. Desde aí que tem a mania que é estrela, mas só sobrevive à custa de homens ricos e de família.
- Isso é que é lavar de roupa suja Jacqueline! É inveja é?
- Cala a boca Sophie! Se a fechasses mais vezes nem tinhas herpes nem tanta gordura saturada!
- E então o que queres fazer? Chegar lá e denunciares o que ela fez? Não sei como isso vai resolver a tua questão.
- Chantagem minhas senhoras!

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