terça-feira, 7 de abril de 2009

Revelações


- Boa! Agora nós, minha menina! Tu fizeste da Edith uma cigana e enganaste-me! Fizes-te com que ela enfeitiçou o Alan, ela enganou-me, fiquei gorda, horrivel!! Vais me pagar!!- E vinha direita a mim quando simplesmente lhe estendi a mão num gesto para a fazer parar, como se fosse um guarda.
- Calma! Primeiro: Eu era a cigana. E Edith foi uma solução que se arranjou na hora, quando descobriste que era eu...
- Eu sabia!!
- Segundo: Não enfeiticei o Alan, nunca o fiz.
- Não?- disse a Morgana.
-Não- continuei- Tinha realmente imensos feitiços, poções, mas não usei nenhuma, pronto, a não ser a primeira, que acabei por entornar a água no pé errado etc, etc, uma longa história. Mas a verdade é que das sessões que tive com o Alan, como Guadalupe, nunca lhe dei nada a beber, nunca lhe lançei nunhum feitiço. Apenas falei com ele, apenas falámos de coisas triviais, nada de mais...Só o fiz cair na real.
- E como explicas o facto de ele estar caídinho de amores por ti? Hã? Foi quase de um momento para o outro!!- disse a Jaqueline, que se fosse um dragão já tinha queimado tudo em volta.
- Esperem!- disse o Alan, até à altura calado- Isso não se explica- todos ficaram calados e eu senti que realmente o meu "trabalho" tinha finalmente dado frutos- A verdade é que nas longas conversas que tive com a Guada...Odette eu percebi que de quem eu gostava mesmo, por queme stou apaixonado é ela mesmo, a Odette. Estou desde o dia em que a minha carroça chocou contra a bicicleta velha dela. Desde que ela se irritou comigo por eu a estar a observar do cimo de uma árvore; quando lhe apanhei a malha da meia; quando a levei comigo com a esperança de que nunca mais nos separassemos. Não precisei de feitiços para saber nada disso, as coisas acontecem, simplesmente acontecem...- E olhou para mim com aquele olhar- Só tenho de te pedir desculpa, Odette, por não ter ido atrás de ti quando te foste embora do espetáculo, tenho mesmo pena, fui um idiota, mas, no fundo, a Jaqueline estava-me a prender de tal maneira, fiquei confuso, porque pensei que ao figires também não te importavas comigo...
- Mas eu nunca pensei nada disso- disse eu.
- Sim, agora sei que sim- respondeu- Desculpa...- E chegou perto de mim e abraçou-me. Finalmente consegui, depois de tanto tempo, voltar a sentir o seu perfume, o cheiro dos seus cabelos. Depois do abraço olhou para todos, inclusive a Jaqueline que tinha assumido, de vez, uma postura de derrotista- Jaqueline, basta...Já chega disto tudo.
- Mas eu quero-te tanto, Alan!! Fica comigo, eu sou uma mulher muito mais evoluida, não vez??- ele nem lhe respondeu. Todos estavam parados, a olhar, incluise o Marcelle e a Edith, que, abraçados, assistiam àquilo tudo como um filme. A Edith, inclusive, chorava. Era, de facto, uma cena comovente. Finalmente o Alan tinha descoberto que realmente eu era o amor da sua vida. Não podia estar mais feliz- Esquece- continuou a Jaqueline, tirando as plumas vermelhas da cabeça e atirando-as para o chão- já percebi tudo. Fiquem lá os dois, que porcaria de vida a minha...Sejam felizes, vá! Mas desapareçam-me da frente, vão para onde quiserem, só nunca mais me apareçam à frente...Aliás, deixem se estar. Eu mesma me encarrego de desaparecer da vossa vida, afinal fui eu que começei isto tudo...- E saiu da sala. O Marcello preparava-se para ir atrás dela, quanda a Edith o agarrou e lhe deu uma palmada no braço, como gesto de reprovação. Essa tarefa coube ao Pacheco, que, pelas suas pequenas pernitas, correu atrás da má da fita. Eu continuava abraçada ao Alan, estava-se tão bem entre os seus braços. Depois de segundos de silêncio o Florentino fez-nos descer à terra.
- É assim malta: O espetáculo tem de continuar...Tenho uma multidão lá em baixo a comer o que nos restava para mais duas semanas no mar. Como vamos fazer?...- Olhámos uns para os outros. Ninguém sabia como solucionar o problema.
- Eu não me importo de fazer a vez da Jauqueline.- disse a Edith.
- Não! Mulher minha não anda de pernas ao leu e com outras duas coisas quase ao leu...- O Marcelle não parecia gostar da ideia.
- Mulher tua?- disse ela- Oh, Marcelle, que queres dizer com isso?
- Edith, tu, Edith, oh, Edith, aceitas ser minha mulher?
- Mas...não podemos casar, tu já és...
- O casamento é uma coisa simbólica, sem importância- E saca de uma caixinha do bolso traseiro das calças. Quando a abre, faz aparecer um bonito colar de pérolas verdadeiras e ouro branco! ouviu-se um "Ohhhh" geral pela sala. A Edith começou novamente a chorar- Aceitas ficar com este músico de cabaret, viver comigo, termos sete filhos e um cão?- Ela estava paralizada. Naquele momento, em que todos esperava-mos pela resposta...
- Sim! Sim, ela aceita, songamonga, até faz o moço esperar!- disse a Morgana rapidamente, seguida da Edith que deu um guinchinho e saltou para o pescoço do Marcelle, cobrindo-o de beijos. Todos aplaudimos tal situação e eu estava prestes a recer um beijo do Alan quando, mais uma vez, o Florentino interrompeu.
- Minha gente! Isto é tudo muito bonito, sim, lindo, parabéns aos "noivos", mas tenho uns devoradores no porão que parcem que não comem à um mês, e daqui a nada , não tarda, começam a comer o próprio barco. Vamos ao espetáculo, minha gente!
- Amor, vá lá Marcelle...Deixa-me salvar a situação, só desta vez...- implorou a Edith ao seu amado Marcelle. Ele lá concentiu, agarramos nas plumas que a Jaqueline tinha deixado no chão, uns fatos mais velhos, vestimos a Edith, e fomos para os nossos lugares, de onde tinhamos parado. O pessoal voltou do porão, sentou-se nas cadeiras e, finalmente, a rapariga, eu, revelou-se perante todos, nos dois sentidos: no da peça, e no real. Todos adoraram e aplaudiram. Vi do palco a senhora Anne Marrie, que chorava, com tal cena dramática, vi todo o pessoal do café "Poison", que aplaudia de pé, vi a Morgana que assobiava estridentemente, com os dedos enfiados na boca. Que gratificante. No entanto, não vi a Charlotte...Provavelmente estava chateada comigo, iria correr comigo ao pontapé, nunca mais eu pisaria aquele palco. Após o espetáculo terminado fui para o "meu" camarim. Na verdade era o da Jaqueline, mas essa, segundo o resto do pessoal, nem no quarto estava. Tinha-se evaporado. Ela e o Pacheco. A Charlotte, supostamente, estava no quarto trancada, e não respondia nem abria a porta a ninguém. Estava a tirar a maquilhagem no camarim, quando entra o Alan, sempre com aquela calma, sempre com o seu jeito.
- Sabia que vinhas- disse eu.
- Por que nunca me disses-te que eras tu a cigana?
- E por que nunca me reconheces-te?
- E por que fizes-te tudo isto?
- E se eu te disser que é uma longa hostória?
- Não tem só a ver connosco?
- E se eu te disser que não?
- Nã0?
- E se nos deixar-mos de perguntas tolas?- Parti para ele, queria tanto beija-lo. Só Deus sabe como me custou conter tanto tempo. Todos os dias o via, todos os dias falavamos, todos os dias tinha de o ver e pensar que já não faltava muito para lhe dar todos os beijos que quisesse! Era agora!...
- NÃO ENCONTRO O RODRIGUEZ!- Ou...talvez não.
- Morgana...deve ter ido para casa...- diss eu.
- Não!! Não está em lado nenhum! Nem na praia, nem em casa, nem a pescar no lago da vila, nem em lado nenhum!!- Nunca tinha visto a Morgana tão desesperada, principalmente quando o assunto é o Rodriguez- Eu acho que ele fugiu de vez...
- Não!- disse o Alan- Por que haveria ele de fugir?
- Oh, rapaz, eu sou muito mázinha para ele- disse ela, sentado-se na "minha" cadeira, e olhando para a sua propria figura no espelho- Sou uma parva...Ele é um amor de homem, fazia tudo por mim, e logo agora que...Que estou grávida- Não queríamos acreditar!
- Mas tu não podes ter...
- Oh! Odette, minha cara...Não posso? Sempre pude, só que não queria. Chás, uns pozinhos aqui, uns ali e nunca fiquei, sentia-me livre...Mas agora queria tanto ter um bebé, um fruto meu e do Rodriguez. Ele no fundo é o homem da minha vida, ora bolas!- Nunca pensei ouvir tamanhas palavras da boca da Morgana.
- Odette! Odette!- entrou o Florentino a correr no camarim- Está tudo doido à procura da madame Charlotte! Deixou estes bilhete:
Queridos,
Fui viver a minha vida como realmente a queria viver há muito tempo. Estou velha e já não me sinto capaz para arcar com tamanha responsabilidade que é fazer um espetáculo com tamanhas dimensões. Este barco, no fundo, é vosso. São vocês que fazem dele o verdadeiro cabaret, o verdadeiro espetáculo. Sem vocês ele nunca existiria. Deixo-o a uma pessoa que sei que nunca me vai decepcionar, a uma pessoa que vive para isto, que faz da sua vida este barco. O Marcelle. Poderia deixar a qualquer um, são todos uns queridos, mas eu sei que este garçon nunca vai largar este barco, nunca me decepcionou, sempre me ajudou, é alguém estável para comandar este navio. Foi uma surpresa esta revelação? Se foi ainda bem. Parto com aquele que me vê como uma simples mulher, que me vê como apenas a Charlotte. Pode ser que mais tarde perceba que fui feita para ele.
Beijos, Charlotte.
- O mon Dieu!- disse eu- ela fugiu!
- Espera, está aqui outro bilhete!- Disse o Florentino. Era a letra da Charlotte, mas não era ditado por ela, se é que me entendem...
Morgana,
Sou eu, o Rodriguez. Como não sei escrever dei a esta senhora o papel e ela escreverá por mim, já que sou analfabeto. Talvez seja por isso que não gostes de mim, ou simplesmente porque sou um nabo, que não tem jeito para nada, nem para fazer filhos. Então, cá vai: Vou-me embora, serás mais feliz assim. Já não terás de me mandar fazer as coisas, nem ralhar comigo, sabes porquê? Porque não estarei aí, pois é. Não sei para onde vamos, mas vamos tentar ser felizes, apesar de gostar de ti, esta senhora também não é nada má e até não desgosta do meu cheiro. Diz que a faz sentir mulher e que lhe faz lembrar o passado. Então é isto.
Adeus, o teu cigano.
- Nãaaoo!!- A Morgana rompe num choro desgraçado.
- Calma, calma, eles não devem estar longe- disse o Alan.
- Culpa minha! Culpa minha! Isto tudo é culpa minha!! Que estupida que fui, Dieu! Que estúpida!
- Calma- disse eu- eles de barco não foram, por isso não vão muito longe...Só podem ter ido a pé ou...
- De carro...-disse o Florentino- A senhora deve ter chamado um carro e saiu daqui, se a conheço, foi isso que ela fez.
- Eu vou encontrar aquele homem! Eu vou até ao fim do mundo, mas eu encontro aquele homem!! O meu filho não há de ficar sem pai!!- Disse a Morgana, levantando-se da cadeira, limpando as lágrimas- Vou recrutar pessoal, tem de ser!
- Nós vamos contigo- disse o Alan.
- Sim, o barco não pode viver sem a madame Charlotte!- disse o Florentino
- E eu ainda não acabei o que vinha aqui fazer...- disse eu. Tenho coisas a resolver, sim. Parte do plano está completa. O que tenho para dizer à Charlotte não pode ficar por dizer.

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