
-Apressa-te, Rodriguez, já não te vejo bem!- Estava sentada junto à porta da nossa tenda. O Rodriguez impiriquitava-se lá dentro- és pior que as noivas!
- Xaram!- disse ele, saindo triunfalmente da tenda- que tal?
- Cheiras mal!
- Morgana...bolas, uma pessoa tenta te agradar e depois és assim...
- Cheiras a gato morto, que queres que te faça? E esse casaco, onde é que o roubas-te?
- Era do paizinho...
- Logo vi...- Com esta lengalenga toda nem dei pela chegada da minha querida "Guadalupe"- Vais ao espectáculo? Mas...assim vestida? Não deverias ir fazer a vez da Jaqueline? Mau...não tinhamos concordado que o Rodriguez a ia raptar?
- Eu ia raptar a moça do cabaret?
- Cala-te, Rodriguez...Então, Odette? Explica-te lá...
- Bom, na verdade os meus planos são outros. Estive a falar com a Edith e temos um plano em mente.
- Contaste-lhe que...
- Sim, que a Charlote é mais do que a dona do bar. Ela é, ou foi, a pessoa que fez com que os meus pais se separassem...
- Ela era a outra??
- Cala-te, Rodriguez!- dissemos as duas em coro.
- Então e agora?- perguntei.
- Está tudo sob controlo. Já conheço a Jaqueline, ela vai impedir que a Edith vá ao espectáculo...so que a Edith vai...eu vou como eu e não como cigana mas não deixo de ser a Guadalupe mas no fundo não sou!
- Doi-me a cabeça...que confuso...
- Rodriguez...cala-te- disse eu. Na verdade não estava a perceber grande coisa também, mas não havia de ser nada. Decidi esperar, para ver o que ia sair dali. Fomos para o barco em separado, não dar nas vistas. No entanto, a coisa, no caminho, não correu lá muito bem...
- Então? Estás bem?
- Ai...estou com uma indigestão...Que peixe comemos ao almoço?
- Hum, ah, hum...um do lago da vila.
- O quê?? Queres me matar, Rodriguez? É isso que queres?
- Não, amor! Estava com preguiça em ir à praia...Os peixinhos eram tão gordinhos...Mas não estava bom?
- Estava, estava tão bom que agora...- Senti algo subir por mim e preparar-se para sair para fora de mim. Felizmente o peixe não me saiu pela boa. Parámos um bom bocado para eu me acalmar e depois gritei para o Rodriguez me levar ao colo. Assim foi. Quando chegámos ao barco depara-mo-nos com muita, muita gente. Temi não cabermos todos dentro do barco mas um anão tranquilizou-me logo em seguida.
- Há ispáço pá todi genti! Vamos lá acalmar! Nem que uns vejam sentados nos candeeiro di tecto!- e começou-se a rir. Era medonho. Pus-me na fila para comprar o bilhete, mas o anão não deixou. Puxou-me pela saia e disse:
- Oh dona, tu podes entrar já, furá a fila, tás a ver?
- Porquê?
- Tu és especial, ordens que me deram! Anda!- E levou-me a mim e ao Rodriguez. Nunca tinha entrado naquele barco e era realmente espantoso. Como é que se consegue transformar um barco numa casa de espetaculos...O anão levava-nos para sitios escondidos daquele barco. Desciamos escadas, agora. Fomos para o porão. Só pensava "ao menos tenho o Rodriguez!", mas depois as minhas esperanças de que ele me protegesse cairam por terra quando o mesmo, o azelha do meu marido, meteu o pé numa tábua e ficou por lá a tentar tira-lo. Não tinha Rodriguez e estava no porão do barco com o anão e com...
- Tantas pessoas...Odette!
- Oh! Olá, Morgana, ainda bem que vieste!- disse ela, correndo para mim e agarrando-me nas mãos- Heis o meu plano. Vou entrar no espetáculo e tenho a ajuda de todo o elenco!
- E a horrorosa gorda e verde?
- Está tudo controlado, a Edith cuida dela.
- Aquela songamonga?
- Sim, está descansada...- De facto, estava todo o elenco lá menos a Jaqueline e- O Alan?
- O Alan não sabe de nada- disse-me ela- Nem eu queria, quero-o surpreender. Afinal, ele já se sente atraído pela velha cigana Guadalupe! Coitado, deve se estar a sentir estranho...Tantos feitiços que levou.- Realmente, um moço daquela idade, vivo, bem feito, com um futuro promissor na música, estar caído de amores por uma velha cigana é no minimo bizarro. A cabeça do moço deveria estar mesmo mal. Mas, felizmente, hoje o pano ia cair precisamente quando caísse o pano do final da peça. Tive lugar na primeira fila. Perguntei ao anão pelo Rodriguez e ele disse-me que lhe tinha emprestado um martelo e umas chaves para ele se desenvenselhar da tábua rachada que lhe prendia o pé. Não me preocupei. O Rodriguez nunca foi de espetáculos, sempre foi mais ligado ao bricolage. Estava eu sentada na primeira plateia, com os nervos em franja, a pensar o que estaria naquele momento a Jaqueline a fazer, quando se houve as pancadinhas de inicio de acto. A sala estava à pinha, nunca tinha visto tanta gente na vida! Nem no casamento da minha prima Cecilia! Havia pessoas sentadas no chão, entre duas cadeiras, em pé, eu sei lá! Só sei que toda a vila estava lá, exceptuando a songamonga e a horrivel, desculpem, a Edith e a Jaqueline. Começei-me a preocupar. A sala estava cheia, as pessoas estavam todas umas por cima das outras, mas eu tinha uma cadeira vaga ao meu lado. De repente começou o espetáculo e deixei-me de coisas. Rendi-me totalmente àqueles fatos, àquelas cores, à música. O Alan estava magnifico ao piano, ainda mais bonito, ainda mais sedutor, a tocar ainda melhor. Um teatrito engraçado, seguido de uma dança. Os bailarinos poem-se em posição, a múscia cresce, as luzes focam um sitio, a música continua a crescer, é o sinal! É o sinal e...Odette!! Sim, era a Odette, claramente, mas de mascara...Esperta. E a Jaqueline, que era feito dela? O Alan, tão nervoso, não deu por nada, continuou muito compenetrado a tocar e a tocar. A voz da Odette ecoava pela sala, e que bem cantava a rapariga, e o Alan nem dava conta.Olhei para o camarote principal e lá estava a dona do barco, a ver, muito séria, sem interromper. Teria alguma na manga? Se eu fosse ela parava ali aquela baixaria e acabava com aquilo! Mas ela é, sem dúvida, uma mulher de classe. Eu sou uma cigana que casou com um homem que está a tentar tirar uma tábua de um pé. A Odette saiu de cena, entrou de cena, saiu, entrou e nem sinais da Jaqueline. A meio do espetáculo sou surpreendida pela songamonga, que se senta ao meu lado toda transpirada, desgadelhada e cansada.
- Já começou há muito tempo?- perguntou, exausta.
- Há um bocadinho, sim...Onde anda a horrivel?
- Depois falamos, depois falamos, deixe-me ver o meu Marcelli! UUUUhh!! Vai Marcelle!- gritou ela, simplesmente desprezando-me. A ver vamos. O espataculo continuou. Chegou uma parte, a qual gostei muito, em que se cantava uma música mais calma. Era a Odette que cantava. Estava sentada num passeio, simulava-se um ambiente de cidade, o piano deu as primeiras notas, uma música linda começou a tocar, e a Odette, simplesmente, começou a cantar. Senti uma coisa na pele, na espinha, na alma! Aquela rapariga é feita para aquilo! Foi aqui que o gelo se quebrou...O Alan descomprimiu, todos nós o fizemos, mas ele principalmente, tal eram os nervos. Apercebeu-se da voz de Odette, que, ainda de máscara, cantava. A peça era uma sátira, meio cómica meio atrevida, que falava de uma rapariga que não era compreendida pela sociedade, que não era ela própria, que se sentia outra pessoa, ou, melhor, que tinha de ser outra pessoa para agradar a todos. A máscara calhava muito bem. Ao se aperceber da voz dela, o pianista parou simplesmente de tocar. Olhou para o palco e olharam-se os dois. Fiquei sem pinga de sangue, mas ele teve o bom senso de continuar o espetaculo. Não consigo imaginar o que lhe passava pela cabeça naquele momento. Estava a ser mesmo muito bom, aquele espetaculo então o final...caiu que nem ginjas! No final a rapariga finalmente ia-se revelar à sociedade. Havia outros actores que representavam os sentimentos, algo simbólico e...atrevido. As raparigas não sabiam o que eram saias e os rapazes, bom...enfim! Mas havia, então, a bondade, "vestida de branco"a traíção "vestida de amarelo", a alegria "vestida de rosa", a esperança "vestida de verde" a tristeza "vestida de cinzento"e...a ira HORRIVELMENTE "vestida" de vermelho...
- Xaram!- disse ele, saindo triunfalmente da tenda- que tal?
- Cheiras mal!
- Morgana...bolas, uma pessoa tenta te agradar e depois és assim...
- Cheiras a gato morto, que queres que te faça? E esse casaco, onde é que o roubas-te?
- Era do paizinho...
- Logo vi...- Com esta lengalenga toda nem dei pela chegada da minha querida "Guadalupe"- Vais ao espectáculo? Mas...assim vestida? Não deverias ir fazer a vez da Jaqueline? Mau...não tinhamos concordado que o Rodriguez a ia raptar?
- Eu ia raptar a moça do cabaret?
- Cala-te, Rodriguez...Então, Odette? Explica-te lá...
- Bom, na verdade os meus planos são outros. Estive a falar com a Edith e temos um plano em mente.
- Contaste-lhe que...
- Sim, que a Charlote é mais do que a dona do bar. Ela é, ou foi, a pessoa que fez com que os meus pais se separassem...
- Ela era a outra??
- Cala-te, Rodriguez!- dissemos as duas em coro.
- Então e agora?- perguntei.
- Está tudo sob controlo. Já conheço a Jaqueline, ela vai impedir que a Edith vá ao espectáculo...so que a Edith vai...eu vou como eu e não como cigana mas não deixo de ser a Guadalupe mas no fundo não sou!
- Doi-me a cabeça...que confuso...
- Rodriguez...cala-te- disse eu. Na verdade não estava a perceber grande coisa também, mas não havia de ser nada. Decidi esperar, para ver o que ia sair dali. Fomos para o barco em separado, não dar nas vistas. No entanto, a coisa, no caminho, não correu lá muito bem...
- Então? Estás bem?
- Ai...estou com uma indigestão...Que peixe comemos ao almoço?
- Hum, ah, hum...um do lago da vila.
- O quê?? Queres me matar, Rodriguez? É isso que queres?
- Não, amor! Estava com preguiça em ir à praia...Os peixinhos eram tão gordinhos...Mas não estava bom?
- Estava, estava tão bom que agora...- Senti algo subir por mim e preparar-se para sair para fora de mim. Felizmente o peixe não me saiu pela boa. Parámos um bom bocado para eu me acalmar e depois gritei para o Rodriguez me levar ao colo. Assim foi. Quando chegámos ao barco depara-mo-nos com muita, muita gente. Temi não cabermos todos dentro do barco mas um anão tranquilizou-me logo em seguida.
- Há ispáço pá todi genti! Vamos lá acalmar! Nem que uns vejam sentados nos candeeiro di tecto!- e começou-se a rir. Era medonho. Pus-me na fila para comprar o bilhete, mas o anão não deixou. Puxou-me pela saia e disse:
- Oh dona, tu podes entrar já, furá a fila, tás a ver?
- Porquê?
- Tu és especial, ordens que me deram! Anda!- E levou-me a mim e ao Rodriguez. Nunca tinha entrado naquele barco e era realmente espantoso. Como é que se consegue transformar um barco numa casa de espetaculos...O anão levava-nos para sitios escondidos daquele barco. Desciamos escadas, agora. Fomos para o porão. Só pensava "ao menos tenho o Rodriguez!", mas depois as minhas esperanças de que ele me protegesse cairam por terra quando o mesmo, o azelha do meu marido, meteu o pé numa tábua e ficou por lá a tentar tira-lo. Não tinha Rodriguez e estava no porão do barco com o anão e com...
- Tantas pessoas...Odette!
- Oh! Olá, Morgana, ainda bem que vieste!- disse ela, correndo para mim e agarrando-me nas mãos- Heis o meu plano. Vou entrar no espetáculo e tenho a ajuda de todo o elenco!
- E a horrorosa gorda e verde?
- Está tudo controlado, a Edith cuida dela.
- Aquela songamonga?
- Sim, está descansada...- De facto, estava todo o elenco lá menos a Jaqueline e- O Alan?
- O Alan não sabe de nada- disse-me ela- Nem eu queria, quero-o surpreender. Afinal, ele já se sente atraído pela velha cigana Guadalupe! Coitado, deve se estar a sentir estranho...Tantos feitiços que levou.- Realmente, um moço daquela idade, vivo, bem feito, com um futuro promissor na música, estar caído de amores por uma velha cigana é no minimo bizarro. A cabeça do moço deveria estar mesmo mal. Mas, felizmente, hoje o pano ia cair precisamente quando caísse o pano do final da peça. Tive lugar na primeira fila. Perguntei ao anão pelo Rodriguez e ele disse-me que lhe tinha emprestado um martelo e umas chaves para ele se desenvenselhar da tábua rachada que lhe prendia o pé. Não me preocupei. O Rodriguez nunca foi de espetáculos, sempre foi mais ligado ao bricolage. Estava eu sentada na primeira plateia, com os nervos em franja, a pensar o que estaria naquele momento a Jaqueline a fazer, quando se houve as pancadinhas de inicio de acto. A sala estava à pinha, nunca tinha visto tanta gente na vida! Nem no casamento da minha prima Cecilia! Havia pessoas sentadas no chão, entre duas cadeiras, em pé, eu sei lá! Só sei que toda a vila estava lá, exceptuando a songamonga e a horrivel, desculpem, a Edith e a Jaqueline. Começei-me a preocupar. A sala estava cheia, as pessoas estavam todas umas por cima das outras, mas eu tinha uma cadeira vaga ao meu lado. De repente começou o espetáculo e deixei-me de coisas. Rendi-me totalmente àqueles fatos, àquelas cores, à música. O Alan estava magnifico ao piano, ainda mais bonito, ainda mais sedutor, a tocar ainda melhor. Um teatrito engraçado, seguido de uma dança. Os bailarinos poem-se em posição, a múscia cresce, as luzes focam um sitio, a música continua a crescer, é o sinal! É o sinal e...Odette!! Sim, era a Odette, claramente, mas de mascara...Esperta. E a Jaqueline, que era feito dela? O Alan, tão nervoso, não deu por nada, continuou muito compenetrado a tocar e a tocar. A voz da Odette ecoava pela sala, e que bem cantava a rapariga, e o Alan nem dava conta.Olhei para o camarote principal e lá estava a dona do barco, a ver, muito séria, sem interromper. Teria alguma na manga? Se eu fosse ela parava ali aquela baixaria e acabava com aquilo! Mas ela é, sem dúvida, uma mulher de classe. Eu sou uma cigana que casou com um homem que está a tentar tirar uma tábua de um pé. A Odette saiu de cena, entrou de cena, saiu, entrou e nem sinais da Jaqueline. A meio do espetáculo sou surpreendida pela songamonga, que se senta ao meu lado toda transpirada, desgadelhada e cansada.
- Já começou há muito tempo?- perguntou, exausta.
- Há um bocadinho, sim...Onde anda a horrivel?
- Depois falamos, depois falamos, deixe-me ver o meu Marcelli! UUUUhh!! Vai Marcelle!- gritou ela, simplesmente desprezando-me. A ver vamos. O espataculo continuou. Chegou uma parte, a qual gostei muito, em que se cantava uma música mais calma. Era a Odette que cantava. Estava sentada num passeio, simulava-se um ambiente de cidade, o piano deu as primeiras notas, uma música linda começou a tocar, e a Odette, simplesmente, começou a cantar. Senti uma coisa na pele, na espinha, na alma! Aquela rapariga é feita para aquilo! Foi aqui que o gelo se quebrou...O Alan descomprimiu, todos nós o fizemos, mas ele principalmente, tal eram os nervos. Apercebeu-se da voz de Odette, que, ainda de máscara, cantava. A peça era uma sátira, meio cómica meio atrevida, que falava de uma rapariga que não era compreendida pela sociedade, que não era ela própria, que se sentia outra pessoa, ou, melhor, que tinha de ser outra pessoa para agradar a todos. A máscara calhava muito bem. Ao se aperceber da voz dela, o pianista parou simplesmente de tocar. Olhou para o palco e olharam-se os dois. Fiquei sem pinga de sangue, mas ele teve o bom senso de continuar o espetaculo. Não consigo imaginar o que lhe passava pela cabeça naquele momento. Estava a ser mesmo muito bom, aquele espetaculo então o final...caiu que nem ginjas! No final a rapariga finalmente ia-se revelar à sociedade. Havia outros actores que representavam os sentimentos, algo simbólico e...atrevido. As raparigas não sabiam o que eram saias e os rapazes, bom...enfim! Mas havia, então, a bondade, "vestida de branco"a traíção "vestida de amarelo", a alegria "vestida de rosa", a esperança "vestida de verde" a tristeza "vestida de cinzento"e...a ira HORRIVELMENTE "vestida" de vermelho...
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