Isto de dias de estreia mexem-me com os nervos, a incerteza, os atrasos, os imprevistos ... à conta de tantos anos na profissão já ganhei uma madeixa de horrendos cabelos brancos que escondo a todo o custo. Ai se ao menos tivesse um homem do meu lado, um homem forte e determinado que me fizesse esquecer todos os problemas. Talvez no próximo porto, talvez o último que eu já não aguento esta vida. A primeira parte passou a correr, estava demasiado nervosa com a voz da Jaqueline para me preocupar com tudo o resto. Os ensaios foram um desastre e quase tive para cancelar tudo na véspera. Mas o estranho foi que no dia da estreia cantou como nunca a ouvi cantar, mais, como nunca ouvi ninguém cantar. Fiquei francamente aliviada e deixei-me levar pelos aplausos que ecoavam da plateia lá em baixo. Ohh que saudades que tenho de actuar! Todos os olhos postos em mim ... e o meu amor a aplaudir de pé. Tempos que já lá vão e nunca mais voltam.Com a peça na recta final, resolvi deixar o camarote e assistir lá em baixo junto do restante público. Todos os actores estavam alinhados atrás e apenas a Jacqueline, no centro, estava iluminada. Ela prepara-se para tirar a máscara quando ... a ira se atira a ela!! Completamente em pânico fiz um gesto para que o Pacheco baixa-se as cortinas e lancei-me para o palco.
- Meus senhores espero que tenham gostado deste bonito espectáculo preparado com muita dedicação e ...
- Mas ó mulhéri a peça não acabou! - grita um balofo.
- Sim nós não sabemos o que aconteceu à bo ... à senhorita! Paguei um balúrdio para aqui estar, exijo saber o que aconteceu! - grita um enfezado.
- Claro, claro e vão saber depois deste curto intervalo. Podem dirigir-se ao porão onde se encontram bebidas e aperitivos para ...
- Tem leitão? - novamente o balofo manifesta-se.
- Não mas tem ...
- ... peixinho frito com espinafres e um fiozinho de azeite?
- Claro porque não.
Os homens são todos iguais, a sua vida é uma sucessão de comida, bebida e mulheres, caso uma destas necessidades esteja satisfeita não se recusa a nada nem protesta. Claro que não tinha nada disto previsto, o Pacheco e o Florentino foram recambiados para a cozinha onde desenrascaram uns petiscos regados com grandes quantidades de alcóol. Ai a despesa! espero bem que compense!
Fui ter com as duas desgraçadas que continuavam pegadas que nem duas cadelas com cio a lurtar pela "atenção" do macho. Se a Jacqueline fez alguma coisa eu juro que a mato! Já não posso com as fitas dela ...
- Ora bem o que se passa aqui? Tu "ira" larga a Jacqueline.
- Mas você não vê que sou eu sua velha jarreta? Eu sou a "ira"!
- Mas se tu ... quem ... tira a máscara imediatamente!
Era a Odette, quem mais poderia ser. Esta história entre as duas passou dos limites e a minha teoria das cadelas foi comprovada. O pobre do Alan está no meio de duas loucas que só o vêem como um prémio. Insultaram-se e esbofetearam-se mais umas vezes até que a Odette pôs um fim no assunto.
- Isto é ridiculo! Eu não nasci para isto, não sou uma selvagem como esta ... eu, eu só quero resolver as coisas. Não vim aqui para estragar o espectáculo de ninguém. Está bem só para a Jacqueline.
- Mas como é que tu ...? - perguntei incrédula.
- É simples, a Jacqueline é a pessoa mais fácil de manipular, basta dizer que é bom para emagrecer que ela toma tudo o que lhe dermos sem hesitar. Quando adormeceu troquei as nossas roupas e ocupei o lugar que sempre foi meu. O público concorda.
- Eu só quero que se comportem, acabem a merda do espectáculo e em seguida vão todos para a rua, para a RUA!
Saí furiosa e quase que caí do palco, se tivesse ficado lá mais um minuto que fosse explodia. Fui para o quarto bati com a porta e fiquei à espera que aquela palhaçada acabásse. Nem quero saber como acaba, só desejo que termine de vez. Depois de ter tomado um ou dois calmantes ouvi baterem à porta.
- PACHECO VAI EMBORA! NÃO QUERO SABER DE NADA!
- Senhora desculpe eu ...
Não reconheci a voz e por isso revolvi abrir.
- Quem é você? O que tem no pé?
- Ah sou o Rodriguez senhora!
- Você é ...
- ... um homem sim! Nunca viu nenhum é? Por acaso a minha mãe sempre me disse " Rodriguez as mulheres nunca saberão o que é um verdadeiro homem até experimentarem ..."
- Não homem esqueça, não quero cá gente da sua laia. Dou-lhe a oportunidade de sair daqui sem problemas, por isso xô!
- Eu estava alí sossegado com o pé na tábua, é verdade fez buraco é melhor ir tratar daquilo, quando vi a senhora a correr e a bater com a porta. Nunca gostei de ver mulher triste, eu posso ajudar?
- Talvez. Não deves ter visto nada do que se passou, o teu lugar não era o melhor, mas ... revoltaram-se contra mim!
- Quem?
- Os actores! Dizem que não lhes pago e que vão roubar-me tudo o que tenho. Eu sou uma pobre mulher que anda a juntar dinheiro para puder comprar uma casinha à beira mar ... não faço mal a ninguém!
- E como posso ajudá-la madame?
- Mademoiselle para si. Você é um homem bonito e charmoso, tem uns belos ... ah belos cotovelos e ... gosto de si acho que devíamos ser sócios. Fugíamos deste antro de traidores e oportunistas.
- Um problema. Sou casado.
- Mas ... oh mas eu estou tão frágil ... e carente!
- É melhor ver com a esposa, ela pode pensar que a estou a trair e , ela não percebe toda esta história de mulheres e ...
- Pago-lhe o que for preciso se me ajudar a ver-me livre desta gente e fugir para Marselha. Que me diz?
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