
Uff! Já me sinto bem melhor! O cházinho da minha querida mãe sempre fez milagres. Mon Dieu são seis horas da tarde! O espectáculo aproxima-se e eu queria tanto ouvir o meu Alan tocar outra vez. Deus me perdoe, mas eu preciso de ir assistir àquele espectáculo devasso para proteger o meu filhinho, seria o que o meu querido maridinho desejaria. Ao menos vou com a Edith, sempre me faz companhia. A mulher está uma nervoseira desde que o Marcelle aqui esteve e lhe entregou o bilhete. Ai aquela rapariga ainda vai ter outra desilusão, sempre ouvi dizer que ele faz as vontades todas à dita Jacqueline e essa não vai gostar de saber que foi trocada por outra. É daquelas mulherzinhas detestáveis que querem tudo para elas e não admitem ser vencidas. E o meu Alan que ganhe juízo porque não a quero cá em casa, prefiro que vá para padre e morrer sem ter netinhos do que o meu bébé se case com uma daquelas pêgas, Deus me ajude. Sim porque não me esqueci da Odette! Comenta-se na vila que ela deve estar a preparar alguma para se vingar da Charlotte e da Jacqueline. E sendo hoje o dia de estreia não me admira nada que apareça e faça um escândalo.
- Edith não achas que já chega de pó de arroz mulher? Vamos embora que já estamos atrasadas!
- Mas falta uma hora e meia Marie. Eu tenho de me por linda para o meu Marcelle. Tenho a certeza que vai pedir para fugirmos hoje mesmo ... ah que romântico!
- Não te ponhas com ilusões, vê lá se ainda a coisa dá para o torto! Já tens idade para ter juízo, se ainda não te casas-te até agora se calhar é melhor ires para um ...
- Não diga essa palavra! É desta, eu sei que é!
- Se ainda vais demorar com os teus embelezamentos eu vou lá para baixo ouvir um pouco de rádio. Despacha-te!
Desci as escadas devagarinho, ainda estava um pouco zonza e não quis arriscar dar outra queda que seria o meu fim. Liguei o rádiozinho e fiquei a ouvir a minha novela preferida. Senti-me a adormecer, os olhos pesavam e não resisti. Tentei lutar contra o sono mas um sonho agradável deixou-me fez-me render. Estava de novo em Paris, naquele Verão inesquecível em que conheci o meu marido. Eu era jovem e bonita, tinha os homens todos babados por mim mas eu não conseguia tirar os olhos dele. Oh como era lindo, alto moreno, de olhos cor de avelã, o meu Alan é tão parecido com ele. E o bigodinho! Aquele bigodinho que me arranhava e que eu ...
- Dona Marie acorde rápido!
- Quê? Han ... mas que foi? Jacqueline que fazes aqui?
- Fale baixo que eu sei que aquela sua amiguinha insuportável está aí! Preciso de falar consigo.
- Mas ... tu não penses que brincas comigo! Tinhamos um acordo e tu andas-te a brincar com a vida do meu filho ... não penses que vou na tua conversa outra vez ...
- Sim, sim blá, blá ... quer me ouvir ou não? Acho que vai querer saber.
- Rápido.
Contou-me tudo sobre a Edith. A falsa estava a fazer-se passar por cigana e a fazer misturas contra o meu Alan! Eu sei que devia desconfiar do que a Jacqueline me diz, tem de certeza alguma na manga, mas ainda ontem reparei que ela trazia uma maquilhagem estranha na cara e uma peruca num saco. Está explicado.
- Diz-me uma coisa Jacqui, porque é que me vieste contar isto?
- Não lhe vou mentir, desconfio que a Odette deve aparecer esta noite e tente fazer alguma coisa ao Alan. Ele está muito sensível devido às porcarias que a Edith lhe andou a receitar.
- E que ganhas tu com isso? Não esperas que te apoie em conquistar o meu filho!
- Claro que não! Mas eu podia dar-lhe uma informação acerca ... da outra.
- Qual outra?
- A outra mulher do seu marido. Aquela que fez com que ele se ...
- Como é que sabes dessa história?
- Sei e pronto ... ela está cá. Posso dizer-lhe que é se ...
- Se ...
- Fizer com que a Edith não sai daqui a noite toda.
- Vou ver o que posso fazer.
- Merci. Ah só mais uma coisinha! Preciso que me alargue este vestido, estou um pouco inchada.
- Trato disso amanhã.
- HOJE! A peça é daqui a uma hora.
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