Eu sabia que não podia confiar naquela criaturinha! Cá estou eu trancada na minha própria casa, no quartinho que partilhei com o meu querido Pierre. De todos os meus amantes foi o único que me fez pensar em abandonar a minha vida de pecado. Mas as coisas simplesmente não correram como se esperava. Envolvi-me com homens demasiado poderosos que não aceitam ser trocados por um simples talhante. Esses fazem-me lembrar tanto a Jacqueline, não sei como pude albergar aquela rapariga e pensar que era parecida comigo. Ao contrário dela eu tenho limites, sei quando fui longe de mais e quando é altura de me afastar. Fui eu que deixei o Pierre quando descobri que ele tinha deixado a família. Quando a mulher morreu e os pequenos ficaram sem ninguém, decidi que não precisava de nenhum homem ao meu lado. Arrependi-me de ter aceite o seu dinheiro e senti-me terrivelmente culpada por ter comprado o "Charlotte" em vez de ter enviado o dinheiro aos miúdos. Sei que estão a pensar que não passo de uma oportunista de coração mole e demasiado sensivel. Já fui assim, agora sou uma oportunista de coração de pedra que está a tentar fazer algo com a sua vida, voltar ao que era, uma rapariga simples e honesta. Claro que já vou tarde e os meus 45 anos já não dão muita margem de manobra. Por isso larguei o barco e decidi começar uma nova vida. O problema é que estou encurralada e aquela louca começa seriamente a assustar-me!Devem ter passado horas desde que me fechou no quarto. Não sei o que fez com o cigano, mas daquele faz o que quer o pobre homem é tão ingénuo. Eu fui uma idiota! Eu sabia que a Jacqueline conhecia a minha história em Marselha e que ía cá chegar a qualquer momento, só não esperava que chegasse antes de mim.
Andei às voltas no quarto, bati na porta e gritei para que ela me liberta-se, pedi socorro mas o quarto era interior era impossível que alguém me ouvisse. A casa fica numa zona relativamente calma e sem vizinhos próximos. Tentei ouvir o que se passava no andar de baixo e foi aí que ouvi vozes. Era a voz do Alan e da Odette também! A Jacqueline devia estar á espera que viessem pois não ouvi qualquer grito ou confusão. Depois deixei de ouvir. Ou saíram ou ... espero que não tenha acontecido nada!
Tentei acalmar-me, sentei-me na cama e comecei a pensar numa forma de sair do quarto. Foi aí que me lembrei da chave que eu guardava na mesa de cabeceira por uma questão de segurança. E ali estava ela! Coberta de pó e ... com uma cartinha por baixo que dizia "pour Charlotte". A carta estava amarelada mas a tinta a letra era legível e percebi de imediato que era a do Pierre.
"Querida Charlotte
Eu sei que te devia ter contado acerca da Brigitte e dos meus filhos mas não tive coragem. Sabia que não estavas interessada em meter-te nesse tipo de confusões. a culpa é minha e não te censuro por não me queres ver mais, só queria que soubesses que me arrependo. Talvez pudesse ter feito as coisas de outra maneira, mas não passo de um talhante rude, selvagem e sensual que só percebe de tripas e moelas. De mulheres nadinha. De qualquer maneira os tempos que estivémos juntos foram os melhores da minha vida. Amo-te hoje e sempre.
Pierre
P.S.- Se passares por um dos meus talhos não te acanhes, faço-te 15% de desconto."
Oh que saudades daquelas piadas secas, aquele sentido de humor disparatado e de província. Talvez por isso fiquei com tanto medo de ficar em Fleury e encontrar outro como ele que me fosse fazer perder o juízo. Mas ainda há tempo de emendar os meus erros do passado. Com o dinheiro que guardei puderei finalmente compensar os seus filhos. Por isso voltei a Marselha onde estão todos os objectos pessoais de Pierre, cartas, fotografias, as licenças dos talhos. Oh Mon Dieu que distraída! Tenho de sair daqui rapidamente! Eu e os meus pensamentos ...
Corri para a porta e dei a volta à maçaneta devagarinho para não fazer barulho. Pé ante pé percorri o corredor longo e escuro até às escadas que dão acesso ao andar de baixo. O silêncio estava a deixar-me nervosa, o encontro entre aquela gente não deveria ser assim tão pacífico. Quando desci olhei em volta e apercebi-me que não estava ali ninguém, estava tudo arrumado e não havia sinal de vasos partidos, que é sempre um índicio de que a Jacqueline teve um ataque de histeria. Que estranho! Talvez estejam no jardim e ...
- AHHH!
- Desculpe senhora Charlotte não a queria assustar!
- M-mas q-que fazes aí homem? Que te fizeram eles Rodriguez?
- Nada senhora Charlotte! Eu é que ouvi a voz da minha Morgana e corri ao seu encontro, mas já não a encontrei.
- E ...
- Ah claro! E os chãos de madeira em França são realmente frágeis pois é a segunda vez nesta semana que fiquei com o pé preso entre as tábuas.
- Anda lá que eu te ajudo. Não sabes para onde foram?
- Eu ouvi a Dona Jacqueline dizer qualquer coisa sobre carne e tripas, umas metáforas ... iam para um sítio repleto de sangue ... um talho!
- O "Faz das tripas coração"?
- Não. Chama-se "Chichinha".
Corremos os dois o mais rápido que conseguimos. O pobre cigano veio com a tábua atrás porque não a conseguíamos tirar e o assunto era urgente. Passámos pelo "Faz das tripas coração" e eu olhei lá para dentro não tivesse o Rodriguez ouvido mal, mas esse já nem existia, era agora uma florista. Pensei reconhecê-la e quese parei para lhe ver o rosto melhor mas o Rodriguez gritou e puxou-me pelo braço.
- Tá ali o negrinho senhora Charlotte! O seu negrinho!
- Pacheco graças a Deus! O que se passa? Onde está a Jacqueline?
- Dona isto tá tudo mal! A louca levou toda a gente para o talho e começou a contar uma história esquesita acerca de si. Começou a dizer que a Odette era sua filha!
- O quê??
- Não quero parecer ignorante dona mas como pode você ter uma filha e não dar por isso?
- Oh o meu segredo revelado. Como foi ela saber? rápido temos de os encontrar!
Quando chegámos ao talho a porta estava trancada e os vidros tapados. Ela deve ter aproveitado que a loja estava vazia pois deviam ser umas 7 horas e ainda estava escuro. Devemos voltas à casa mas não havia forma de entrar. Foi aí que se aproximou um individuo que pela roupa deduzi que trabalhava no talho.
- Bonjour! Vejo que estão com pressa de comprar chichinha no "Chichinha". Vai ser o quê? Uma vaquinha? Porquinho? Franguinho? Digam lá ao homem do talhinho! Atendo-vos logo que encontre as chaves, malditas chaves!
- O senhor trabalha aqui? - pergunta o negrinho.
- Trabalho pois! Não sou um simples talhante sou o herdeiro da cadeia de talhos "Chichinha", criada pelo meu paizinho que Deus o guarde.
Senti o meu coração gelar. Ao ver um homenzarrão daqueles é que me apercebi dos anos que se tinham passado, tanto tempo. Como não pude perceber logo? Ele é a cara do Pierre! e o corpo também ...
- A senhora está bem? Está a olhar fixamente para mim. Olhe que sou comprometido! A minha Juliette tem pêlo na venta, literalmente. Tome cuidado!
Até a forma como se vangloriava era típica do Pierre, que de modesto não tinha nada. Queria saber o seu nome mas não tive coragem de perguntar.
- Ora mas vamos lá a abrir a portinha e a servir a clientela, já o meu bom pai dizia "Clientela à porta chichinha rende, clientela na cama, chichinha apodrece!". Mas porque é que a porta não abre? E as janelas? Algo se passa ... vocês têm alguma coisa a ver com isto?
- Não propriamente deixe-me explicar.
Contei-lhe o essencial, não quis entrar em pormenores como "sou a mulher que fez com que o teu pai deixa-se a tua mãe" ou "a cadeia de talhos é minha por direito pois ele deixou-ma no testamento que trago sempre comigo". Ele ficou visivelmente nervoso e começou a andar de um lado para o outro desorientado.
- Mas eu não posso ter uma louca ali fechada com tanta faca e instrumentos fatais! Ainda acontece uma tragédia.
Eu não estava assim tão apreenciva, a Jacqueline não era capaz de os magoar, ela gosta mais de tortura psicológica. Para além das ameaças só é capaz de uma simples e ridícula luta de "puxa cabelos". Foi aí que o Rodriguez interviu, tirou a tábua do pé e partiu o vidro de uma janela.
- Mon Dieu! Sabe quanto custa arranjar isso seu vândalo?
- Cale-se homem!
- Sim, sim desculpe já cá não está o homem do talhinho que falou.
- Schiuuuu! Falem baixo! Eles podem ouvir.
- Com todo o respeito dona Charlotte, mas se ainda não nos ouviram com o barulho que esse cigano fez ...
- Oh Pacheco foi uma coisinha de nada tenho a certeza que ...
- Dona ...
- ... aliás ele até foi cuidadoso ...
- Mulherzinha o homem do talhinho não a quer alarmar mas ...
- DONA ESTÁ UMA DOIDA ATRÁS DE SI E TEM UMA FACA DE CAPAZ DE CORTAR UMA VACA ÀS RODELAS!
- Por acaso é uma faca para ...
- Cale-se homem!
- Oh senhor cigano eu é que sou o homem do talhinho e eu é que percebo de ... POFF!
Ao menos o cigano calou o rapaz com a sua já famosa tábua, mas isso não adiantou grande coisa quando deparada com uma Jacqueline enraivecida com uma faca na mão coberta de sangue.
- O QUE FOSTE TU FAZER?
- Eu? Dei uma lição aos vossos amiguinhos. Os pobrezinho estão gelados ...
- Sua cabra eu vou mostrar-te como se faz aos assassinos nas África! A gente põe num espeto e faz sanduiche!
- Ei, ei calma Pacheco! Eu não fiz nada de mal. Estão na arca frigorífica a refrescar as ideias, mas vocês demoraram tanto a aparecer que não sei se ... ops! Se calhar é melhor irem ver como estão! Lembrei-me que a temperatura está no mínimo.
- E o sangue?
- Ah isso não foi nada de mais. Este lugar está um nojo e escorreguei quando estava a fechar a porta!
- AH ah aha ha ha! Aleijou?
- Pacheco penso que não é o momento para ... Jacqueline os teus problemas são comigo e não com eles! Deixa-os sair e prometo que resolvemos as coisas, a falar como duas pessoas civilizadas.
- Oh Charlotte querida! O tempo para conversas já lá vai. Ah e já agora a tua filhinha é capaz de estar com frio, é melhor ires lá agasalhá-la. Ahahahaha!
Ela levou-nos até lá. Ela aumentou a temperatura mas recusou-se a deixá-los sair até concordármos em cumprir todas as suas exigências. Foi através do vidro que pude olhar pela primeira vez para a Odette sabendo que era a minha filha. Vi nos seus olhos que estava confusa e magoada, ao menos tinha o Alan ao pé dela. Senti algo assim que a conheci, aquela sensação familiar de que já a tinha visto antes. A verdade é que tentei esquecer este assunto. A verdade é que ela não é filha do Pierre, eu já estava grávida quando o conheci. Ele nunca soube que não era o pai, nem lhe quis contar com medo que rejeitá-se a bébé. Eu também não posso dizer que queria uma criança naquela altura da minha vida. Quando ela nasceu ele sugeriu que a déssemos para adopção, pois sentiu que seria melhor do que a criança crescer a sentir que a mãe não sentia por ela o que devia sentir. Só a uma semana descobri que a levou para a casa da mulher, que a aceitou como uma filha apesar de saber que se tratava da filha do seu marido com a amante. era uma boa mulher, gostava de lhe ter agradecido o gesto. Mas era tudo mentira, só me serve de consolo o facto de o Pierre ter amado a criança. Talvez se lhe tivesse contado a verdade teria cuidado da Odette à mesma. Nunca quis saber o seu nome, nem onde estava, mas á dias recebi uma carta anónima a contar tudo sobre ela. Agora sei quem me mandou a carta.
- Agora reencontraram-se, mãe e filha. Deviam-me agradecer! Senão fosse eu continuavam na ignorância.
- E o que queres diz logo? - tentei parecer o mais calma posível, mas só me apetecia agarrar-me ao pescoço daquela víbora.
- Calma que a história ainda não acabou! Alan meu querido não me esqueci de ti. Sabes que a tua mãezinha também teve alguns dissabores. O teu paizinho também deu umas cambalhotas aqui com a senhora Charlotte. E não me digas que nunca desconfias-te o facto de seres tão diferente da tua irmã Emmanuelle?
- O quê?? - pergunta o rapaz estupefacto.
- Sim vocês são irmãos! Não acham isso repgunante? Só espero que não tenham passado à secunda fase ... aí seria realmente nojento! A tua mãe lá sabe porque não gosta de estrangeiras, más esperiências sabes como é.
- Oh minha grande ... (controla-te Charlottte ela tem uma faca) ... querida, eu só tive uma filha, uma! A Odette, que nunca deveria ter abandonado e é a única coisa que me arrependo na vida!
- E além disso minha impostorazinha! não tens o direito de andar para aí a por bébés em outro úteros, como quem diz palavras na boca de outras pessoas!
- Anne Marie?? Que faz aqui?
- Assim que soube o que se passava apanhei o primeiro combóio para Marselha! E digo mais 15 horas de trabalho de parto não são brincadeira! Garanto-vos que o Alan saiu das minhas entranhas!
- Então eles não são irmãos? Isto parece uma novela dona!
- Mas vais acabar! - e ao dizer isto o Rodriguez pega na sua santa tábua e faz a Jacqueline voar até ao armazém onde estão as carnes penduradas.
Libertámos os "prisioneiros" e a cena foi comovente. Pais e filhos, amantes reúnidos e o Pacheco tentou reanimar o homem do talhinho que era afinal irmão da minha Odette por isso: pais e filhos, amantes e irmão e irmã finalmente juntos. Quando a minha Odette se chegou ao pé de mim senti o coração acelerar.
- Então é mesmo verdade?
- É verdade. Só tenho pena de não te ter procurado antes, de não me ter interessado por ti.
- É muita coisa ao mesmo tempo, acho que vou ter de me habituar à ideia.
Podem achar que foi frio, não houve qualquer contacto entre nós, nenhum beijo ou abraço. Mas soube que ela me ía perdoar mais cedo ou mais tarde. Saímos do talho como se tivéssemos renascido, o "Chichinha" seria sempre um local especial para todos nós.
Eu resolvi ficar em Marselha. Recuperei a velha casa e abri uma boutique com roupas vindas de Paris, para ter uma desculpa para lá ir voltanto de vez em quando. O Rodriguez e a Morgana também ficaram. Tornámo-nos grandes amigos e fui madrinha da pequenina Gigi. A minha Odette casou com o Alan pouco tempo depois. Foi o Rodriguez que os casou aqui em Marselha e o copo de água foi no "Chichina" por insistência do irmão. A Anne Marie e eu tornámo-nos umas boas comadres, escrevemos uma à outra a discutir nomes de netinhos e cuscuvilhices de cá e de lá. Soube que o Pacheco fez as malas e rumou a África onde encontrou o amor e teve um rancho de filhos. Parece que ao contrário do pai deram para crescer bem e o mais velho já chega aos 1,50 cm com apenas 5 anos de idade. O Florentino foi para Paris tentar carreira, mas parece que anda a servir às mesas num hotel de quinta e continua sem sucesso com as mulheres. A Edith e o Marcelle ficaram com o "Charlotte" agora baptizado de "Madame Edith", acrescentaram o "madame" pois só "edith" não chegava para cobrir todas as letras do nome anterior. Oh e a Jacqueline é claro! Parece que o homem do talhinho engraçou com ela. Mas ele não é tão tonto como parece e dizem que fez dela uma esposa submissa que passa os dias a tratar dos 5 filhos e a receber as suas amiguinhas cuscuvilheiras com quem acompanha todos os programas da rádio. Quem diria que ela e a Odette iam acabar cunhadas.
Posso dizer que me sinto verdadeiramente feliz. Tenho o meu espaço e finalmente os pés acentes na terra.
Fim
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