Os ensaios estão ainda a decorrer e já sinto que o sucesso vem aí! Ninguém pode ficar indiferente a este espectáculo. Escrito e dirigido por mim, com a Odette como protagonista e a Jacqui a fazer de vilã, o resto das raparigas fazem as personagens secundários, principalmente coros. A banda está bem composta com o Marcelle e os rapazes da banda e o Alan (suspiro) no piano. É certo que não acabei o guião, vou improvisando ao longo dos ensaios, mas está a ficar perfeito. Depois de muita pressão, a mãezinha do pãozinho lá concordou em fazer os fatos, que obviamente têm de passar pelas mãos do meu quarido Pacheco para uns cortes e adicionar lantejoulas e algumas penas e fitas de seda. A pobre mulher vai ter um ataque quando vir as alterações mas não espera que apareça na estreia. Para seu grande desgosto o seu querido Alan não parece querer deixar o seu piano por um segundo e passa cá grande parte dos dias regressando a casa pela madrugada. Reparei que não tira os olhos de Odette enquanto ó resto do mulherio não os tira dele. Acho que vou ter de o deixar às escuras durante os espectáculos ou as raparigas não tomam atenção ao que estão a fazer. Só a Odette parece estar mais preocupada com o seu papel, as músicas e os textos. Têm trabalhado muito e tirando os ensaios não sai do quarto.- Por hoje é tudo meus amores! Toca a arrumar tudinho. Vou retirar-me para os meus aposentos, se precisarem de alguma coisa falem com o Pacheco.
- Sobra sempre pó Pacheco!
Subi para o meu quarto e fechei a porta. Apesar de ter passado o dia a aturar as birras da Jacqui não tinha uma ponta de sono. Estava demasiado entusiasmada com o espectáculo, com o "Charlotte" ... resolvi revirar umas tralhas da minha velha arca e matar saudades. O meu vestido azul, as perucas que comprei em Milão, as máscaras de Veneza e os perfumes de Paris e as jóias ... as últimas foram presentes, do meu ...
- Dona Charlotte tá acordada?
- Que foi negrinho? Alguém morreu? Não me parece que ... alguém morreu?
Desci as escadas a correr. Basta desparecer 10 minutos para este barco ficar um caos, mas que será que se passou? O raio do Pacheco também não me esclareceu grande coisa, mas é preciso ser rápida ou ... acontece alguma desgraça!
- O que é que se passou aqui?
- F-Foi a Jacqui sinhora ela e a Odette pegaram-se e ... a Jacqui caiu redonda no chão! - diz Florentino mal conseguindo falar.
- Odette? Mas ... vá levem a rapariga ao quarto. Marcelle vai chamar o médico! Alan ajuda o Florentino e ... Odette vem ao meu escritório.
A rapariga parecia algo confusa, eu própria não percebi nem consigo entender o que puderá ter acontecido.
- Podes começar a falar.
- Nós estávamos nos camarins a tirar a maquilhagem e a mudar de roupa, eu e as raparigas quando a Jacqueline aparece com os nervos em franja a gritar e a insultar-me. Ora uma rapariga não se fica e por isso ...
- Desculpa mas aquilo ...
-... uns tabefes naquela cara de vagabunda! Ela sabe muito bem o que diz e as coisas que disse!
- Eu sei que ela não é fácil mas tu não tens o direito de fazer o que fizes-te!
- É como quiser. Não sou nenhuma lambe-botas como ela, se quiser pode despedir-me que eu não me importo minimamente.
Eu sabia que aquilo era só conversa, trabalhou demasiado nestas últimas semanas para uma pessoa desinteressada.
- Vou dar-te uma oportunidade. Tenho de falar com ela e averiguar o que se passou.
- Pode lá ir agora. Já deve estar boa de certeza, aliás ela nunca teve nada! Quando viu o Alan do lado dela de repente desmaiou! Que sentido de oportunidade!
Isto já me parecia coisa da Jacqueline. Só não sei o que ela espera ganhar com isto, sabe que é preciso mais que isto para ...
- Então a donzela já acordou? - dei um certo tom de ironia à pergunta que o Alan percebeu.
- Não me parece que esteja tão bem como vocês pensam, você e a outra!
- Calma rapaz, tu não conheces a peça mas eu sim! Vá já chega Jacqui, é tarde e amanhã temos mais que fazer!
- O médico chegou dona!
Esteve com ela duas horas. Comecei a ficar incomodada, seria mesmo verdade? Mas o que poderia a Odette ter feito para a deixar neste estado?
- É grave meus senhores. Esta menina tem ... um traumatismo! Bateu com a cabeça com muita força e está algo desorientada. Pode estar um pouco confusa e de memória fraca, aconselho a não a deixarem sozinha ou pode perder-se. E façam-lhe as vontades, não queiram contrariá-la pois pode agravar a sua condição.
Isto tudo tresanda a esquema da Jacqui. É certo e sabido que deixá-la sozinha com um homem é meio caminho para ela levar a dela avante. Não à nenhum a quem ela não consiga dar a volta. Até ao Alan que ficou do lado dela mesmo sabendo que a Odette seria prejudicada.
- Chega por hoje. Vão todos para os vossos quartos, casas seja o que for. Eu fico com ela esta noite.
Entrei no quarto e lá estava ela, em todo o seu esplendor. Deitadinha com as mãos sobre a barriga de olhos fechados e com uma mantinha a tapar-lhe os pés.
- Que excelente actriz!
- Quem é você?
- Pára com isso Jacqui! Sabes que a mim não me enganas. Tu queres que a Odette sai daqui e queres o Alan para ti ... agora diz-me, porque é que te hei-de ajudar?
- Porque sei coisas daquela rapariga que você gostava de saber.
- Bates-te mesmo com a cabeça.
- Não estou a inventar! Acredita ela é uma oportunista.
- E posso saber como descobris-te?
- Só o posso dizer depois de me tornares protagonista do espectáculo, lugar que deveria ter sido sempre meu.
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