Ai Alan, Alan já cá cantas! É certo que tem estado mais distante nestes últimos dias, vai à praia todas as tardes e não regressa ao barco depois disso. Eu sei porque o avistei da janela, decidi não o seguir porque não quero estragar tudo agora que ele está caídinho por mim. Ok, não é muito romântico, mas também nunca gostei dessas lamiches, sempre foi isso que me afastou do Marcelle. E quase me esquecia, a estreia do espectáculo é já amanhã. O Pacheco e o Florentino até já foram espalhar os cartazes por toda a Fleury. Sinto-me preparada para o que der e vier. Sim porque sinto que a mosquinha morta deve aparecer para me estragar o momento! Seria típico dela e de todas as outras sonsas que se atravessaram no meu caminho. Mas eu ganho sempre. Sempre.- Oh Jacqueline a dona Charlotte 'tá chamando por ti à mais de 20 minutos. A dona 'tá perdendo a paciência!
- Já vou, já vou! Velha impaciente ...
Já estavam todos prontos para o ensaio geral, o último e mais importante de todos. Tudo estava a rigor, bailarinas com os seus fatos, a orquestra bem composta, a Charlotte remexendo os papeis com aquele ar de pânico e o Alan lindo sentado ao piano, com os seus olhos brilhantes.
- Cá estou Charlotte querida. Vamos a isso!
- Tens de apreender algo muito importante no mundo do espectaculo, querida, chegar a horas. Não vais longe com essa atitude.
- Oh querida você também não vai longe com a sua, ou preciso lembrar-lhe de certos e determinados ...
- Penso que não é necessário ... querida.
- Oh "queridas" vamos parar com esta conversa que não leva a lado nenhum e começar a trabalhar! - diz Marcelle num tom irónico.
Tudo estava a correr bem. Trata-se de um musical, a história passa-se no século XIX em França, logo a depois da revolução francesa. O vestuário é de época, mas claro com um toque atrevido, de saias curtas e decotes generosos, para além das perucas altas com cachos de caracóis. Grande parte do vestuário foi feito pela minha querida sogrinha, mas desistiu a meio quando viu que apenas 20% do corpo das meninas estaria coberto. Mas passando à frente, eu represento o papel de Rosette uma pobre camponesa que se apaixona por um nobre cavalheiro, Louis interpretado pelo Marcelle. Eu insisti para que ela desse o papel ao Alan mas nem um nem outro concordou. Mas não pensem que é uma lamechice de rapaz conhece rapariga amam-se à distância e acaba tudo morte mas puro e casto, nada disso, há muita e boa marotice ou não fosse isto um cabaret, a cair de podre por fora, mas ainda assim um cabaret. A música da introdução foi completamente reescrita depois da confusão com a, como é o nome dela mesmo? Olívia? O ...
- Odette.
- Odette? Onde?
- Tava a ajudá-la dona. A dona estava a falar alto e ... tá tão linda Jacqui.
- É Jacqueline para ti! E pára de olhar para o meu decote seu negrinho atrevido!
- Mas que grande ca ...
- Já chega Pacheco. - interviu Charlotte - Vai mas é vestir-te Jacqueline, ainda temos muito que fazer.
Depois de 4 horas de ensaios sentia-me confiante. Acabámos relativamente cedo e enquanto todos se atarefavam com os últimos retoques no cenário fui ter com o meu pianista.
- Então o que achas-te?
- Estás linda.
- Oh por favor! Também não estás nada mal sabes? Não queres subir comigo, podíamos rever as minhas músicas e ...
- Oh não estou atrasadíssimo! Prometi à minha mãe que ía chegar a horas de jantar com ela. Desculpe Jacqui ...
Beijei-o com toda a força, ali mesmo à frente de todos. Podem dizer o que quiserem, que fui eu que o beijei e por isso ele não teve escolha, mas o certo é que ele não me afastou. Depois de um boa noite saiu pela porta da frente. Mas eu sei onde é que ele ía e resolvi segui-lo de longe.
Estava tão escuro que quase o perdi de vista por duas vezes. Mas eu sei onde ele vai, só pode ir ter com a velha cigana, só espero que ela não se desmanche e me estrague os planos. Dou cabo da velha! Apressei o passo e ali estava ele à entrada da tenda. A velha fez um gesto para ele entrar e eu esgueirei-me para trás de uma árvore que lá estava e tentei ouvir a conversa.
- Ei!
- AHHHHH!
- Você é aquele senhora do outro dia! A do ...
- Schhhhh ... Seu animal! Ía tendo um ataque de coração.
- Desculpe mademoiselle. Não se lembra de mim? Sou o marido da Morgana, o Rodriguez.
- Mas ela não se chama Guadalupe? E você não é demasiado novo para ...
- Não, não a minha esposa é a Morgana, acho que não a conheceu ainda, ela não está de momento foi à vila, a Guadalupette é a minha ... hmm sogra é isso!
- Guadalupette? Mas não era Guadalupe?
- Oh sim é sim, desculpe a minha cabeça de asno. É e sempre foi Guadalupe desde que nasceu. Mas quer falar com ela? Eu chamo-a, se bem que ela está com aquele rapaz.
- Vamos fazer assim, você vai dar uma voltinha pela praia, e eu fico aqui à espera dele está bem?
- Fique à vontade.
Estúpido, nem precisei de muito para o convencer a sair dali. Agora tenho de me concentrar, preciso de saber o que ele quer da velha. Ouvi qualquer coisa sobre ... Odette!
- Mas o que se passa aqui? Alan que estás tu a fazer com a velha?
- Nada Jacqui! Eu estava apenas a pedir-lhe conselhos. Foste tu que me trouxeste aqui pela primeira vez não te lembras?
- Está bem mas uma vez bastava! Porque é que estão assim tão juntinhos?
- A Guadaluppe disse que precisava de ver os meus olhos e escutar ...
- ... sentir a tua respiração e depois escutar o bater do coração da pessoa amada. Amada por você claro! - de interrompeu a velha prontamente.
- E esse pózinho que tem na mão é o quê?
- Nada, é só caspa! Coisas da velhice, na minha juventude tinha orgulho dos meus longos cabelos ruivos, como os seus, mas agora só resta ... caspa. Quer ver?
- Ah despenso. - afirmei com despreso.
Não posso dizer que fiquei descansada, estas feiticeiras ciganas são poderosas. Tenho quase a certeza que aquele pó iria servir para desfazer o feitiço. Se bem que o Alan estava cada vez mais indiferente aos meus encantos.
- Alan querido temos de ir. Amanhã temos um grande dia, tens de descansar. Vá amor vamos embora.
Depois disso beijei-o ternamente e podia jurar que vi a velha ficar roxa de fúria. Lembrava-me alguém mas quem? Fiz um gesto para que o Alan saísse e fiquei a sós com a Guadaluppe.
- Olhe preciso de um favor seu. Queria pedir-lhe mais daquele chá que me deu no outro dia, o efeito já está a passar.
- Ui mas o efeito poderia ser fatal! Não aconselho a que ...
- Então dê-me algo para mim!
Nesse momento chega uma rapariga, devia ser a tal Morgana. Aproximou-se da velha e deu-lhe um beijo na testa e chamou-a de mãezinha ao que a velha respondeu com um risinho de rapariguinha. Algo de estranho se passa.
- A mademoiselle diz que precisa de agarrar o seu amor. Mas já lhe dei o chá não podemos arriscar abusar na dose.
- Tens razão mamã. Talvez seja melhor receitar-lhe os pózinhos de Afrodite.
- Pózinhos? E o que fazem esses pózinhos?
- Bom basta misturar em água e depois tomá-los antes de dormir. Estará irresistível no dia seguinte.
- Quero tudo o que tiver!
Agradeci e juntei-me ao Alan que tinha estado na conversa com o cigano. Á medida que nos íamos afastando da tenda tive quase a certeza que ouvi as duas mulheres a rir às gargalhadas. Deve ser só a minha imaginação.
O Alan resolveu que já era tarde para voltar para casa e concordou em ficar no barco naquela noite. Até subiu para o meu quarto depois de muita persuasão, supostamente íamos ler os textos mas não foi isso que aconteceu. Pois não é isso que estão a pensar, ele caiu na cama e adormeceu eu própria estava a morrer de sono e por isso deitei-me a seu lado. Ele é tão forte, uma pele tão suave ... oh será que me apaixonei?
- Bonjour Jacqui!
- Boujour mon amour! Eu ... AHHHHH! Que fazes aqui Marcelle? Onde está o Alan??
- Acalma-te, ele veio chamar-me assim que acordou e te viu ... nesse estado.
- Estado? Qual estado? Sinto-me perfeitamente bem.
- Faz um favor a ti própria e vai te ver ao espelho.
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Mas o que é que ... AHHHHHHHHHHHHHH! Marcelle faz alguma coisa!!!
- O que queres que faça? O teu cabelo está bem ... verde.
- Sim já reparei! Não podes dizer ou fazer nada de útil? Aceito sugestões! Rápidas de preferência!
- Ahh ... já sei! Tu vais usar uma peruca durante todo o espectáculo ... amanhã vamos à cigana e tratamos do resto!
- E o que me dizes das manchas que tenho as mãos? E engordei!
- Quanto às manchas difarçamos com base, o peso acho que é da tua cabeça. mas como eu disse vamos à cigana e ...
- É isso!
- O quê a base? Sim eu sei ajuda a ...
- Não a cigana! É ela ...
- Ela quem?
- A cigana é a Odette!
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