sexta-feira, 20 de março de 2009

Chá chinês

Ai a minha cabeça! Isto só pode ser dos ares desta terra maldita. O cheiro a peixe está em tudo, peixe podre para agravar a situação. Eu sempre fui sensivel a cheiros e tenho andado completamente desorientada. Mal tenho saído do quarto neste últimos dias, o Pacheco providencia-me o almoço e o jantar e o Marcelle está a vigiar os ensaios. Com o contratempo da Odette ficámos bastante atrasados, com a Jacqui leva-se o dobro do tempo porque ela é péssima a decorar as falas. Mas é a solução que tenho e apesar de tudo sei que é de confiança e também tenho de admitir que me tem nas mãos dela, é a única pessoa neste barco que sabe do meu passado. Mas adiante, preciso de descansar e de ganhar forças, a estreia é já para a semana que vem. Ai que esta vida começa a cansar! Não é uma questão de idade ... estou ainda na Primavera, vá Verão da vida! Mas estas confusões causam-me rugas e eu não estou para andar por aí feita velha cheia de pregas mais vale ... ai o diabo seja cego, surdo e mudo! Deus me livre!
- Dona Charlotte? Está acordada?
- Não estou a dormir a e a falar contigo queres ver! Diz lá o que foi?
- É a cab ... a menina Jacqueline, diz que quer falar consigo imediatamente.
- Diz-lhe que morri e estou a apodrecer e que ela vai apanhar sarampo e joanetes se cá vier confirmar.
- Já lhe disse isso. Ela perguntou como é que a senhora morreu e eu respondi " Ah caiu da cadeira e bateu com a cabeça" e ela perguntou "Então de onde vem o sarampo?" e eu "Ah a cabra apanhou-me!". Ela até é esperta para uma moça burra.
- Manda a entrar quero lá saber.
- Se a dona quiser eu digo-lhe que foi ver se está a chover, ela acreditou daquela vez em ...
- MANDA-A entrar Pacheco! JÁ!
Entrou de rompante com um daqueles sorrisos de menina caprichosa que conquistou o seu mais recente desejo.
- Nem sabe o que me aconteceu!!
- Imagino.
- Acredite em mim que nunca iria adivinhar. Fui lá ter com a cigana velha e ela não só me disse o que eu queria ouvir como ... fez com que o Alan caísse a meus pés. Literalmente! Deu-lhe um chá ou o que foi. Eu a principio suspeitei que ela fosse sabotar o nosso acordo mas fez ainda melhor! Não é fantástico?
- Fabuloso (ironia). Mas diz-me uma coisa? Que pensas fazer quando te cansares dele, o que vai acontecer muito brevemente, e ele estiver completamente vidrado em ti?
- Qual quê? Isto é para a vida!
- É por causa da Odette não é? Tu sabes que estava apaixonado por ela e não suportas-te o facto de ela te ter substituído no espectáculo tinhas de te vingar de alguma forma.
- Alguma vez? Quero que a sonsa vá morrer longe! Nós fomos feitos um para o outro, ele só precisava de um empurrãozinho.
- E a cigana? Não me digas que acreditas nessas coisas?
- Acredito pois, principalmente depois de ver o efeito do chá. Já lhe encomendei mais! E consultas regulares, vai ver que você gosta lá. Até podia ajudá-la com ... aquilo, você sabe.
- Não querias ir por aí que hoje estou no limite, não abuses. Era só isso que querias?
- Não, queria pedir-lhe, aliás dizer-lhe que nos vamos embora depois das 100 exibições do espectáculo. Pretendo ir para Nova Iorque retomar a minha carreira no cinema.
- E então? Arranjo outra rapariga, não és insubstituivel.
- Repare, você vem comigo assim como o "Charlotte".
Nisto entra o Pacheco e a conversa ficou por aí. Ela já está a abusar, sempre quero saber como é que ela me pode obrigar a fazer aquilo que quer.
Saí do quarto depois da conversa e resolvi ir dar uma volta até à praia. Já estava escuro, mas ouvir o som do mar ajudou a acalmar-me e por momentos não pensei em nada. Fleury lembra-me muito a minha aldeia natal, as pessoas, os cheiros e é por isso que não gosto de Fleury. Pronto lá estou eu a pensar! Quem me dera ser vazia como a Jacqui e não pensar. Aquela tem um talento natural para esquemas, nem precisa de pensar neles, surgem.
Quando estava a voltar para o barco avistei uma fogueira e uma tenda. Deviam ser os ciganos que estavam na vila, e deve lá estar a cigana de que me falou a Jacqui. Não tenho nada a perder, resolvi entrar. Só estava lá uma velha, sentada numa cadeira com uma manta nas pernas.
- Boa noite! Estou a incomodar?
- Claro que não madame. Entre por favor.
- Você é ...
- A Guadalupe! Sim fui eu que falei com A Jacqueline.
- Mas como? Você conhece-me?
- Ahh ... não quer dizer ... eu adivinho, é isso!
- Meu Deus então é verdade! Você consegue ...
- ... ver o futuro. Sim! Não é por acaso que me chamam de Mestre Bambu de saias, mas o Bambu usa saias ... Mestre Bambu feminino vá! Se bem que ...
- Quem é esse?
- Não conhece o Mestre Bambu? Foi o meu mentor, ensinou-me tudo o que sei e o que não sei mas que vou descobrir, e ainda aquilo que desconheço mas que sei secretamente. Conheci-o em Londres onde ele esteve estabelecido até à sua morte.
- Mas ... eu estive em Londres durante vários anos e nunca ouvi falar de ...
- Mestre Bambu é muito reservado. Fugiu de África na mocidade, por motivos desconhecidos, e gosta de manter a sua privacidade.
- Tem certeza que não me está a tentar enga ...
- Eu?? Nunca faria tal coisa! Até tenho um certificado de vidente, quer ver?
- Eu qu ...
- Está tudo desarrumado! Não conseguiria encontrar.
- Mas se você é vidente deve adivinhar onde ele es ...
- Adiante! Eu sei porque é que a senhora veio cá.
- Sabe? Como?
- Sou vidente lembra-se??
- É verdade desculpe. Então diga-me, se é que consegue, como me pode ajudar?
- Eu só a posso ajudar se me der algo em troca.
- Dinheiro? Olhe desculpe mas não tenho dinheiro para gastar com estas coisas, nem sei porque estou aqui o melhor é ...
- Eu sei do seu caso com o Jean Poisson!
- Eu ...
- ... não sabe o que dizer. Pois eu sei que não sabe!
- Mas co ...
- Aconselho-a a ter cuidado com a estrela do seu espectáculo.
- Pois eu sei que não ... mas como é que sabe que o Jean...?
Era o que me faltava. A história começava a espalhar-se. Fiquei estupefacta a olhar para a velha, não sabia se havia de desmentir ou não. Ela sabia de tudo o que fiz e eu não podia arriscar arranjar problemas com ela. Se estivesse em Paris facilmente arranjava forma de a calar, mas não aqui na terra onde Jean nasceu.
- Você pode ...
- Ajudá-la claro. Estou aqui para isso! Tome este chá, dê-o à sua Jacqui a beber no dia antes do espectáculo, vai ver que ela fica de bico calado. É um chá chinês, faz com que as pessoas realizem todos os desejos da pessoa de quem o oferece.
- Eu realizo os meus desejos se ela o tomar?
- Não, você terá controla a pessoa, logo puderá realizar os seus desejos em que ela ... percebeu?
- Não.
- Deixe-me ver a embalagem. Ora ... ah! Você tem "o total controlo sobre a vida da pessoa subjugada, ao nível de tarefas domésticas, eventos sociais, situações de escravidão emocional e outros".
- Então e como é que isso faz com que ela não abra a boca?
- Isso encontra-se nos outros madame.
- E a senhora? Como sei que não vai falar?
- Digamos que não vou permanecer aqui por muito mais tempo. E quem iria acreditar numa velha cigana? Ainda mais em Fleury.

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