quarta-feira, 11 de março de 2009

Guadalupe


- Rodriguez! Ajuda aqui! Mas que asno que me saíste...
- Não o trate assim, Morgana. Ele é um bom homem.
- Para dormir! Para ajudar quando é preciso não!
- Amori, gostava tanto de estar na praia...Não podemos ficar lá porquê?- disse o Rodriguez, enquanto vinha com a casa às costas.
- Já te disse mil vezes, homem de Deus! Caraças! Vou montar a banca e não dá jeito estar na areia, bolas! E ainda por cima está frio. Pensas que é Verão, não? Agora mexe-te!
- E vamos para onde?- perguntei eu- Digo vamos mas...nem sei se posso ficar definitivamente com vocês...Se calhar o melhor que eu fazia era voltar para a minha terra.
- Cala-te, miúda! Já conversámos sobre isso (despacha-te Rodriguez!) ficas connosco! Anda, vais aprender umas coisinhas e vais me ajudar.
- Vamos para onde, amori?
- Cala-te, Rodriguez! Mexe-te! Segue-me e logo vez!
- Hum, mas sabe que não quero dar trabalho...- disse eu.
- Não dás trabalho nenhum! E vais me ajudar e isso é bom, tendo em conta que o Rodriguez só dorme.
- Ás vezes apetece-me desaparecer...Ao ficar com vocês as pessoas vão continuar a ver-me e a falar de mim e...o Alan...
- Nós damos um jeito nisso, querida. RODRIGUEZ! Pousa as coisas. Ficamos aqui!- Pousamos, ou, o Rodriguez pousou as coisas num pequeno descampado mais para o fim da vila. Olhei à volta. Parecia-me bem.
- Monta a tenda, Rodriguez.
- O Rodriguez faz tudo, porquê?
- Porque és homem!- A Morgana era um bocado dura com o pobre homem, mas ele também era um bocado tontinho. O Rodriguez começou a montar a tenda.
- Vou ver o terreno e as coisas aqui à volta. Transmitir uma boa energia para o negócio. Vens Odette?
- Não, eu fico por aqui a ajudar o Rodriguez- disse eu. Ajudei-o a montar a tenda e conversámos um pouco enquanto o fazíamos até porque vi que ele não estava bem.
- Então, Rodriguez...Está bem? Está...Rodriguez! Está a chorar?
- Qual quê! Entrou-me uma ervinha para o olho...
- Vá lá Rordriguez, sei que ela é demasiado dura consigo.
- Ela é assim...ás vezes sinto que ela pode desaparecer a qualquer momento. Sou um anormal, um burro, um desastrado, um idiota, uma analfabeto, um...- E começou a bater-se a ele próprio. Fui forçada a faze-lo parar.
- Hei! Hei! Calma! Oh, não fique assim...Cada um é como é. A Morgana gosta de si...é o jeito dela ser como é.
- Um filho, menina, um filho ia tornar a nossa relação melhor, sabe? Bem a minha mãe me dizia que ela era "seca" em todos os aspectos. Eu não quis acreditar...
- Não pense nisso agora, vá- disse eu, enquanto arranjava as ultimas coisas- daqui a nada ela volta e se o vê assim ainda fica mais revoltada.
- Ela quer um homem de barba rija. Mas eu sou só um cigano molengão...
- Não diga isso! Vai ver que as coisas vão mudar para os dois- Naquele momento a Morgana chega e repara realmente que algo não stá bem.
- Que tens Rodriguez?- perguntou ela.
- Fui eu, Morgana. Levantei uns tecidos aqui, fizeram poeira mesmo para cima do seu marido. O coitado ficou tão afelito dos olhos...peço mais uma vez desculpa, Rodriguez.
- Não, não tem de pedir, menina, isto já passa- A Morgana acreditou. Passado pouco tempo estava tudo pronto: uma mesa, umas mantas, umas almofadas, umas coisas meio esquisitas dentro da tenda. Saímos os 3 para fora da tenda e contemplámos o nosso feito. Estava finalmente tudo arrumado.
- Agora, Odette, vem comigo. Rodriguez, vai arranjar o que comer!- O Rodriguez saiu em direcção a parte inserta e eu entrei dentro da tenda com a Morgana- Vou te fazer desaparecer, miúda- fiquei parva. E disse logo que não.
- Morgana, calma, quando disse desaparecer queria dizer sair da vila, sair daqui, quem sabe da França! Não queria dizer propriamente desaparecer.
- Calma! Vou apenas te mascarar. Assim, ninguém te vai reconhecer, vais me ajudar, ficas na vila e tens o Alan debaixo de olho. Que achas?
- Hum...Não sei, as pessoas vão acabar por descobrir, Morgana.
- Agora parecias o Rodriguez! Que horror! Onde é que está aquela rapariga forte e destemida que veio de bicicleta sei lá de onde, se esbarrou contra uma carroça, veio para a vila, fez-se à vida!
- E acabou por perder tudo...
- AI! Acabou a convivencia com o Rodriguez! Estás a ficar igualzinha a ele! Vá, a partir de agora- e abria um baú gigantesco com mil tecidos e chapéus- vais te tornar na Guadalupe!
- Hã?
- Era o nome da minha mãe...Basicamente vais ficar velha. Serás a minha mãe de agora em diante.
- Morgana, Morgana...No que é que me vais meter?
- Vais dar consultas de cartas- dizia ela com toda a simplicidade e descontracção deste mundo enquanto me vestia uma saia comprida. E continuou- vais ler a sina, vais fazer chás...
- Eu não sei faz nada disso- dizia eu ao vestir um corpete e mais uma camisa e mais não sei o quê.
- Não sabes mas vais saber- depois de me vestir, maquilhar, por um lenço na cabeça, uns óculos. Levou-me até um espelho velho- que tal esta Guadalupe?- Fiquei sem palavras. Aquela que estava no espelho não era, definitivamente, eu...
- Só que não posso ficar assim para sempre, Morgana.
-Lá estás tu a pensar como o Rodriguez! Sabes lá tu o rumo que as coisas vão tomar!
- E tu sabes?
- Isso agora...Vá, mas agora vou te ensinar e dizer o que tens de fazer. - Estava a começar a gostar daquela ideia, mas, mesmo assim, não podia ficar assim para todo o sempre. No entanto, ao estar disfarçada, podia ver o Alan as vezes que quisesse, mesmo que ele nem sequer se interessasse por isso...ou comigo. Maldito!
- Percebes-te tudo?- perguntou a Morgana. Na verdade não tinha percebido grande coisa, mas disse que sim. Com o tempo, as coisas vão ao lugar. Passado algum tempo, depois de termos comido uma carne um pouco duvidosa que trouxe o Rodriguez, bateram palmas lá fora, para nos chamar. A Morgana saiu da tenda e foi lá fora. Passado uns segundos voltou.
- Odet...quer dizer, Guadalupe, chegou a tua primeira cliente!
- Não estou preparada, Morgana...Eu fico apenas a ver o que fazes. Já dizia o meu padrinho que é a melhor maneira de se aprender.
- Não, não! Quem é a patroa afinal?
- É ela...-disse o Rodriguez, enquanto limpava uns pratos sujos.
- Sim! Sou eu. E eu estou-te mandar atender a cliente, Odet...Guadalupe. Vá...- E lá fui. Escondi bem a cara com o pano e abri a cortina da tenda. Voltei para dentro rapidamente.
- Nã,nã, nã, nã, não!! Morgana!! É a Jaqueline!!- Disse eu a "gritar" baixinho.
- Ai, ai, ai, ai, ai!! E que te isso?
- Ah...Jaqueline, barco, barco, zanga, zanga, Alan...- A Morgana ficou a olhar para mim e apenas estendeu o dedo indicador em direcção à porta. Agora percebo o Rodriguez. Bom, adoptei um andar meio coxo, um olho aberto e um fechado, meio curvada meio direita, com um lenço na cabeça que me tapava a cara e uma bengala na mão fui ter com a víbora da minha cliente que me esperava numa tendinha, que o Rodriguez tinha montado só para as consultas.
- Estava a ver que não era hoje! Onde é que anda a cigana para me consultar?- Antipática! como é que alguém pode ser assim?
- Hoje sou eu que a vou atender, menina- disse eu a ferver, mas a ferver muito, por dentro.
- Ah, esta bem. Então mas olhe lá, vocês nõ estavam na praia? Era muito mais perto para mim...Agora estão aqui mais para o fim da vila porquê?
- Mudanças da minha filha, mudanças...Mas diga, o que quer saber?- perguntei.
- Quero saber quanto é que leva para dizer ao homem que quero que eu sou feita para ele- Que "quer" atenção, aquela cobra "quer" o Alan, ela não o ama...que víbora! Não estava a acreditar.
- Aqui só lemos sinas, fazemos previsões, lemos as cartas e...
- Oiça- disse ela tocando-me na mão- não quero saber o que têm ou deixam de ter, está me a compreender? Quero só que diga ao homem que quero que sou a mulher da vida dele, está bem?
- Eu...não posso fazer isso- disse eu.
- Eu pago o que for preciso!
- Vai contra os meus princípios...
- Não seja parva, tudo tem um preço!
- Não vou enganar o rapaz...
- Isto chega?- E pousou um maço de notas em cima da mesinha onde estávamos. Fiquei sem reacção. Pensava que a Jaqueline era residente do barco. O seu trabalho era pago, mas não assim...- Chega ou não?- Dito isto pousou mais dois maços de notas junto do mesmo e ficou a olhar para mim com aqueles olhos de carneiro mal morto. Que grande cobra venenosa! Ela quer enganar o Alan! Naquele momento, enquanto fingia que pensava se aceitava a proposta dela, pensava em que é que poderia tomar proveito com aquilo. E concluí que podia tirar muito, mas mesmo muito proveito!
- Oh, sim, acabo de me lembrar que afinal posso!- disse eu, fazendo-me de interessada no dinheiro.
- Ainda bem. De onde veio este há muito mais, sim? Basta fazer o que lhe disser e vai se dar bem. Vamos fazer assim: Hoje, às seis da tarde, você vai estar na praia. Eu vou dar uma volta com o Alan na praia por essa hora. Ele costuma estar sempre por volta dessa hora na praia, é uma coisas que ele tem...
- Eu sei.
- Como disse?- Bolas! Tenho de ter mais cuidado com a minha grande boca.
- Disse: Lá estarei- corrigi.
-Ah, sim, continuando: vou passear com ele a essa hora. Esteja mais ou menos perto do barco, ouviu? Senão farta-mo-nos de andar à sua procura. Depois vai nos perguntar se queremos que nos leia a sina. Eu digo que sim, o Alan vai dizer que não, mas você pega na mão dele e pronto...
- Mas espere- disse eu, já pensando num esquema- Já desde miúda que leio sinas e nunca o faço com outra pessoa ao pé, é uma coisa de família, teria de ficar sozinha com o rapaz para a coisa dar certo. Se estiver consigo ou com mais gente não vou conseguir, fico desconcentrada, as coisas saem todas ao contrario...
- Ai! Não, então não. Deixe cá ver...Então, também não há problema! Eu faço qualquer coisa, finjo que me esqueci de qualquer coisa no barco, vou dar um mergulho ao mar, sei lá! Mas você diz-lhe lá com as suas ciganisses que ele conheceu a mulher da vida dele, que sou eu, que sou feita para ele, que vamos ser felizes, ouviu bem? Diga-lhe também que o suposto amor que ele teve no passado foi uma brincadeira do destino, que não passou de uma porcariazinha, que eu sou o verdadeiro amor da vida dele. Depois com o desenrolar da coisa, hei de a contractar outra vez, combinado?
- Combinadissimo!
- Então estamos conversadas, adeus!
- Espere!- disse eu- Ainda não pagou a sessão!
- O quê? Ainda tenho de pagar a sessão? Já não lhe chega o que dei?
- Ordens da patroa...- Ela lá largou uns trocados em cima da mesa e saiu, deixando para trás aquele perfume meloso e açucarado e enjoativo dela. Corri para dentro da outra tenda e contei tudo à Morgana.
- Estás a ver? Ai, rapariga...e não querias tu atender a cliente...- E começámos as duas a rir. Mal podia esperar para ver o Alan naquela tarde. Mas que lhe ia eu dizer? Tinha de preparar um bom plano. Foi isso que eu e a Morgana ficámos a fazer enquanto o Rodriguez tirava uma sesta.

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