quinta-feira, 12 de março de 2009

Moça bonita e moça velha

- Pronto, pronto Edith chega de chorar mulher! Já me deste cabo do sofá com a tua maquilhagem. Tens de seguir em frente, isto os homens só servem para nos darem os filhos, de resto não fazem mais nada no resto do casamento senão beber, comer, dormir e andar atrás de mulheres duvidosas. Deixa lá que não perdes-te nada!
- Mas era desta Marie! Era desta que eu desencalhava e ... e até deixei o trabalho na funerária! O que vai ser agora de mim? Ai Marcelle ...
- Chega mulher! Vamos lá a limpar essa cara. Já choras-te tudo o que tinhas para chorar! Agora vamos lá a resolver a tua vida. Eu posso oferecer-te um trabalhito. Preciso sempre de alguém que esteja na loja enquanto eu vou ao armazém buscar tecidos ou quando estou na despensa de volta dos remendos.
- Obrigado senhora Marie mas não sei se ...
- Aceitas sim. Precisas é de trabalhar para esqueceres esse homem. Começas amanhã bem cedinho, vais ver que o desgosto passa rápido.
A moça lá se foi embora. Esteve a tarde toda naquela lamúria, falta-lhe a experiência do casamento. Temos mais é que engolir, ainda ela tem sorte de não ter estas desilusões depois da subida ao altar. Mas eu até precisava de uma ajudinha por isso a situação até me deu algum jeito.
- Boa noite Alan! Então já não se comprimenta a mãe?
- Ah desculpa não te tinha visto. Tudo bem?
- Que entusiasmo. Desde que começas-te a trabalhar naquele "local" andas sempre com este humor. É a estrangeira de certeza ...
- A estrangeira já era. A Charlotte mandou-a embora e ela já deve ir longe a esta hora.
- Ah coitadinha (alegria, festa, pulo, salto, danço na minha cabeça) era uma moça tão ... a ... simpática.
- Não precisas de estar com ironias que eu estou exausto e sem paciência!
- Claro que não meu filho. A mamã fez uma sopinha de legumes como tu gostas é só aquecer e ...
- Obrigada mas não tenho fome.
Ai este rapaz. Isto lembra mesmo a altura em que a Pauline estava em cena. De rapaz alegre passou a um farrapo que se arrasta pelos cantos com os olhos inchados. Nunca mais se soube nada dela, simplesmente desapareceu. Nunca cheguei bem a saber de onde é que vinha aquela rapariga, apareceu do nada. A Faustine dizia-me que ela era filha de alemães que emigraram para o norte de França. O nome francês devia então ser falso porque o Alan perdeu-lhe o rasto. Foram meses terriveis, mas desta vez parece-me que ele está menos afectado, talvez a Jacqueline o tenho conseguido seduzir. Rezo a Deus para que assim seja pois tudo o que não quero é gente estrangeira na família.
- A Jacqui também não é de cá.
- Quê filho? Estavas aí, não te ouvi entrar!
- A mãe sempre teve o hábito de vir para o quarto da Ema falar alto os seus pensamentos.
- É verdade. Quando ela partiu fiquei sem a minha confidente, é a maneira que encontrei de poder continuar a falar com ela.
- Mas diga lá, já me anda a fazer casamentos? Ainda agora a ... foi embora.
- Não são casamentos filho! Apenas gostei de conhecer a rapariga, é simpática, bonita ...
- ... e não é de Fleury.
- Está bem mas as qualidades ajudam a compensar essa falha.
- Pois sim vou fingir que acredito que gosta mesmo dela.
- E porque não haveria de gostar?
- Porque ninguém gosta.
- Nem tu?
- Já desgostei mais.
Há esperança. Estivémos mais um pouco a conversar, ele estava claramente mais animado. Disse-me que mal entrou no quarto se lembrou dos tempos em que desesperou pela Pauline e não quis voltar ao mesmo. E parece que as coisas com a Jacqui vão avançando, amanhã vão-se encontrar fora do trabalho. Essa é outra insisti para que deixa-se aquele maldito trabalho, eu própria deixei de colaborar com a madame, ele disse que ia pensar nisso.
De manhã tomámos o pequeno almoço juntos. Fez-me panquecas e um cházinho de camomila, estavam intragáveis mas eu fiz um esforço em ser agradável. Saiu para o trabalho e eu para a minha lojinha. Já lá tinha a Edith à porta com umas olheiras até aos pés que denunciavam uma noite mal dormida.
- Bonjour Edtih! Pronta para trabalhar? Temos muito que fazer hoje, encomendas e mais encomendas e o fornecedor que vem de Toulouse. Não temos tempo a perder!
- Está de bom humor madame. Aconteceu alguma coisa?
- Não nada, acordei bem disposta é só.
Tivémos uma manhã atarefada, um zum zum constante para cá e para lá. Por volta do meio-dia os meus joelhos já não podiam mais, tive de me sentar! Ouvi um pouco de rádio para me distrair e folheei algumas revistas. Foi aí que ouvi a campaínha.
- Quem é?- perguntei sem me levantar da cadeira - Quem é? - repeti sem obter resposta.
Se for a estrangeira a dizer que voltou quer casar e fazer bébés com o meu filho acho que a ...
- Bonjour madame!
- Boujour ... quem é a senhora?
- Sou Guadalupe, mãe de Morgana e filha de Esther.
- Interessante. E então diga lá o que quer? Se é por causa da boutique enganou-se na porta, é a do lado. - tentei falar o mais alto possível a mulher aparentava ter uns 80 anos.
- Eu queria era falar com a senhora.
- Desculpe lá ... conheço-a de algum lado?
- Duvido madame, em toda a minha vida viajei pelos quatro cantos do mundo, mas esta é a minha primeira vez em Fleury.
- Sim mas adiante diga lá o que quer que eu tenho mais que fazer. É esmola não é? Não tenho muito para lhe dar ...
- Nada disso senhora, vim aqui avisá-la de que algo está para acontecer na ssua vida. Algo importante.
- Ai então é bruxa? Devia ter percebido pelas roupinhas, já lhe disse que não tenho dinheiro para lhe dar. Agora xô.
- Cuidado madame, cuidado. Quem semeia ventos colhe tempestades.
Velhas doidas é o que mais há por aí. Ainda por cima cigana, ui aquela para andar de porta em porta deve estar mesmo no desespero, já devia saber que aqui os ciganos não fazem negócio. Mas algo naquele rosto me fez lembrar alguém.
O Alan voltou, almoçou e voltou a sair. Parecia entusiasmado, ao sair lançou-me um beijo e voltou a chamar-me de "Fanfan" tal como quando era pequeno. Não resisti e segui-o, tinha de saber a razão de tamanha felicidade.
Subiu a rua, passou pela praça, cumprimentou o senhor Ângelo e a esposa, seguiu para o cais e finalmente pos os pés na areia. O meu filho sempre gostou da praia, desde pequenino quando ía com o pai à pesca e passava os dias inteiros dentro de água. Sentou-se na areia com os pés na água e eu para passar despercebida meti conversa com o Genet.
- Então já pescou muito hoje?
- Pouco madame Marie! Este barco aqui atracado afasta os peixes.
- É verdade isso é desagradável. E a sua senhora como vai? Nunca mais foi à boutique.
- Tá doentinha madame. Apanhou uma constipação e não sai da cama. Já lá foi o doutor August mas nada feito, o médico diz que é coisa da idade, não se cura tão depressa. E o meu filho que agora não pode cá vir, uma tristeza, mas se Deus quiser a Louise chega amanhã, lembra-se dela? Bela moça, devia casar-se com um moço daqui para ficar mais perto de nós, o seu filho é um moço bom. Tá comprometido? Ai gostava tanto de os ...
O homem não se calava. Não ouvi metade do que ele disse, todos sabem que é impossivel conseguir dar atenção e registar todas as palavras e histórias que o homem consegue relatar em 4 minutos.
- ... e daquela vez que o cão teve prisão de ventre ...
Ai a minha vida! Se não fosse por uma boa causa mandava-o dar uma volta, mas tenho de descobrir o que torna o meu Alan de novo ... no Alan! Ai que não acontece nada! Ninguém aparece!
- ... e há trinta anos que não ía a casa da minha cunhada! Foi daquela confusão de quando ela andou enrabixada com o padeiro, uma vergonha ... aquele ... aquele não é o seu Alan? ALAN!
- Esteja calado homem! Não vê que eu não quero que ele me veja?
- Ele não quer ver a senhora que você não quero que ele ...
- Esqueça, esteja calado e pronto!
- Ah já entendi! Estamos a espiá-lo!
- Eu sou mãe dele! Estou apenas a protegê-lo, espiar por amor de ...
- Olhe lá vem uma moça, bonita, boa, boa e outra olhe lá bo ... velha!

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