
- Edith!!!
- Sim, senhor Leonard! Estou aqui!
- Agora está aqui! Por onde andou? Já viu o estado da loja?
- Adormeci e...
- Adormeceu? Adormeceu?? Estou farto! Não tem um despertador?
- Por acaso o despertador que tinha, que era da minha mãe, que Deus tem, avariou à cerca de duas semanas, ou terá sido três...? Olhe não sei! Só sei que...
- Sabe nada! Não limpa a loja,não faz nada, não arquiva as coisas... Tivemos um! Um cliente no outro dia! Um, menina Edith! Veio de Le Blanc, a poucos quilómetros daqui, à procura dos nossos serviços e o que é que ele encontrou?
- O barco...ai, Jesus, toda a gente fala daquele barco, aquilo é uma animação, senhor Leonard, juro-lhe!
- Não, menina Edith! Não! Encontrou a loja fechada!! Porque você estava, e agora percebo melhor, naquele maldito barco! Mas o que tem aquele barco? Se continuar assim, menina, tenho de a despedir...
- Ai não! Não, senhor Leonardo! Misericordia, desta pobre alma! E depois vivo do quê?
- Olhe, que vá para aquele cabaret! Lá espirito boémio você tem!
- Não, não, tudo menos ir-me embora daqui! Já tenho amor às estatuetas dos santinhos, senhor Leonard...Já venero a maca vazia que temos lá em baixo à meses...
- Porque não aparece ninguém! E quando aparece, você não está cá! Como é que ficamos?
- Eu prometo, senhor Leonard, prometo que me vou portar melhor! Vou lavar a loja todos os dias e arrumar os santinhos na montra por cores dos mantos!
- Bom...tenho mais que fazer, agora. Mas ao próximo deslize já sabe! Rua!- Credo, o monsieur Leonard estava mesmo chateado. Mas é um tédio ficar naquela loja sem fazer nada! Não aparece um morto! Estou farta de trabalhar lá, não aguento...e depois, como é que eu hei de dizer isto, há o Marcelle, o músico do barco...Ai, estou apaixonada! Ele é tão querido e romântico. Até já me cantou uma música! Estou certa de que mais tarde ou mais cedo vai pedir a minha mão em casamento a...a alguém, provavelmente à Anne Marie, já que sou sozinha neste mundo! Mal posso esperar! Afinal das contas já demos uns beijinhos e ele viu, uma única vez, juro, descaradamente, os meus joelhos! Dou-lhe uma semana para dizer: "Edith, minha musa inspiradora (é assim que ele me chama) casa comigo, vamos embora daqui, larga a funerária, larga tudo, vem comigo, vamos morar numa casa à beira de um lago...Lá teremos os nossos 7 filhos (gosto do número sete desde miúda) e um casal de cães! Seremos felizes: eu, tu e a nossa família (mais os cães)". Uma semana! Uma semana! Depois do senhor Leonard sair da loja fiz o que sempre faço: sento-me atrás do balcão, tiro o meu saco dos bordados e toca de bordar. Estou a fazer um napron bordado com dois pássaros e em baixo tem as letras E e M de Edith e Marcelle...Uma semana! Bordei uns...5 minutos e percebi que tinha saudades do meu mais que tudo. "Vou ao barco", pensei. "E se o senhora Leonard me apanha?", pensei. "Ah...vou casar daqui a uma semana, que interessa se fico desempregada?"pensei. "É isso! Não vou dar o prazer àquele barrigudo careca do senhor Leonard de me despedir! Eu vou pedir demissão e é agora!", pensei. Foi então que fui ao café "Poison" onde o monsiour Leonard passa os dias.
- Monsiour Leonard!
- Edith! Vai já para a loja! Imagina que morre alguém, mulher!
- Não! Não vou nunca mais esperar pelos mortos! Nunca mais! Demito-me!- E saí do café. Que sensação boa! Agora, vou a correr para os braços do meu amor. Corri mesmo para o barco, mas quando lá cheguei o ambiente estava de cortar à faca. Entrei, as bailarinas estavam todas sentadas no palco, a Odette estava de pé ao pé do piano, onde o Alan estava sentado. O resto do pessoal estava sentado desordenadamente pelas cadeiras da assistência, incluindo o meu Marcelle, que me foi buscar à porta e me puxou uma cadeira, onde me sentei.
- Que se passa, mon amour?- perguntei.
- A Charlotte convocou uma reunião geral.
- Por que razão?
- Não sei, ninguém sabe. Só mandou dizer pelo Pacheco para parar imediatamente o espectáculo e aguardarmos aqui- disse-me ele baixinho.
- Tenho uma coisa para te dizer- disse-lhe eu ao ouvido- Mas digo-te depois! Agora estou a morrer de curiosidade para saber o que é que a madame tem para dizer!- Foi então que aguardámos na sala de espectáculo até chegar a madame Charlotte. Não vinha lá com muito boa cara e vinha acompanhada da Jaqueline, aquela insuportavelzinha...Nunca gostei daquela mulher!
- Olá a todos- disse a madame- precisava de falar com vocês, não é nada de mais...
- Ora dona! Fala logo!
- Cala-te Pacheco!- disse logo a senhora em seguida. E continuou- Vou ser breve. Odette, resolvi...- e deteve-se um pouco. Estava-lhe a custar...mas porquê?- resolvi que...tens de fazer a vez da Ronda, que terá de abandonar o barco, e, sendo assim, a Jaqueline fica no teu lugar.- Naquele momento, a Ronda, uma das raparigas bailarinas, que fazia um pequeno papel secundário na peça, saiu a correr, de lágrimas nos olhos. O silêncio era muito constrangedor. Todos estavam surpresos.
- Mas, Charlotte, eu já sei o texto todo, as danças, quando entro, quando saio...-disse a Odette. Boa moça, gosto dela, apesar da Anne Marie a odiar.
- Pois mas...Pensei melhor e realmente a Jaqueline tem mais perfil para esta personagem.
- Mas tu disses-te logo desde o inicio que eu era perfeita para o papel! Não estou a perceber isto...Só podes ter sido endrominada por essa...por essa...Vibora!!!- O caus instalou-se. Se o Alan não tivesse agarrado a Odette a Jaqueline tinha passado à história, porque tinha levado com uma valente cadeirada na cabeça! Eu encostei-me ao meu Marcelle, que me abraçou e aconchegou. Uma semana! Uma semana! Enfim, caus, caus, caus! Gritos e insultos! Já não era a primeira vez que elas se pegavam...
- Cobra venenosa! Envenenas-te a Charlotte contra mim! O que te fiz de mal? Já não é o papel que queres pois não, não é só isso que queres, pois não???
- Odette, calma...- dizia o pobre pianista.
- Deixa, mon amour...-dizia a quela insuportavelzinha- ela não sabe o que diz! A Charlotte sempre soube que EU era melhor, EU era ideal para o papel.
- ELE NÃO É O TEU AMOUR, SUA COBRA!- Uma cadeira voou e caiu aos pés do pobre Pacheco, que ficou apavorado. Valente aquela Odette.
- PAROU TUDO!- Gritou a Charlotte. E o silêncio voltou- EU DECIDI ESTÁ DECIDIDO!
- Mas porquê????- dizia a Odette- Eu fiz alguma coisa de mal? Eu enganei-me em alguma coisa? É aquele passe das pernas e das voltas não é? Eu posso melhorar, Charlotte...A CULPA É DAQUELA COBRA!
- SONSA!- ripostava a Jaqueline.
- PAROU!- Nunca tinha visto a mulher assim...- Odette, por favor, sai...
- Saio?
- Sai, estás fora da peça.
- O quê?...Alan! Ajuda-me! Isto não pode ficar assim...Foi a Jaqueline que...
- Odette, sai do meu barco AGORA!- Fez-se novamente silêncio.
- Muito bem...-disse a pobre moça a choramingar- Se é assim que queres...- começou a andar e parou a meio do salão. Olhou para o Alan, que não a segiu, ficando sentadinho no banquinho do piano. Depois, saiu definitivamente do salão.
- Vá! Continuem! Não quero gente parada!- disse a Charlotte, batendo palmas e saindo da sala em seguida. A Jaqueline foi logo para ao pé do piano, porque será...O que mais me espanta é que o Alan continuou a tocar como se nada tivesse acontecido...Aquela Jaqui, ou lá como lhe chamam sabe a toda...Ai, se ela arrasta asa para o Marcelle a funerária vai ter mais uma cliente!!! Pensei depois na Odette...Para onde ela iria agora?
- Marcelle, falamos depois, vou ver como está a pobre rapariga...
- Vai, vai, depois diz-me qualquer coisa, coitada...Se bem conheço a peça, foi um endrominanço da Jaqueline...Mas vai, espero-te ao final da tarde, combinado?
- Oui! Adieu!- E lá fui eu. Quando saí do barco não a vi. Olhei por todos os lados e nada...Até estou disposta a oferecer a minha casa. Só tem um quarto, mas ela pode dormir no sofá. Pelo menos até decidir o que vai fazer da vida dela. Meu Deus...o que vai ser daquela miúda? Provavelmente vai para casa dela, lá em Toulouse, ou que é. Enfim...Fui até casa, tomei um banho cheiroso e ao final da tarde fui ter com o Marcelle. No caminho para o barco vi a Odette, mas estava acompanhada. Aquela cigana que agora mora na praia estava a falar com ela à beira mar. Ainda pensei em ir bisbilhotar um bocadinho, mas depois lembrei-me do Marcelle e daquilo que eu lhe tinha para dizer! Começei a preparar o discurso: "Marcelle, amour, despedi-me do meu trabalho para ser toda tua para sempre! Espero que me peças em casamento, casamos e vamos viver para onde quiseres!". Cheguei ao barco e lá estava ele no convés.
- Olá.
- Olá...
- Então, encontras-te a Odette?
- Não, não, tenho uma coisa para te dizer!
- Ah, sim diz...
- Eu...Depedi-me da funerária, estou completamente livre para ficar contigo para toda a minha vida!! Até me lembrei agora que posso também por a minha casa para vender e fazer bordados e vende-los também para ganhar mais dinheiro e depois...depois, mon amour, ia contigo para onde quer que fosses! Mas primeiro, claro, tinhamos de...tu sabes, vá lá Marcelle diz qualquer coisa!- Ele olhava para mim parado...Provavelmente pensava como eu era corajosa!
- Tu tens muita coragem, Edith...- disse ele, eu não disse? Já lhe leio os pensamentos!
- Sim...
- Mas eu não me posso casar contigo...
- Pára com brincadeiras, mon amour! Vá, estou pronta, podes dizer..."Edith..." vá! "Edith, queres casar..."- depois percebi que...
- Eu não estou a brincar, Edith. Eu...Já sou casado e tenho 7 filhos...- O meu mundo caiu, assim como eu.
- Sim, senhor Leonard! Estou aqui!
- Agora está aqui! Por onde andou? Já viu o estado da loja?
- Adormeci e...
- Adormeceu? Adormeceu?? Estou farto! Não tem um despertador?
- Por acaso o despertador que tinha, que era da minha mãe, que Deus tem, avariou à cerca de duas semanas, ou terá sido três...? Olhe não sei! Só sei que...
- Sabe nada! Não limpa a loja,não faz nada, não arquiva as coisas... Tivemos um! Um cliente no outro dia! Um, menina Edith! Veio de Le Blanc, a poucos quilómetros daqui, à procura dos nossos serviços e o que é que ele encontrou?
- O barco...ai, Jesus, toda a gente fala daquele barco, aquilo é uma animação, senhor Leonard, juro-lhe!
- Não, menina Edith! Não! Encontrou a loja fechada!! Porque você estava, e agora percebo melhor, naquele maldito barco! Mas o que tem aquele barco? Se continuar assim, menina, tenho de a despedir...
- Ai não! Não, senhor Leonardo! Misericordia, desta pobre alma! E depois vivo do quê?
- Olhe, que vá para aquele cabaret! Lá espirito boémio você tem!
- Não, não, tudo menos ir-me embora daqui! Já tenho amor às estatuetas dos santinhos, senhor Leonard...Já venero a maca vazia que temos lá em baixo à meses...
- Porque não aparece ninguém! E quando aparece, você não está cá! Como é que ficamos?
- Eu prometo, senhor Leonard, prometo que me vou portar melhor! Vou lavar a loja todos os dias e arrumar os santinhos na montra por cores dos mantos!
- Bom...tenho mais que fazer, agora. Mas ao próximo deslize já sabe! Rua!- Credo, o monsieur Leonard estava mesmo chateado. Mas é um tédio ficar naquela loja sem fazer nada! Não aparece um morto! Estou farta de trabalhar lá, não aguento...e depois, como é que eu hei de dizer isto, há o Marcelle, o músico do barco...Ai, estou apaixonada! Ele é tão querido e romântico. Até já me cantou uma música! Estou certa de que mais tarde ou mais cedo vai pedir a minha mão em casamento a...a alguém, provavelmente à Anne Marie, já que sou sozinha neste mundo! Mal posso esperar! Afinal das contas já demos uns beijinhos e ele viu, uma única vez, juro, descaradamente, os meus joelhos! Dou-lhe uma semana para dizer: "Edith, minha musa inspiradora (é assim que ele me chama) casa comigo, vamos embora daqui, larga a funerária, larga tudo, vem comigo, vamos morar numa casa à beira de um lago...Lá teremos os nossos 7 filhos (gosto do número sete desde miúda) e um casal de cães! Seremos felizes: eu, tu e a nossa família (mais os cães)". Uma semana! Uma semana! Depois do senhor Leonard sair da loja fiz o que sempre faço: sento-me atrás do balcão, tiro o meu saco dos bordados e toca de bordar. Estou a fazer um napron bordado com dois pássaros e em baixo tem as letras E e M de Edith e Marcelle...Uma semana! Bordei uns...5 minutos e percebi que tinha saudades do meu mais que tudo. "Vou ao barco", pensei. "E se o senhora Leonard me apanha?", pensei. "Ah...vou casar daqui a uma semana, que interessa se fico desempregada?"pensei. "É isso! Não vou dar o prazer àquele barrigudo careca do senhor Leonard de me despedir! Eu vou pedir demissão e é agora!", pensei. Foi então que fui ao café "Poison" onde o monsiour Leonard passa os dias.
- Monsiour Leonard!
- Edith! Vai já para a loja! Imagina que morre alguém, mulher!
- Não! Não vou nunca mais esperar pelos mortos! Nunca mais! Demito-me!- E saí do café. Que sensação boa! Agora, vou a correr para os braços do meu amor. Corri mesmo para o barco, mas quando lá cheguei o ambiente estava de cortar à faca. Entrei, as bailarinas estavam todas sentadas no palco, a Odette estava de pé ao pé do piano, onde o Alan estava sentado. O resto do pessoal estava sentado desordenadamente pelas cadeiras da assistência, incluindo o meu Marcelle, que me foi buscar à porta e me puxou uma cadeira, onde me sentei.
- Que se passa, mon amour?- perguntei.
- A Charlotte convocou uma reunião geral.
- Por que razão?
- Não sei, ninguém sabe. Só mandou dizer pelo Pacheco para parar imediatamente o espectáculo e aguardarmos aqui- disse-me ele baixinho.
- Tenho uma coisa para te dizer- disse-lhe eu ao ouvido- Mas digo-te depois! Agora estou a morrer de curiosidade para saber o que é que a madame tem para dizer!- Foi então que aguardámos na sala de espectáculo até chegar a madame Charlotte. Não vinha lá com muito boa cara e vinha acompanhada da Jaqueline, aquela insuportavelzinha...Nunca gostei daquela mulher!
- Olá a todos- disse a madame- precisava de falar com vocês, não é nada de mais...
- Ora dona! Fala logo!
- Cala-te Pacheco!- disse logo a senhora em seguida. E continuou- Vou ser breve. Odette, resolvi...- e deteve-se um pouco. Estava-lhe a custar...mas porquê?- resolvi que...tens de fazer a vez da Ronda, que terá de abandonar o barco, e, sendo assim, a Jaqueline fica no teu lugar.- Naquele momento, a Ronda, uma das raparigas bailarinas, que fazia um pequeno papel secundário na peça, saiu a correr, de lágrimas nos olhos. O silêncio era muito constrangedor. Todos estavam surpresos.
- Mas, Charlotte, eu já sei o texto todo, as danças, quando entro, quando saio...-disse a Odette. Boa moça, gosto dela, apesar da Anne Marie a odiar.
- Pois mas...Pensei melhor e realmente a Jaqueline tem mais perfil para esta personagem.
- Mas tu disses-te logo desde o inicio que eu era perfeita para o papel! Não estou a perceber isto...Só podes ter sido endrominada por essa...por essa...Vibora!!!- O caus instalou-se. Se o Alan não tivesse agarrado a Odette a Jaqueline tinha passado à história, porque tinha levado com uma valente cadeirada na cabeça! Eu encostei-me ao meu Marcelle, que me abraçou e aconchegou. Uma semana! Uma semana! Enfim, caus, caus, caus! Gritos e insultos! Já não era a primeira vez que elas se pegavam...
- Cobra venenosa! Envenenas-te a Charlotte contra mim! O que te fiz de mal? Já não é o papel que queres pois não, não é só isso que queres, pois não???
- Odette, calma...- dizia o pobre pianista.
- Deixa, mon amour...-dizia a quela insuportavelzinha- ela não sabe o que diz! A Charlotte sempre soube que EU era melhor, EU era ideal para o papel.
- ELE NÃO É O TEU AMOUR, SUA COBRA!- Uma cadeira voou e caiu aos pés do pobre Pacheco, que ficou apavorado. Valente aquela Odette.
- PAROU TUDO!- Gritou a Charlotte. E o silêncio voltou- EU DECIDI ESTÁ DECIDIDO!
- Mas porquê????- dizia a Odette- Eu fiz alguma coisa de mal? Eu enganei-me em alguma coisa? É aquele passe das pernas e das voltas não é? Eu posso melhorar, Charlotte...A CULPA É DAQUELA COBRA!
- SONSA!- ripostava a Jaqueline.
- PAROU!- Nunca tinha visto a mulher assim...- Odette, por favor, sai...
- Saio?
- Sai, estás fora da peça.
- O quê?...Alan! Ajuda-me! Isto não pode ficar assim...Foi a Jaqueline que...
- Odette, sai do meu barco AGORA!- Fez-se novamente silêncio.
- Muito bem...-disse a pobre moça a choramingar- Se é assim que queres...- começou a andar e parou a meio do salão. Olhou para o Alan, que não a segiu, ficando sentadinho no banquinho do piano. Depois, saiu definitivamente do salão.
- Vá! Continuem! Não quero gente parada!- disse a Charlotte, batendo palmas e saindo da sala em seguida. A Jaqueline foi logo para ao pé do piano, porque será...O que mais me espanta é que o Alan continuou a tocar como se nada tivesse acontecido...Aquela Jaqui, ou lá como lhe chamam sabe a toda...Ai, se ela arrasta asa para o Marcelle a funerária vai ter mais uma cliente!!! Pensei depois na Odette...Para onde ela iria agora?
- Marcelle, falamos depois, vou ver como está a pobre rapariga...
- Vai, vai, depois diz-me qualquer coisa, coitada...Se bem conheço a peça, foi um endrominanço da Jaqueline...Mas vai, espero-te ao final da tarde, combinado?
- Oui! Adieu!- E lá fui eu. Quando saí do barco não a vi. Olhei por todos os lados e nada...Até estou disposta a oferecer a minha casa. Só tem um quarto, mas ela pode dormir no sofá. Pelo menos até decidir o que vai fazer da vida dela. Meu Deus...o que vai ser daquela miúda? Provavelmente vai para casa dela, lá em Toulouse, ou que é. Enfim...Fui até casa, tomei um banho cheiroso e ao final da tarde fui ter com o Marcelle. No caminho para o barco vi a Odette, mas estava acompanhada. Aquela cigana que agora mora na praia estava a falar com ela à beira mar. Ainda pensei em ir bisbilhotar um bocadinho, mas depois lembrei-me do Marcelle e daquilo que eu lhe tinha para dizer! Começei a preparar o discurso: "Marcelle, amour, despedi-me do meu trabalho para ser toda tua para sempre! Espero que me peças em casamento, casamos e vamos viver para onde quiseres!". Cheguei ao barco e lá estava ele no convés.
- Olá.
- Olá...
- Então, encontras-te a Odette?
- Não, não, tenho uma coisa para te dizer!
- Ah, sim diz...
- Eu...Depedi-me da funerária, estou completamente livre para ficar contigo para toda a minha vida!! Até me lembrei agora que posso também por a minha casa para vender e fazer bordados e vende-los também para ganhar mais dinheiro e depois...depois, mon amour, ia contigo para onde quer que fosses! Mas primeiro, claro, tinhamos de...tu sabes, vá lá Marcelle diz qualquer coisa!- Ele olhava para mim parado...Provavelmente pensava como eu era corajosa!
- Tu tens muita coragem, Edith...- disse ele, eu não disse? Já lhe leio os pensamentos!
- Sim...
- Mas eu não me posso casar contigo...
- Pára com brincadeiras, mon amour! Vá, estou pronta, podes dizer..."Edith..." vá! "Edith, queres casar..."- depois percebi que...
- Eu não estou a brincar, Edith. Eu...Já sou casado e tenho 7 filhos...- O meu mundo caiu, assim como eu.
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