O meu nome é Guinevere, mas nasci Maria Francisca. O pai deu-me a liberdade de mudar o meu nome e desde daí é por Guinevere que me tratam. Dos meus nomes de baptismo só conheço estes dois que tudo o resto me será escondido e ocultado até “eu ter idade suficiente para perceber destas coisas”. Para mim isso não faz qualquer sentido, tenho 12 anos acho que consigo lembrar-me do meu nome. Pouco sei sobre a história da minha família e o que sei foram frases soltas da minha ama Antónia. Depois de muitos amuos e alguma lágrimas lá consegui que me falasse da minha mãe que fora noiva de um senhor muito rico e importante na corte portuguesa! Ora com uma frase destas como querem que eu pare as perguntas? Mas a Antónia, muito fiel aos seus senhores fechou de novo a boca. Meses mais tarde perguntei por meu pai, mas dele Antónia só disse que é um homem muito corajoso e que meus pais casaram por amor. Não me chega! Já tenho 12 anos! No século XIX significa que daqui a pouco estou casada!
Mas o pior é o isolamento, os dias intermináveis passados sem ver pessoas diferentes do pai, da mãe, da Antónia, do irmão Joãozinho e de Joaquim, o cocheiro. É a única casa que conheci e, segundo Antónia, a única em que meus pais viveram enquanto casal. Nem sei ao certo onde estamos, meu pai só diz “Filha estamos em Portugal e em região bem longe de Espanha”. Apesar do o país ser pequeno isso quer dizer quase nada e sem contacto com pessoas do exterior nem através das pronúncias me posso orientar.
Até pode parecer que sou muito infeliz, só o que fiz foi queixar-me, mas tenho noção que somos muito afortunados. A nossa casa era antigamente ocupada por um casal nobre que a abandonou depois de um incêndio. Devia ser gente muito importante, com muitos terrenos e trabalhadores porque eu do telhado consigo avistar umas 20 casas ao longo da pradaria. O incêndio quase destruiu a casa, mas o meu pai recuperou-a. A casa é branca e as madeiras das janelas pintadas de azul. Só a do meu quarto é amarela, a minha cor preferida. Está sempre limpa e cheira a pão de manhã e a alfazema ao fim de tarde. Temos uma horta com morangos, cenouras, alfaces e um jardim com rosas brancas e margaridas. Também temos uma cadelinha que eu resolvi chamar de Francisca ou Chiquinha como a costumo tratar. O meu pai sempre me falou nas condições em que vive o povo, que muitas vezes passa fome e morre de frio no Inverno. Sei que não somos ricos, mas também nunca passei fome nem frio e apesar do isolamento sei que tenho a sorte de viver numa casa onde todos se amam e com uma vida tranquila.
A questão é que sempre soube que eles me estavam a esconder alguma coisa, mas eles também sempre fizerem questão de dar a entender que nem valia perguntar. Eu sempre me conformei com as meias respostas da Antónia mas ultimamente sinto que o pai anda inquieto. Enfia-se na cava durante horas e horas e quando sai tem um ar carregado e é capaz de passar por mim sem sequer dizer nada. A mãe também tem andado nervosa e até os ouvi discutir, coisa que nunca tinha ouvido. Eu sempre soube que aquela cave tinha alguma coisa escondida e que todos os mistérios tinham ali a sua resposta. Mas que posso eu fazer? Nunca me deixam sozinha e se me vêm perto da porta sequer correm a tirar-me de lá. Como se eu fosse uma criança.
Um dia, quando o pai estava fora, lá convenci a mãe a deixar-me ir com a Antónia à vila mais próxima. Com a condição, claro, de ficar à espera dela uns quilómetros atrás. Eu sabia que já era uma grande vitória ter ido tão longe e então acompanhei a Antónia em silêncio.
- Então a menina não diz nada? Tão caladinha que nem parece coisa sua. Ora diga lá se a paisagem não é bonita para estes lados?
- É. – respondi baixinho.
- Sempre pensei que quisesse vir para estes lados. Era razão para ficar mais animada!
- E estou.
- Já vi que não está para conversas hoje. Olhe que a sua mãezinha arrisca-se a que o seu pai descubra esta escapadela e depois não vem comigo tão cedo.
- Já estou habituada a estar fechada naquele sítio.
- Garanto-lhe que é tudo para seu bem. Não que eu saiba muito do assunto.
Apeteceu-me logo perguntar-lhe, estava mesmo na ponta da língua. Mas resolvi desempenhar o papel de criança inocente que não percebe das coisas dos adultos para passar despercebida. Como nem do telhado conseguia avistar estes sítios comecei a admirar o que me rodeava. A Antónia começou a falar de qualquer coisa como “a menina tem tanta sorte com os pais que lhe foram destinados” e eu continuava a olhar os campos até que avistei um rebanho de ovelhas. Corri até elas e elas naturalmente fugiam de mim, senti-me realmente criança e até agarrei um borreguinho pretinho, tão lindo e desajeitado. Foi então que senti um puxão. Era a Antónia com as suas preocupações. “A menina não pode sujar-se! A menina ainda adoece e depois que digo eu ao seu pai!”. Eu achei tudo aquilo muito estranho, mas foi então que eu percebi que o pastor tinha surgido lá ao fundo. Apercebi-me nesse momento que o medo da Antónia e o medo dos meus pais era de que alguém me visse.
Entrámos na mata e Antónia pegou-me na mão com força e disse que não demorava tempo nenhum. Para eu ali ficar e que dali não saísse por razão alguma, para me esconder se alguém por ali passasse. Foi então que algo despertou em mim, quase sem pensar desatei a correr assim que a ama desapareceu. A floresta ia ficando cada vez mais densa e eu comecei a sentir a dor dos arranhões nos meus braços e reparei que o meu vestido estava coberto de sangue. Foi aí que avistei um lago. Limpei as minhas feridas e passei água pelo rosto. Não estava a fugir queríamos apenas saber onde estava, vivi tanto tempo no meio do nada que agora só quero explorar o que está em minha volta. Apercebi-me que haviam pessoas ali perto, pareciam trabalhadores. Era um homem e uma mulher, estavam parados num caminho de terra. Tentei aproximar-me sem ser vista e escutar o que diziam, mas da conversa só ouvi duas palavras “quinta” e “Sintra”.
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