- Olha, sabes? Estou farta disto! Já não dá mais…fechei a loja por hoje!
- Já?
- Sara, são duas e meia da manhã…E eu não tenho a tua vida! Amanhã tenho de ir passear os cães das madames logo pela fresquinha! E põe fresquinho nisso.
- Ainda estás metida nisso?
- Metida…até parece que ando na droga! - disse eu, enquanto apertava o casaco até bem pertinho do pescoço e me preparava para enfrentar o temporal que estava lá fora – são só cães.
- Esse emprego é uma bela bosta - disse ela, fechando o caderno bruscamente - passeias os cães, as cadelinhas, pegas nos saquinhos, apanhas as poias, pões as poias no caixote, passeias mais os cães, pegas nos saquinhos, apanhas….
- Poupa-me, Sara. Faço isso tudo, sim, e depois ganho dinheiro, pilim, cacau, para pagar este mestrado que nunca mais acaba…Bom, adeus! – Sim, esta sou eu. Uma mulher desesperada, com 26 anos, já com o relógio biológico a tocar há dois e relógio matrimonial a tocar há três, apesar de o meu querido…digamos companheiro, fazer questão de não lhe dar corda. Enfim, não serei a única mulher do mundo assim, ou pelo menos que pense assim. Acho eu. Naquela noite saí da faculdade muito tarde. Tinha prometido à Sara que ficava na biblioteca a fazer-lhe companhia e adiantar um pouco a minha tese, que se enrola demasiado para o meu gosto. Meti-me no carro, depois de ter percorrido o Oceano Atlântico em lama e de ter arruinado os meus sapatos novos, e fui para casa, a minha pequena casinha, o meu pequeno estúdio, com as minhas pequenas coisas. Sabe tão bem. Abri a porta, fui à casa de banho, tudo normal até que acendo a luz da sala. Normal? Sim, normal. Anormal quando o nosso namorado está sentado no sofá com um ramo de rosas gigantesco, uma garrafa de champanhe e um sorriso de orelha a orelha, que, confesso, não foi a melhor opção.
- Ai que susto, Gustavo!!
- Olá, amor!
- Olá? Que é que estás a fazer aqui? E como é que entraste? - disse eu, enquanto o empurrava e me tentava livrar dele, por ele me querer dar um daqueles beijinhos à esquimó que faz sempre questão de dar e que eu acho a maior piroseira do mundo.
- Então? Não te lembras? - Merda. Voltei-me a esquecer do dia em que começámos a namorar, ou do aniversário do aparelho da avó.
- Hum…Parabéns!- disse eu.
- Parabéns? Ok, pode ser. Então?...Não te lembras, pois não?
- Desculpa, não…
- Hoje faz um ano que abri a minha firma de advogados! Gustavo & Leitão Associados! – Se houvesse grilos na cidade eles tinham cantado naquele momento. Aniversário da firma? E ele vinha comemorar comigo?
- Oh, Gustavo! Por amor de Deus! – disse eu, ficando parada em frente dele - Vá, pira-te daqui!
- Amor…mas, mas, então eu vim aqui todo apetrechado com flores e champanhe para uma noite de amor.
- Gustavo, volta para a tua mulher. Já chega.
-Não te vou largar nunca!
- Bom, eu tentei! Agora chispa daqui- disse eu, pegando nas flores, no champanhe e atirando o Gustavo para fora da minha casa. Pena que não o consiga atirar para fora da minha vida.
- Sabes que te amo? - gritava ele na escada, já com a porta fechada. Santo Deus- Amor! Eu adoro-te! – Já referi que eram duas da manhã? - Nunca te vou deixar! - Só quando ouvi a dona Fátima do terceiro esquerdo dizer uns quantos palavrões e manda-lo calar é que relaxei. O Gustavo é casado. Muito bem casado. Advogado de sucesso, tem a mania que pode tudo nesta vida. É chato como tudo, terrivelmente romântico e assustadoramente sentimental. Porque é que eu estou com ele? Porque gosto daquele estafermo. E mais não digo. Acabo por me sentir muito sozinha, acho que é isso. Não sou de cá, sou de Tomar. As saudades apertam quando falo da minha terra, das ruas, vielas, do Convento de Cristo, dos meus Templários… Sim! Meus. Eu nasci mesmo no Convento de Cristo. A minha mãe, armada em valentona, decidiu ir a uma visita guiada ao convento, quando se mudou para Tomar, e no meio da explicação do guia deram-lhe as dores. Como sempre fui uma moça muito apressada, não esperei duas vezes e comecei logo a querer sair. A minha mãe só teve tempo de se encostar a uma coluna abrir as pernas e…voilá! Eu! Quem me amparou foi aquela que depois foi minha madrinha, uma senhora do grupo de visita, espanhola, a Iolanda, pessoa que ainda hoje me telefona de Andorra todas as semanas só para perguntar se já arranjei um namorado. Claro que ela, nem ninguém, sabe que eu estou com o Gustavo. Mas também, se fosse a eles, nem queria saber! Eu própria me pergunto como é que o aguento, a ele e à situação dele, durante dois anos. Assim, nasci no coração dos Templários, amparada por uma espanhola e embrulhada num mapa do convento. Tenho a honra de dizer que o meu primeiro berço foi a escadaria do convento e que a primeira água que me lavou foi água benta! Devia ser abençoada. Mas não sou, nem de longe. Ou seja, resumindo e concluindo, o meu amor por Tomar e especialmente pela Ordem dos Templários transcende todas as fronteiras e, por isso, todas as noites, me imagino lá. Quando era pequena ia a animações, espectáculos de fogo, ia ouvir os contadores de histórias…Saía da escola ia para o convento. Os senhores de lá já me conheciam. Era a minha segunda casa. Quando chagava perto da hora de fechar tentava-me esconder sempre num sítio qualquer só para poder passar a noite lá dentro. Sozinha. A minha avó dizia-me o convento à noite tinha um cheiro diferente; que as pedras falavam e que a água do laguinho do átrio interior descia, desaparecia, e que se abria uma porta para uma passagem secreta, que os maçónicos usavam. Queria tanto poder ter comprovado tudo isso, mas o senhor Alberto, segurança, encontrava-me sempre. Nunca fui muito boa a esconder-me ou a esconder coisas, sou melhor a encontra-las. E, por isso, estou a preparar a minha tese de mestrado sobre os segredos ocultos da Ordem dos Templários. Tenho a escrito quase toda nos bancos de jardim da Quinta da Regaleira. Sinto-me mais perto de Tomar e mais perto dos Templários. Formei-me em História e agora estou a tirar um mestrado em História e Cultura das Religiões. A minha tese…uma coisa complicada. A minha cabeça…uma coisa ainda mais complicada. Eu? Estou entusiasmada e empenhada. Exige muito de mim, exige muita pesquisa e muito empenho. Como ainda tenho tempo para a fazer, faço as coisas com calma. Entretanto, para enriquecer a minha pesquisa (e a minha loucura!) criei uma espécie de “Ordem dos Templários online”, onde as pessoas se podem inscrever como “cavaleiros”, discutir assuntos no fórum, publicar trabalhos, enfim, criei uma plataforma na Net que possibilita às pessoas entrar no mundo dos templários e na busca pelo Santo Graal. Ok, eu sei…Vá, lá! Não é tão idiota como parece! Tenho bastantes utilizadores e cada um tem o nome de um cavaleiro! Não é mágico? Acho genial, modéstia a parte. Neste momento estamos a planear um jantar temático na Quinta da Regaleira, mas, ninguém se mexe. Querem, querem, mas eu é que tenho de andar para a frente. O que não é totalmente injusto, porque sou eu a dona daquele cantinho cibernautico. Naquela noite, quando liguei o fórum, mesmo já sendo umas três da manhã, a discussão estava acesa:
“Lady Lídia”- Eu acho que o jantar devia ser de época! Medieval! *jokas*
“Sir. Arthur”- Eu cá concordo com a lady Lídia. Um pernil de javali com pão e vinho vinha mesmo a calhar! Heheheh.
“Sir. David”- Mcdonaaaaaaaaaaaaaalds! =D
“Lady Lídia”- Epá, não sejas assim…tipo…Macdonalds? Cai na real! *jokas*
“Sir. David”- Mas assim todos gostamos do jantar! Não gosto de javali.
“Lady Lídia”- Xiu!
Ena…que empolgante. Uma pessoa tem um site destes, publica coisas geniais lá e os gajos só falam em pernas de javali. Quando fiz o login e entrei no fórum, reparei que, no total, tinha conseguido mais 4 visitantes no site durante o dia todo. Uma vitória! E que um deles tinha publicado algo na secção de publicações livres. Antes de conseguir aceder à página alguém me mandou um “Olá”, em privado, no fórum. Um tal de…
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