quinta-feira, 28 de outubro de 2010

1887, Maria Francisca outra vez

Mais uma noite mal dormida. Não estou habituada a lidar com pessoas novas, parece que qualquer coisa que escape à rotina me põe num estado de inquietação. Lá adormeci depois de muitas voltas na cama, pés de fora e lençóis no chão. Nisto ouço alguém bater à porta do meu quarto, primeiro baixinho e cautelosamente e depois mais ruidoso que me fez levantar num salto. Pensei que fosse a Antónia ou a mãe sei lá! Nunca me passou pela cabeça que o Rafael se atrevesse a procurar-me, logo assim a meio da noite.
- Estás acordada? – sussurra Rafael.
- Que achas? Com este barulho até me admira ser a única de pé! Tens a certeza que mais ninguém acordou? – pergunto em pânico.
- Absoluta! Temos o caminho livre! Veste qualquer coisa quente que está frio lá fora.
E com isto desapareceu. Tentei vestir-me sem fazer muito barulho. Tive de esvaziar o baú para chegar ao casaco mais quente que tinha. Desci as escadas de meias calçadas e com as botas nas mãos para não fazer barulho. No meio da escuridão lá consegui encontrar a porta da rua, hesitei, olhei as escadas mas estava tudo silencioso. Fechei a porta lentamente. Imediatamente as minhas mãos gelaram e os meus pés doíam. Que inteligente! Nem me tinha calçado! Mas onde está ele?
- Aqui! Vem antes que a Chiquinha acorde e comece a ladrar!
Quando começámos a afastar-nos da casa é que me apercebi da situação. Saí de casa sem os meus pais saberem com alguém que nem conheço. Mas como é que me deixei levar? Nem disse não, não concordei, não me desfiz em risinhos parvos de miúda apaixonada. Depois percebi que isto nada tem a ver com o Rafael, mas com a minha vontade de descobrir, de explorar para além do que conheci a minha vida toda.
- Vamos para aqui por um pouco! Temos de esperar que amanheça ou não vamos conseguir entrar na floresta. – explicou.
Novo silêncio. Sentei-me e comecei a fazer uma trança no cabelo, precisava de ocupar as minhas mãos que tremiam descontroladamente. Sentia que não devia fazer aquilo que estava a arriscar a confiança que os meus pais tinham em mim. Pensei em levantar-me e voltar para trás mas as minhas pernas não obedeciam. Ele deve-se ter apercebido porque nesse momento perguntou “Passa-se alguma coisa?”. Mas a preocupação desvaneceu-se logo que os primeiros raios de sol surgiram e logo nos pusemos a caminho. Á medida que avançámos comecei a reconhecer o cenário, passámos pelo sítio em que a Antónia me tinha deixado no outro dia e continuámos a subir. De repente parámos!
- Era aqui que te queria trazer. Á Quinta da Torre da Regaleira!
Olhei para cima e conseguia distinguir uma torre no meio do arvoredo com os vidros das janelas a reflectir a luz do sol. Era muito cedo por isso o palácio estava silencioso, só ouvíamos os pássaros e som dos ramos agitados pelo vento frio. O muro cercava toda a propriedade mas o Rafael conhecia uma entrada secreta que dava para o jardim e para a capela. Perguntei-lhe se podíamos andar ali mas ele pegou-me na mão e continuou até ao palácio. Fiquei paralisada com aquela visão! Nunca os meus olhos tinham admirado algo mais belo. Quando olhei para o Rafael estava ele com um olhar triunfante e um sorriso de rapazinho. Quando lhe tentei agradecer ouvimos passos e desatámos a correr, num ápice já estávamos fora da Quinta.
- -
Chegámos a casa a tempo de não sermos apanhados. Meti-me debaixo dos lençóis e adormeci de imediato, estava feliz e em paz.
- Acorde menina! Já são horas para se estar de pé, não a preguiçar na almofada!
- Oh Antónia só mais um bocadinho! – supliquei.
- Nem mais um bocadinho que os seus pais já estão lá em baixo à mesa. E a menina aqui deitada! Não pode ser! Não é nenhuma criança!
Senti-me bem com esta nova forma de tratamento. Nem sei a que se deve mas ao menos a Antónia apercebeu-se que já não sou um bebé que precisa de atenção a toda a hora. Talvez me ajude a sair deste sufoco. Doía-me a cabeça e estava com cara da cor da parede branca, mas vesti-me e desci as escadas com a pouca energia que tinha.
Cheirava a pão quente e vinha um calor tão bom da cozinha. O pai e a mãe já estavam de saída assim como Rafael que os seguia, mudo e com aquele ar submisso que se apodera dele sempre que está perto do meu pai. Quando a porta se fechou senti-me feliz por ficar em casa, tão quentinha e acolhedora. A Antónia trouxe-me o pão e sentou-se ao pé de mim com o Joãozinho ao colo. Ele pegava nos bocadinhos de pão e fazia pequenas bolinhas que depois deixava cair para a Chiquinha comer. Antónia ria e dava-lhe beijinhos, abraçava-o e falava-lhe baixinho.
Como estava cansada inventei uma desculpa e subi para o meu quarto para me deitar. Não fechei os olhos, fiquei antes a olhar a janela embaciada, o papel de parede amarelo, o tecto de madeira. Sentia-me bem naquele espaço só meu onde eu mandava. Era desarrumado e nos armários acumulava-se o pó, proibi que mexessem nas minhas coisas. A mãe a principio não gostou da ideia, chamou-me de “menina mimada”, mas o pai achou que era justo já que estava proibida de me afastar de casa.
O cansaço venceu-me finalmente e eu adormeci profundamente.
Acordei finalmente quando ouvi barulhos vindos da rua. Olhei pela janela e vi o Joaquim e o meu pai a correr e a gritar pela Antónia. Abri as janelas mas logo o meu pai exclamou “Maria Francisca fecha imediatamente essa janela!”. O meu nome, aquele de que às vezes me esqueço. O Rafael trazia a minha mãe pelo braço e eu corri a ter com eles. O meu pai estava pálido e ofegante, não consegui acabar as frases por mais que eu implorasse por uma explicação para tanta agitação.
- Eles encontram-nos! Temos de sair daqui! – gritou a mãe.
- Nem pensar nisso! Isso só lhes dá mais uma razão para confirmarem as suspeitas e seguirem-nos para onde formos. Não podemos fugir para sempre. Deixa-os vir aqui e confrontar-nos, garanto-te que não encontram nada! Aliás vou já tratar disso! Antónia acende a lareira! – ordenou.
Correu até à cava e com a ajuda de Rafael despejou dezenas de pergaminhos no fogo. Nunca tive tão perto de descobrir a verdade e agora ela estava a arder à minha frente. A minha mãe chorava, provavelmente porque adivinhava o que vinha a seguir.
- A Maria Francisca e o João vão ter de sair daqui! Se alguma coisa correr mal o melhor é eles estarem bem longe daqui. Não correm o risco de ser perseguidos já que ninguém sabe da sua existência.
Eu vi as lágrimas da minha mãe e sei o quanto lhe custava a separação mas não disse nada. Foi tudo tão rápido que nem tive tempo para me aperceber de que hoje ia deixar aquela casa, a casa que tantas vezes me pareceu uma prisão. Não havia tempo a perder e por isso rapidamente as malas foram levadas para a carroça onde o Joaquim esperava nervoso e o Rafael sentado a seu lado. Ficou decidido que iríamos ficar com o meu tio Manuel, irmão do meu pai que mora em Tomar. Depois logo se vê.
Não houve tempo para grandes despedidas, a minha mãe só reteve o Joãozinho alguns minutos no colo. E assim partimos como se nos fossemos ver amanhã, mas sem certezas. O cheiro a queimado só agravou o meu desespero.

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