quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Genova, Itália, 1159

Despertei abruptamente como se durante o sono alguém me tivesse deliberadamente empurrado para um abismo. Do piso inferior vinham sons de angústia, medo e espanto que enchiam o piso de cima como foguetes coloridos que se expandiam por toda a habitação. Apenas um nome se conseguia distinguir, Rafael.
Como se por alguma razão me tivessem nascido asas, voei até junto dos outros para perceber o que se passava. Passei pelos quartos, cozinha, sala, recepção, porta…..fogo! Os campos de trigo que tinha admirado na noite anterior encontravam-se agora obrigados a dançar com as labaredas douradas que cresciam com as correntes de ar e serpenteavam cada vez mais para perto da estalagem. Ao longe vi a razão dos gritos dos meus companheiros e tive a pior visão da minha vida.
Ver o fogo a consumir a paisagem, outrora pacifica, era suficientemente horrendo de se assistir; mas ver o Rafael no meio desse mesmo inferno despertou em mim uma reacção de paralesía e impotência perante toda a situação.
- LIENA! - Os braços do meu pai tentaram aconchegar-me e proteger-me, mas naquele momento confesso que o agradecimento deu lugar a uma raiva inconsolável, libertando-me dele.
- Porque raio estão todos aqui especados!! porque não o acudem?! Que se passa convosco??!
- Liena, anda, temos de nos por a caminho o mais rápido possível antes que cheguem até nós.
- Pedro..por favor..diz-me o que está a passar..imploro-te.. - supliquei-lhe, ele era meu amigo desde que me lembro, quando ambos fingia-mos ser cavaleiros defendendo um tesouro.
- Vês o monte atrás das labaredas?
- Sim…mas..são!
-Mouros…eles vêm muito mais rápido do que qualquer um de nós imaginou..até Gualdim está incrédulo..Está neste momento a elaborar outro roteiro mais seguro e mais rápido…basta sairmos de Italia sem eles saberem que fronteira utilizamos e despistamo-los! Foi o Rafael que começou o fogo, para os atrasar! Mas como é obvio aquele idiota quase que se matou na própria ideia. Lá vem ele!
Não sei explicar se achei aquela imagem linda ou simplesmente aterrorizante. Se me sentia mais aliviada ou com vontade de lhe ofertar uma valente bofetada. Ele corria, vestido de negro, com o cabelo louro a reflectir as chamas que o rodeavam. Era rápido, suficientemente rápido para minha felicidade. Mal nos alcançou nem tive tempo para dizer fosse para o que fosse. O olhar dele era tão impetuoso como as palavras que disparou.
- Que raio estão vocês a fazer aqui, ainda?? Estão com vontade de comer o churrasco um do outro?
- Estávamos preocupados contigo seu pobre e mal agradecido! Já para não falar nesta señora aqui. - disse Pedro enquanto se afastava para preparar os cavalos e olhava para mim de esguelha.
- Prefiro ser mal agradecido do que agradecer-te e estares ferida por minha causa. - disse sem olhar para mim.
- Mas afinal porque nos perseguem eles?
- Porquê? O teu pai não te deu nada?
- O embrulho!
Entrei novamente na estalagem, já enegrecida pelas cinzas, passei novamente pela recepção, sala, cozinha, quartos, subi o vão de escadas, entrei no meu quarto com o coração a saltar como se quisesse chegar lá antes de mim. Lá estava ele…junto dos pergaminhos..e por um momento vi um brilho dourado a surgir do embrulho azul..que será ist..
- Liena? Vamos?
- Sim pai.
Peguei em tudo, vesti-me (afinal de contas tinha literalmente voado da cama), enfiei os embrulhos no casaco vermelho e fui para junto do grupo.
O meu lindo e fiel lusitano já me esperava, um verdadeiro amigo este meu cavalo, Angelus, uma prenda da minha querida mãe, era ainda um potrinho nesse tempo.
Aprontei-me e olhei para o grupo, estavam todos nervoso e ainda assim confiantes. O meu pai tomou a liderança.
- Cruz vermelha ao peito! Hora de partir!
- E… rumo a onde? - Perguntei

*

O dia ía a meio quando chegamos a Abadia de Mirasole em Opera, se tudo corre-se bem seria lá que iríamos despistar a pista dos mouros. Famintos e cheios de dores, devido aos dias passados a cavalgar a galope por terreno incerto e acidentado, ansiava-mos apenas por um local para descansar, desfrutar dos mantimentos que nos tinham providenciado e, mais importante, elaborar uma rota segura longe dos olhares protestantes e curiosos.
Aliviamos os cavalos e entramos dentro da abadia onde um padre revia o sermão e anotava qual o capitulo da génesis a referir na próxima missa. Ao ver-nos, 7 seres humanos, sujos, imundos, porcos e cansados, o padre, já de meia idade, recuou nos passos, mas ao invés de se retirar a correr como eu esperava, deixou-se ficar. Fintando-nos como se fossemos obras de arte a contemplar. Talvez tenha reconhecido a nossa cruz. Afinal de contas eu não conhecia o seu significado mas havia sido ofertada pelo Padre José da pobre capela de Tomar.
Aproximou-se do meu pai e confirmou o que suspeitara.
- Que far tu qui? Qui te pavé dato questo incrocio?- questionou apontando para a cruz rosada.
- Il mio nome è David e sono un guerriero dal Portogallo. Il mio servizio sebbene sia per il Dio. - Respondeu o meu pai dizendo que vinha de Portugal e cuja missão visava o próprio Deus. A mim estas palavras deixaram-me ainda mais confusa sobre o que estava-mos a fazer tão longe de casa, mas para minha surpresa, ao padre pareceu fazer sentido.
- Sì effettivamente, siete 7, ciascuno protettivo da un angelo unic. Quello significa che avete de tesoro? - perguntou o padre…o tesouro..referia-se ao embrulho disso não tinha duvida.
- Ma perché siete qui? qualcosa è accaduto? - continuo.
-Sono impaurito in modo da…. - anuiu o meu pai - i mouros di the hanno trovato la nostra traccia, come tale che avessimo è venuto qui fa li ha allontanati (infelizmente sim…os mouros encontraram-nos e por isso mudamos a nossa rota para tentar despista-los)
- Capisco che. il mio nome sia Romeo e sono un sacerdote dall'ordine del tempio. .so sono informato della vostra causa. siete ben venuto qui ed andrete domani dal fiume, essi non potete seguirvi più. (entendo…o meu nome é Romeo e sou um sacerdote da órdem do Templo, como tal estou a par da vossa causa. Sejam benvindos aqui, poderão partir amanhã pelo rio, assim eles perderão o trilho).
Posto isto só me ocorreu, amén…

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