Os primeiros raios de sol abraçaram as terras de Ni'lin, enchendo-as de rios
dourados como se estes fossem parte das labaredas de uma fogueira de Beltain. Era
hora de continuar. Ao chegar às ruínas de Ankara e olhando para a magnificência das
paisagens, ninguém era capaz de descrever os horrores que tinham marcado a noite
que antecedera a jornada. Nada importava agora se não voltar à terra natal com o
tesouro material mas cobiçado pela humanidade, quer para o proteger ou para o
destruir.
A sombra dos cavalos apresentava-se pela direita indicando o início das 16
horas. Dois montes avermelhados mostravam indícios da impermeabilidade do solo e se
começasse a chover como era previsível o grupo iria ter grandes dificuldades para
chegar a Genova antes que a Lua perdesse novamente a sua luz, escondendo-se atrás
do Sol. Zagreb parecia-lhes agora um caminho amaldiçoado como se o seu propósito
fosse desafiar a força e vontade dos Nobres cavaleiros.
As nuvens começaram a cavalgar pelo céu trazendo os primeiros trovões e a
chuva que mais tarde se transformaria numa cortina espessa e impenetrável.
- David!! Assim não vamos conseguir! Estamos a pôr em risco o nosso propósito!
- Advertiu António, um dos cavaleiros mais robustos que ocupava a sua posição como o
último do grupo.
- Não podemos abrandar agora! Não estamos em segurança enquanto não
pisar-mos as terras de Genova! - Replicou, agarrando fortemente o embrulho que
carregava - Quando chegarmos, a Helena já lá estará à nossa espera, não a podemos
deixar desamparada.
Por entre a chuva, que já se instalara, e com os relâmpagos a iluminar o caminho
de pedra, os cavalos assustados, corriam a um ritmo surpreendente. Os guerreiros
carregando a sua cruz vermelha ao peito sentiam os movimentos dos seus animais
como um prolongamento do corpo. Cada músculo, cada respiração ofegante, cada
relinchar, parecia relembrar todo o esforço que tinham feito para chegar até ali.
O sol do dia seguinte já começava a esconder-se por entre os pinheiros robustos
quando ao longe se destacou uma silhueta. Segundos mais tarde essa forma deu
origem a uma jovem de vestes vermelhas e cabelo longo e castanho a condizer com os
seus olhos vivos.
- Helena! - gritou David ao avistar a filha montada num lusitano negro e imponente.
- Pai! Conseguiram! - respondi ao vê-los a cavalgar na minha direcção. Ansiava
por ver cada um deles. Rafael com a sua juventude a transbordar…já para não falar na
beleza invulgar; Gualdim, o homem mais sensato que já conhecera; António, a
determinação pessoa, inigualável nas artes da espada; Miguel que ansiava seguir o
caminho da Igreja mas que desprezava os maneirismos e a beatice que se apoderava
cada vez mais dos mestres terrenos deste campo em todo o mundo; Pedro, um dos
meus melhores amigos e explorador nato; e, por fim, o meu pai, David, o mais velho do
grupo e orientador da missão.
Como sentira a falta do meu pai, principalmente durante a viagem que fiz de
Neo Verona a Genova.
Abracei-o com todas as forças que tinha, como se deste modo os meus
sentimentos pudessem passar para ele.
- Estás cada vez mais parecida com a tua mãe , minha filha, estás linda. - Disse-me,
com os olhos a encherem-se de lágrimas à semelhança dos meus.
- Estás é cada vez pior - ouvi uma voz atrás de mim.
- Rafael..sempre o mesmo..será que não cresces?
- E tu? Vieste sozinha até Neo Verona buscar os pergaminhos e agora aqui
estás..longe de casa e sem conhecer ninguém...e chamam-me irresponsável a mim!
- Vês, é sinal que somos parecidos. - disse eu enquanto gozava do momento,
afinal de contas, por entre as ofensas, ele acabara de me chamar corajosa.
- Somos? Discordo, eu sou claramente mais bonito.
- Ahhhhh…já cá faltava…
Tinha de ser, aquela pessoa era sempre a mesma coisa, com uma missão
honrosa ou por entre as porcarias com mamas para fora que rodeavam as ruas por todo
o lado, ele era sempre a mesma peça.
Ao colocarmo-nos de novo a caminho, desta vez em direcção à estalagem onde
iríamos pernoitar, olhei novamente de relance para aquele convencido ("eu sou
claramente mais bonito"). Confere.
- Está ali! - Avistou Pedro com uma expressão de claro alivio ao reconhecer a
estalagem. - Comida e roupa lavada! E se tivermos sorte um colchão de verdade!
Dexe-mos em direcção à estalagem de pedra. Ou era do cansaço que se
apoderava de todos os nossos sentidos, ou aquela estalagem era das mais bonitas que
tinha visto. Erguida no cimo de um monte à beira de um campo de trigo, agora
verdejante, ela era feita de pedra branca como alabastro e as janelas ornamentadas
por pequenas portas azuis onde alguém havia desenhado a dourado os contornos de
uma cruz habilmente escondida por entre as asas de um dragão em voo. Chamava-se
Escalus Angelorum e os proprietários eram velhos amigos de família, oriundos de
Tomar. Sentiamo-nos em casa.
Depois de um glorioso banquete, vinho, e de matarmos as saudades ao som de
um alaúde, estava mais do que na hora de descansar a mente e o corpo para amanha
voltar à jornada.
- Leina - ouvi alguém chamar à porta quando me preparava para deitar. Reconheci de imediato o diminutivo que a família e amigos escolheram para me distinguir da minha mãe.
- Boa noite pai - cumprimentei-o ao dar-lhe passagem.
- Não me vou alongar muito..Estamos todos muito cansados e por enquanto,
quanto menos souberes melhor será para ti. - explicou-me com um olhar iluminado
pelas velas da mesinha de cabeceira.
- Já sei..não tenho idade suficiente para perceber destas coisas..
- Claro que tens! - interrompeu-me com um ar de gozo. - Mas é melhor
ficares a par de tudo quando chegar-mos a Portugal. Lá compreenderás. Por
agora peço-te que apenas guardes este embrulho com alma e coração junto aos
pergaminhos que trouxeste de Neo Verona.
Colocou o embrulho de seda azul escura em cima da cama e encaminhouse
para os seus aposentos dando-me um beijo na testa.
Ao observar este novo e misterioso objecto na minha decoração a minha
imaginação voou até Tomar. Sabia que estava a ser construído lá um novo
convento e tinha a certeza que lá saberia o verdadeiro objectivo da jornada e o
conteúdo daquele embrulho. De repente dei por mim num outro sitio, num outro
tempo, sonhava.
- RAFAEL!
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