sábado, 23 de outubro de 2010

Damas e Nobres Cavaleiros

- Vá, agora tens de rir! Smile!!
- Não quero rir, tio Pedro. Só me apetece chorar...
-Então Lena? O teu tio mais querido chega do Luxemburgo e tu és assim?- O meu tio Pedro: Um solteirão de meia idade, cabelo escasso, barriga avantajada. Suspensórios, bigode farfalhudo, fala pelos cotovelos e adora...ME!- Gosto tanto de ti, Leninha...
- Sim tio...- dizia, enquanto ele me abraçava como se não me visse há anos. Na verdade não me via há meses. Imigrou para o Luxemburgo muito novo...É um quase irmão do meu pai, David, e digo quase porque não é. São amigos de infância, "companheiros de luta", como diz o meu pai.
- Nem vais acreditar no que me aconteceu!- "aí vamos nós", pensei- No outro dia, estava eu muito bem a passar na rua e o que vejo eu? Um incêndio! A sério! Um incêndio! Mas não era um incêndio normal, oh não! Era num daqueles campos de plantação que há aí à beira da estrada.
- Em Lisboa? Não sei de nada...
- Perto. Nos arredores. Para os lados dos subúrbios.Mas isso não interessa! O que interessa é que eram já quase oito horas, andava, pois, a fazer o meu jogging, e vejo aquelas labaredas a lavrarem o campo como se não houvesse amanhã! As pessoas, ena pá, as pessoas todas passadas, a gritar, a dizer que estavam lá no meio os homenzinhos do campo de cultivo! Um horror...A sério! Heis então que uma das mulheres que assistia se vira e diz " Ai, credo! Que vem lá um homem!", e vinha. De um momento para o outro aparece um homem vindo do nada, aliás, vindo do fogo!- o tio Pedro parou, bebeu um gole de água e lançou-se à história novamente- Passou por nós numa gaspia que ó visto! Todos dizem que foi ele que ateou o fogo.
- E foi?
- Sei lá eu! Perguntas bem mas não sabes a quem...Ele apareceu, fugiu e logo depois chegaram mais bombeiros. Salvaram uma data de gajos que estavam do outro lado.
- Não eram homens das culturas?
- Não, isso viemos a descobrir depois! Eram uns manfios quais quer- disse, dando uma valente dentada numa baguete seca.
- Mas que emocionante...- disse eu.
- Tu cala-te! Aquilo foi uma daquelas rixas dos mafiosos, dos gangues. Aquela malta é marada- dizia enquanto comia- a sério!- insistia- aquela malta...não se metam com eles- Podem agora pensar o porquê desta converseta toda. Por nada. Simplesmente o meu tio é assim. Fala, conta, embeleza, reconta e conta novamente- o manfio- continuava- deve andar agora para aí fugido da polícia. Tu toma cuidado, Helena! Ui! Mesmo em Lisboa, estas coisas, ai, ai...
-Oh, tio. Eu tenho cuidado, deixe lá- Dito isto liguei o meu computador. Olha,lá estava ele, o guerreiro das trevas, ou da luz, o Rafael. O meu portal tem tido algum sucesso e o jantar está marcado para breve. A quantidade de cavaleiros e damas adicionadas no fórum são cada vez mais e cada vez mais se fala de templários, do Santo-Graal, cada vez são mais os artigos publicados no site, cada vez leio mais sobre isso e cada vez mais sugestões para o tema da minha tese. Enquanto lia um artigo sobre a relação entre as estrelas e a ordem dos templários, heis que surge:

"Rafael- Quem é vivo sempre aparece..."

"Guen- Rafael...olá, tudo bem?"

"Rafael- Sim. E tu? Ainda de volta da tese?

"Guen- De volta? Ainda nem a comecei!"

"Rafael- Já vi no fórum que o jantar da Ordem já está marcado! =D"

"Guen- Sim! É já este fim de semana e já está tudo marcado"

"Rafael- Sempre é na Quinta da Regaleira?"

"Guen- Sim, já está marcado para sábado à noite na Sala da Caça"

"Rafael- Ena...a coisa é mesmo em grande!"

"Guen- Sim, considero um investimento...E tive ajuda também de alguns amigos".

Foi realmente com a ajuda de amigos e com algumas poupanças que consegui fazer o jantar na Quinta da Regaleira, alugar a sala, tratar de tudo. Mas valeu a pena. Quanto à vestimenta...Protocolo templário! Já aluguei o meu vestido e está pronto a ser usado. O dia do jantar chegou e eu, em pulgas, comecei-me a preparar às quatro da tarde. Quando me olhei ao espelho nem queria acreditar...não era eu, de todo, que estava ali, na frente do armário, reflectida naquele espelho, dentro daquele vestido. Por momentos até pareceu que a cor do meu cabelo tivesse mudado...O meu alourado estaria mais acastanhado? O meu cabelo é castanho mas fruto de um belo trabalho de um cabeleireiro tenho uma cor a fugir mais para o loiro. Gosto de lhe chamar castanho dourado.Quando acrescentei a grinalda de flores ao cabelo meio encaracolado, foi o toque final. O meu vestido, de veludo, vermelho escuro, de mangas pendentes, caía pesadamente para o chão. O decote realçava-me o colo e deixava aparecer um colar de prata, com um medalhão antigo. O cabelo, comprido, ligeiramente atado atrás estava realçado pela grinalda de margaridas e flores de era, feita por mim. Um achado em pleno inverno! Decidi levar uma capa preta, com um capuz, que tenho, e uma bolsa de veludo preta, que uso somente em casamentos e baptizados. Antes de sair de casa olhei-me, pelo menos, umas mil vezes ao espelho. Sim! Por Deus! Ia ser a anfitriã, ia conhecer pessoas e ia conhecer o Rafael, que, claro, não deixa de ser uma pessoa. Bom, pessoas à parte. Saí de casa. A senhora do terceiro esquerdo apanhou-me na escada e ao invés de me dizer “mas que menina tão linda” disse:
- Olá, menina! Está boa? E o seu tio…está por aí? É tão simpático…”- e pronto, o tio Pedro encontrou uma namorada. A dona Jezebel, ou Bela, como lhe chamamos, é uma amor de pessoa e, vejam só, está interessada no meu tio Pedro! Não que ele não seja um óptima pessoa. Mas! Enfim…
- Olá, Dona Bela, como está? O tio está bom…arranjou trabalho num hotel e agora trabalha lá.
- Muito bem, ainda bem que ele se está a arranjar por cá! Olhe, um bejinho! Adeus, minha querida- e lá foi ela, a dona Bela, cinquenta e poucos anos, sempre arranjada, saltos altos e mala de mão. Quando peguei no carro pensei: Devia ser proibido andar de carro com esta roupa, mas Sintra ainda é longe de Lisboa, deixei-me ficar e para entrar no espírito fui a ouvir até lá música medieval. Fui a primeira a chegar, ainda pus o carro longe, mas fui a primeiríssima. O meu queixo caiu quando vi a Sala de Caça totalmente espectacular e decorada a rigor. “Ai…meus ricos euros. Foram tão bem gastos”, foi o que pensei. Na verdade, aquela sala estava digna de um filme! De um “O primeiro cavaleiro”…Se me entrasse o Richard Gere pela porta, linda porta, aliás, eu não me iria surpreender e cairia em seus braços! Olhei, olhei, toquei, cheirei e só conseguia esboçar o sorriso mais parvo de sempre! Estava tudo lindo, estava feliz e ia conhecer os meus companheiros da Ordem!
Passado pouco tempo começaram a chegar as pessoas. Um, dois, cinco, dez, éramos 25. Conheci a Lídia, o David, o Gualdim, que se tornou um grande amigo, entre outros. Os homens, uns vestidos com armaduras, outros com vestes mais simples, o Gualdim um autêntico templário! As mulheres seguiam a mesma linha que eu, umas mais avantajadas outras mais contidas. Só o Rafael não tinha dado as caras. Antes do jantar, enquanto conversávamos, um dos empregados, igualmente vestido a preceito, veio falar comigo, dizendo que a organização tinha preparado uma pequena surpresa e se essa surpresa poderia ser agora. Sem saber o que era, consenti. Naquele minuto entram pela porta três homens a lutar, com espadas, esgrimistas, com certeza. Lutava a sério, vestidos exactamente como os templários. Tinham uns capacetes, não lhes conseguia ver a cara. Encenaram um pequeno teatro e no final, um deles, aquele que considerei como mais forte, acabou com a vida de um (ficcionalmente, claro) e fez com que o outro fugisse. As pessoas bateram palmas (eu mais que todas juntas!) e no final ele tirou o capacete.
- Lady Guinevere…
- Sim…- disse eu, em resposta.
- Rafael – disse ele. Morri e ressuscitei naquele segundo - Não te lembras de mim?
- Oh, nobre cavaleiro – nobre cavaleiro? Eu não disse aquilo…- Claro que me lembro...Pelo que vi aqui sois bravo! – fiquei parva comigo mesma. Ele sorriu e pegou-me na mão.
- E vós sois tal e qual como eu imaginei. Com essas flores no cabelo e tudo – corei, corei, corei, oh, meu Deus eu sentia-me a ferver! Mas que homem…Devia andar pela mesma idade que eu, alto, o cabelo nem curto nem comprido, acastanhado, dourado, sei lá, giro! Uns olhos cor de mel mais doces que o próprio mel, um sorriso, essa era a melhor parte, ai, um sorriso maravilhoso. Atenção! Não, não estava apaixonada.
- Como é que…bom, tu fazes parte da equipa de animação?
- Sim, sou actor. Faço parte do grupo de teatro da Quinta.
- Nunca me tinhas dito…
- Perdoai-me nobre dama…- disse ele, ai, com aquele sorriso. Corei pela milionésima vez – mas não me queria meter. Assim fizeste tudo sozinha e eu providenciei a animação. Normalmente não fazem, foi um extra…
- Ena! Obrigada.
- E o teu nome verdadeiro é…-perguntou.
- Quereis mesmo saber? – Ele olhou-me bem, bem dentro dos meus olhos, tocou-me na alma e voltou a sair.
- Não. Não quero.

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