segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O cavaleiro das trevas

Rafael. Era o nome da pessoa que me mandava um "olá" privado, no fórum. Poderei eu suspeitar de alguém que tem como imagem de apresentação um cavaleiro das trevas? Bom, quem sabe…Só saberia se respondesse e respondi:

“Guen - Olá, pessoa que desconheço por completo!"

"Rafael- Sim, de facto não me apresentei...Rafael, gentil cavaleiro ao seu dispor. =P"

"Guen - Oh! Não me digas. Ninguém diria...-.-"

"Rafael- És sempre assim?"

"Guen- Hum...sim...ouve lá! Tu nem me conheces e começas já a mandar bocas, é?"

"Rafael- Ena, ena! Alguém teve um dia mau hoje"

"Guen- -.-...tipo...what? Enfim, vou ver o que deixaste na área das publicações"

"Rafael- Espera! Não vás! Ainda não...Aliás, nem devia ter publicado aquilo."

"Guen - Então?...Agora não consigo abrir o ficheiro. Deves ter posto aquilo num formato qualquer que não o normal."

"Rafael- Não, simplesmente apaguei".

Naquele momento quase que caí da cadeira a baixo. Um homem vindo não sei de onde publica uma coisa qualquer no meu site, fala comigo como se me conhecesse há anos e arma-se em parvo. Normal, hoje em dia. Ai...Sempre pensei que não pertencia a este tempo. Sempre! Desde miúda que me lembro de sonhar com cavaleiros e princesas, cavalos e armaduras, história épicas, castelos magníficos, lagos espectaculares, a natureza no seu estado...natural! Antigamente os relacionamentos entre homens e mulheres não eram assim, meu Deus. Era tudo tão civilizado, tudo tão mais misterioso, tudo tão mais estudado, tão mais romântico-trágico. Gostava de viver no tempo em que os homens lutavam pelas mulheres, que se matavam pelo seu amor, faziam duelos! Lutavam com espadas! Enfrentavam chuva, frio, terríveis tempestades, mostravam a sua valentia!! Agora? Aparece um gajo qualquer que começa a falar na net, as pessoas conhecem-se, saem, blá blá blá, sim, sim, és muito querido, e pronto. Ficam juntos. E quando a minha mãe me diz: "Então, Lena? Quando é que nos apresentas um namorado?" eu tenho sempre de responder: "Quando ele me salvar de um dragão cuspidor de fogo ou atravessar o Atlântico a nado só para me ver, lutando contra piratas. Ou então quando vier de uma longa jornada, a cavalo, claro, e me vier buscar ao meu T2, e me levar para um castelo". "Lena...", diz a mãe com um ar enfadonho, "...já conheces o Bernardo? É filho do Zé Teotónio, que mora duas casa acima da do teu padrinho". A maior parte das vezes não me interessa. O último rapazinho da aldeia da minha mãe, perto de Tomar, com quem namorei era muito querido, sim senhora, mas não dava uma para a caixa. Ainda para mais, no fim da nossa relação, que durou um mês e picos, tive de ouvir os pais dele, porque virei de tal maneira a cabeça ao rapaz que em vez de seguir Advocacia, para ser Sr. Doutor, como os pais queriam, foi para Arqueologia. "Você enfeitiçou o meu rapaz!!", disse a mãe do moço. "Eu? Oh, minha senhora, tenha paciência! O rapaz já tem o dom natural para a coisa". Mentira. O rapaz não tinha dom nenhum. O que aconteceu foi que eu passava o tempo em que estava com ele a contar histórias e mais histórias e, como ainda éramos adolescentes e tínhamos tempo para essas coisas, fazia-o procurar peças arqueológicas, coisas velhas, pedras e pedregulhos, que encontrávamos no chão, perdidas na mata. Ainda hoje tenho um pedaço de ferro, martelado, uma argola, que ele encontrou perdida perto do Convento de Cristo, e um bilhetinho:" Para a doce Lena do cavaleiro Hermínio."Um nome e pêras para um cavaleiro, hã? Coisa magnifica os tempos da juventude. Mas mais magníficos os tempos antigos...Hoje é tudo "descartável", rápido, fácil e simples. Trocando por miúdos: sem gracinha nenhuma.

"Guen- Apagaste? Nem cheguei a ver o que era."

"Rafael- Melhor assim. Precipitei-me. Nem te conheço"

"Guen- Nem me podes dizer o que era?"- Dão o chupa-chupa à criança e depois tiram-no no momento seguinte. Odeio isso. Não estávamos a começar bem.

"Rafael- Ah, nada de importante...Deixa lá isso."

"Guen- Diz lá! Alguma coisa que tenha a ver com os templários?...Só pode...Vá lá! Diz-me! =D"

"Rafael- Não, foi um erro. Esquece. Um dia conto-te =P"

Hum. Aquele cavaleiro estava realmente a armar-se em chico-esperto. Eram quase três da manhã e eu na treta com um desconhecido.

"Guen- Um dia...Está bem. E já agora! És a favor do jantar medieval na Quinta da Regaleira?

"Rafael- Totalmente!"

"Guen- Boa =)"

"Rafael- Mas nada de Macdonalds XD"

A partir daqui foi até às cinco da manhã a falar de comida. Fiquei a saber que gosta de mais de carne do que de peixe. Que é a favor dos assados e que não é apreciador dos cozidos. Que gosta mais de doce do que fruta. Que a mousse de chocolate e as barrigas de freira são as suas predições e que a lojinha típica das queijadas de Sintra era perto da casa dele. Morava, então, em Sintra. Quem me dera! Cinco da manhã a coisa ainda rendia:

"Guen- Olha, sabes, são cinco da manhã..."

"Rafael- Quatro e cinquenta e oito, para ser mais exacto, lady Guinevere".

"Guen- Seja. Tenho de ir dormir. Amanhã posso acordar tarde, sim, mas não exageremos."

"Rafael- Não tenho pressa nenhuma..."

"Guen- Boas noites, cavaleiro das trevas"

"Rafael- Das trevas? Sou um guerreiro da luz!"

"Guen- Só disse isso por causa da imagem"

"Rafael- Lol a imagem não tem nada a ver. É só de um jogo de computador"

"Guen- Muito bem. Então até...?"

"Rafael- Amanhã. =)"

"Guen- Adeus =)"

Log-off.

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