quarta-feira, 20 de outubro de 2010

1887, Sintra

Quando cheguei a casa não conseguia disfarçar o sorriso. Mas também ninguém reparou nisso, a minha mãe estava mais preocupada em que eu fosse trocar de roupa porque o pai não tardava a chegar e eu parecia que tinha ido para a guerra. A Antónia só reparou nos arranhões nos meus braços quando me ajudava a vestir um vestido de algodão.
- Ai mas o que é andas-te tu a fazer? – perguntou de olhos esbugalhados.
Inventei uma desculpa qualquer sobre ter tropeçado nuns ramos ao esconder-me de umas lavadeiras que passavam. A Antónia correu a buscar um outro vestido, de mangas mais compridas e cor de vinho “não fossem as feridas voltar a sangrar”. Quando desci o pai tinha chegado, estava sentado ao pé da lareira com um rapaz perto dele. A mãe tinha o Joãozinho adormecido ao colo e a Chiquinha aos pés. Ficaram em silêncio quando eu entrei na sala, nada de novo para mim que estou mais que habituada a permanecer na ignorância. Foi aí que o meu pai se levantou e anunciou.
- Quero apresentar-te o Rafael, Guinevere. A partir de hoje ele vai viver aqui em nossa casa. – disse num tom seco.
Bem sei que não esperava que aprovasse tal decisão e por isso acenei com a cabeça sem nada dizer. Seguiu-se o jantar que, apesar das visitas ou do novo residente, era bastante simples porque a Antónia não teve tempo de preparar nada mais elaborado. Ninguém se importou, ficou um grande silêncio só interrompido pelo ladrar da Chiquinha. O pai levantou-se num pulo e foi à janela. Pouco depois voltou, passou a mão pela cabeça da Chiquinha e sentou-se. Nem soube o que tinha sido, nada de especial aparentemente, mas o pai nada comentou. Foi então que a mãe começou a falar com o rapaz, o Rafael.
- Espero que esteja a gostar do jantar. O meu marido não nos avisou que viria hoje, não estávamos à espera. Mas não se preocupe que facilmente se arranja um sítio para dormir.
- Só vos tenho a agradecer pela bondade minha senhora. – respondeu o rapaz.
Fiquei o resto do jantar a observá-lo. Não gosto da ideia de ter um estranho em casa, que nem da minha família é. Apesar de o meu pai não ter adiantado nada tentei perceber de onde era. Não devia ter mais de 18 anos, nem barba tinha, o cabelo era castanho e dava-lhe quase pelos ombros. Se passasse por mim diria que era um lavrador pois tem a pele queimada do sol. Deveria ser um acontecimento para uma rapariga da minha idade conhecer um rapaz jovem. Qualquer uma começaria com mil fantasias daquelas dos contos de fadas com príncipes corajosos. Eu só vejo um rapaz que perdeu todo interesse na segunda vez que olhei para ele. De qualquer forma quando o jantar terminou meu pai fez sinal à Antónia para me levar para o quarto, claramente iam conversar sobre coisas que “não são para a tua idade”. Já nem quis saber, num dia descobri exactamente onde estava. Sintra! Já é mais do que soube numa vida inteira pela boca da Antónia.
Quando fechei os olhos veio-me o Rafael ao pensamento. Comecei a pensar nas razões que levariam o meu pai a oferecer a sua casa a um completo estranho. De onde se conheciam? Estará a escondê-lo também? Deve-lhe alguma coisa? Com tantas perguntas na minha cabeça dormi pouco e mal, quando a Antónia me chamou senti-me como se tivesse acabado de fechar os olhos. Desci as escadas a cambalear e quase tropecei no penúltimo degrau. Fiquei espantada ao não ver ninguém.
- Saíram todos menina! Só cá estamos nós, o Joãozinho e a Chiquinha. – preveniu Antónia.
- Mas sabes onde foram? – escapou-me.
- Oh menina como se os seus pais me dissessem tal coisa!
- E o … Rafael? Também saiu?
- Anda por aí perto. Diz que precisa de apanhar ai mas que não se afastava.
Ainda bem que não me apetecia olhar para ele logo de manhã, ele a causa da minha sonolência. Peguei num livro e sentei-me lá fora a apanhar um pouco de sol. A Antónia pediu-me para ler alto para que me ouvisse da cozinha, ela que infelizmente nunca aprendeu a ler. Eu sempre me senti grata por ter um pai que fizesse questão que a filha aprendesse a ler e a escrever. Sei que nem todas as raparigas têm essa oportunidade.
- Mais alto menina! Não a ouço bem! – gritou Antónia.
- “O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
…”
- Mais alto!
- “A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só espera.”
- Ai que lindo! Soa tão bonito, mesmo não entendo metade do que disse.
- O livro chama-se “Folhas Caídas” de Almeida Garrett. É uns dos preferidos do meu pai.
Rafael chegou pouco antes do almoço, deve-lhe ter cheirado à comida da Antónia e encurtou o passeio. Como os pais não estavam sentámo-nos os dois à mesa enquanto a Antónia dava de comer ao Joãozinho sentada ao pé da janela. Já estava à espera de uma refeição silenciosa quando o Rafael resolve falar.
- Não fiquei a saber o teu nome. – perguntou inesperadamente.
Não estava à espera e por isso demorei demasiado a responder. Nunca me passaria pela cabeça contar-lhe toda a história de como o meu nome verdadeiro não é aquele pelo qual me tratam em casa. Ao mesmo tempo fiquei espantada pelo súbito interesse.
- Ah … Guinevere.
- Não tens a certeza? Demoras-te tanto tempo!
- Não, é mesmo Guinevere.
Novo silêncio. Fiquei envergonhada, sentia-o a olhar para mim enquanto comia por isso baixei a cabeça e concentrei-me na minha sopa. Percebi que ele queria dizer mais alguma coisa mas eu não o olhava para não o encorajar. Por fim ele disse:
- Conheço um sítio aqui perto que acho que ias gostar de ver!
- Mas eu …
- Podemos ir logo que acabemos de comer.
A Antónia não ouviu esta proposta de certeza não ouvi nenhum movimento, nem grito. Mas porque me trata ele assim com tanta confiança? Tenho idade para ser sua irmã mais nova, nem me considero particularmente bonita para esta atenção. De qualquer forma os meus pais chegaram pouco depois e ele voltou ao seu estado mudo. No entanto ao fim do dia atreveu-se de novo e perguntou “Amanhã?”.

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