Estou a ficar fartinho de passar os dias inteiros a folhear revistas de penteados e folhetos de electrodomésticos. A minha sapinha tem ido todos os dias a Torres para ganhar uns trocos fazendo uns servicinhos porta-a-porta (ao nível de cabelos e manicure claro). E eu estou aqui fechado, nem sequer posso olhar pela janela ou ligar o rádio porque alguém pode me ver ou ouvir. E ainda por cima anda tudo louco à procura do assassino e parece que o Manteigas está a andar de porta-a-porta a fazer uns servicinhos (ao nível de interrogatórios claro). Parece que houve pessoas que mentiram nos seus depoimentos, nomeadamente eu! só esta cambada de ignorantezinhos para acreditarem que eu sou padre ... eu nem sequer sou baptizado, não percebo nada de missas, casamentos e comunhões mas ninguém sequer questionou o facto de eu nem sequer saber o Pai-Nosso. Normalmente improvisava com uma música do Elvis e as pessoas caíam. Arranjei uma bela parceira e agora tenho de me contentar com os restos do Costeleta. preciso de falar com o Manteigas, mas o imbecil não sabe que estou aqui. Preciso de me encontrar para ele e rever o nosso plano. - Fofucho estás acordo?
- Claro sapinha! estava ansioso para que chegasses! preciso que me faças um favor... vai chamar o Manteigas preciso muito de falar com ele. Se alguém perguntar dizes que lhe vais fazer um tratamento de beleza ou não sei ... inventa!
- Não queres antes que te faço uma massagem paixãozinha?
- Por muito tentador que seja acho que prefiro que vás chamar o Manteigas.
- Se é o que o meu chuchuzinho quer!
Aquela Eunice não consegue fazer nada como se lhe pedem. Não sei como é que ela consegue demorar 3 horas para chamar um homem que mora do outro lado da rua. Será que aconteceu alguma coisa?
São 22h e ela ainda não chegou ... começo a ficar preocupado. E ainda por cima não posso sair daqui! E é então que batem à porta.
- Hernandez abre a porta! Sou eu o Xavier!
- A Eunice avisou-te?
- Não. Eu descobri que estavas cá!
- Como?? Alguém me descobriu?
- Anda aí um grupinho a armar-se em justiceiro e parece que houve um espírito que os avisou sobre nós ... eu ouvi tudo! Temos de sair daqui o mais depressa possível!
- Deves tar a brincar ... não sai daqui sem o meu dinheiro!
- Queres ir preso?
- Nós arranjamos maneira ... saímos de madrugada e tratamos da velha! Não pode ser complicado ...
- E para além disso anda aí um assassino de verdade ... não um falsete como nós os dois!
- Não sei do que falas! Pensei que tinhamos combinado que precisávamos de limpar o sebo à velha!
- Mas não foi a Matilde que morreu ... foi a Pr ... tu mataste-a???
- Foi o que estava combinado, mas EU PENSEI QUE ERA A MATILDE!- Mas como foste capaz de as confundir?
- Estava escuro tive de me dispachar ... queria fugir naquela noite mas não consegui falar contigo! Tu andas sempre incontactável!!
- Claro! Nós odiamo-nos lembras-te? Por causa da Giselle!
- Mas isso é só teatro tu sabe-lo bem.
- Pois mas para isto resultar convinha que ninguém desconfiasse ... senão ainda acabamos na cadeia outra vez, como da outra vez em Pastelinhos!
- Aí foi diferente ... eu já estava farto de estar vestido de mulher e desculpa lá mas não consigo mijar sentado! Só por isso é que fomos apanhados.
- Fala mais baixo!! Nós ainda nos vamos conseguir safar!
- Então a Matilde ainda está viva. A sacana da viúva é dificil!
- Dificil e rica ... podre de rica!
- Tens algum plano?
- Bom parece que agora a Giselle está a viver com o porcalhão por isso deve ser mais fácil mas ...
podiamos ir lá agora mesmo. Deve estar adormecida em frente à televisão a ressonar que nem um porco.
- Então vamos ela deve ter a herança em casa. Não me parece que tenha gasto um tostão do que aquele macaco lhe deixou.
Devem estar a pensar ... mas o que é que se passa aqui? Na verdade o meu nome não é Paixão ... chamo-me Hernandez e sou talhante. Nasci em Vila-Nova-de-Pouca-Sorte e tenho um irmão, Xavier, que para vocês é conhecido como inspector Manteigas. Inspector uma ova! É peixeiro! Tinhamos um negócio lá na nossa terrinha ... mas a coisa não dava grande lucro. O peixe e a carne não vendem como dantes e nós virámo-nos para um novo negócio ... o de burlões! Percorremos todas as vilas do país, seduzindo moçoilas inocentes, roubando dinheiro a velhos desprevenidos, sacando perucas a travestis (não perguntem porquê) entre outras maldades. Claro que nem sempre fomos bem sucedidos, para dizer a verdade nunca ganhámos grande coisa, mas só nos apanharam uma vez! Foi em Pastelinhos e fizémos de marido e mulher (tirámos à sorte). Éramos um casal de emigrantes da Nova Zelândia que queria comprar um terreno e ... bem os promenores são muitos e alguns até embaraçosos mas digo-vos que mudou a nossa relação. Eu sou um mulherengo e nunca deixo de arranjar uma ou dos moçoilas por vila para me entreter. Escusado será dizer que o lesbianismo não é bem aceite no interior do país e fomos presos quando descobriram que a lésbica tinha um pénis!
Foi coisa de dois dias até fujirmos da prisão ... onde tive mais uma vez de vestir uma saia (não perguntem). Foi aí que ouvimos falar de um africano muito rico que se tinha mudado para a região com a mulher e a filha. Parece que o homem contraiu uma doença tropical quando atravessou a fronteira entre Ensaboadela e Montemor-o-Ovo. Morreu passados poucos dias e deixou a mulher e a filha sozinhas com uma fortuna! Foi por isso que o "inspector" se instalou em casa da Matilde e o "padre" engraçou com a Giselle. A disputa pela pequena foi uma maneira de iludir as pessoas, para que não pensassem que estávamos relacionados já que aparecemos ao mesmo tempo na aldeia. Mas como disse, esta vila não está repleta de mentes brilhantes!
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