segunda-feira, 14 de julho de 2008

Gerações de aventura

- Chegar a tempo? Como assim?
- Se conseguiram chegar aqui á vila antes dos patifes!- Estava a contar ao meu filho como fora a nossa aventura, a ele e às Anas do Coices e ao Xavier. Pois é, converti o meu café, depois de tudo o que passaámos, numa pequena biblioteca e lugar de convivio para os mais novos. Quanto ao café do Bica...Olha, custou-me mas teve de ser agora tenho a "Biblobicateca" um espaço extremamente simpático e confortável para os mais jovens. Um espaço com qualidade, um espaço para viver- é o nosso slogan, simpático, hã? Agora a função de homem do café é do Manel. Largou a roça e lá teve de sobreviver a vender "mines" e bicas, que dá um bocado mais de dinheiro. Bom, na verdade ele não largou bem a agricultura porque atrás do café tem um minimercado onde comercializa todos os produtos da sua terra. Quanto à sua mãe, a senhora Coices foi para Valentão-do-moço para uma festa de anos de um sobrinho neto e nunca mais ninguém a viu. Adoro a minha função de agora de vendedor de livros e animador de tarde, gosto de lhe chamar assim. Quando me sento nesta cadeira , onde agora estou, esta linda cadeira de madeira cuja perna se encontra metade comida pelo carunxo penso no que vivi e o mais belo de tudo é que transmito tudo isso para a pequenada que, sentada numas almofadinhas feitas de sarapilheira, doada por Manel e feitas por minha amada Marcolina, me ouvem sem dizer um ai, salvo quando se enojam com alguma coisa, o que acontece frequentemente ainda não percebi bem porquê. O meu Crispim está um homem e está a ajudar a Marta no seu novo salão de beleza, é o lava-cabeças lá do sítio, o salão que dantes era da Eunice. Aquela espelunca piolhosa agora é o Marta "sentimental hair" um misto entre conselhos matrimoniais e cabeleireiro. A Giselle é mais cabeleireira do que a Marta que se encarrega mais dos conselhos e tal...Bom, mas o meu Crispim está um rapaz forte, já com os seus 15 anos, feliz, rosadinho e contente. Acho cá para mim que ele anda de vola da Manteiguinhas, mas ela não quer nada com ele, é muito snob aquela miuda...hã? Palavrinhas das caras aqui na boquinha dourada do Jerónimo...Ah pois é! Aqui a Bibliobicateca dá-me muitos conhecimentos. Neste momento a minha Marcolina está a por etiquetas nos livros aqui da Bibliobicateca para nenhum destes fedelhos os levar surrateiramente! Ui! Eu sei o que é que a casa gasta! Antes de os conhecer conheci os pais deles!
- Está quieta Paixão!
- Oh pai! Continua...
- Sim senhor Bica, diga-lá como é que o anormal do Manel...
- Ei! Não chames anormal ao meu pai!- As filhas da Giselle e do Manel e do Paixão e do Manteigas (isto cansa) apesar de gémeas nunca, nunca se deram bem...Uma tem o cabelo negro como o carvão, outra loiro como um raio de sol e a outra cheira que não se pode! Andam sempre às turras
- O teu pai era um padre!
- Não eraaa, não eraa ele era um homem normal
- Os padres são homens normais, minhas bestas- dizia a pequena Manteiguinhas- o que o teu o pai não era era tão lindo como o meu, alto, o meu pai é um deus! E claro, eu sou assim...lindissima!
- Tu tens nome de gordura!- dizia a Paixão para a Manteiguinha
- E tu...tu tens nome de sentimento que é pecaminoso!E esta aqui tresanda a porcaria e tem nome de movimento de burro...Coices, isso não é nome de gente!
- Pois- salta a Ana Simone em defesa- mas é o meu pai que vos dá de comer! Os vossos pais puseram-se na alheta! Ahhhh....- E amuaram todas.
- Meninas! Meninas! Então? Ai...olhem aqui para o tio Bica
- Tio? Era mais avô, não?- A sacana da Paixão era danada...
- Pronto, como quizerem. Estava a contar a história, ora então onde é que eu ia mesmo?
- Se eles conseguiram chegar a tempo...
- Ah! Pois claro Xavier, obrigado...Ora, já era de noite não é? E as coisas demoram e ainda para mais com bebés as coisas complicam-se. A Marcolina tinha ido para me ajudar, o Manel mandou uma mensagem para a vila e lá veio ela, aquela mulher de aço! A manhã já tinha rompido e nós estavamos ali, em Tutano Verde, com cavalos e um bandido que tinha ido à procura do tal colar ou melhor, do homem que traria o colar e a torradeira invocadora de o vosso avô Quimbé!
- Não acredito que o meu avô cheirava mal como a Ana Simone...- interrompeu-me a Manteiguinhas.
- Tás a ver? Falas mal de mim e do meu pai mas és descendente de um homem com pivete!
- Adiante, meninas, adiante- prossegui-Então a coisa foi mais ou menos assim:

- Nunca vamos sair daqui! Não há cavalos para todos!- dizia a Marta.
- Calma, amor! Nem que a gente vá a pé! Havemos de chegar à nossa casinha!- dizia o Mauricio com o Xavierzinho.
- Eh! Oh! Faxabor benham cá aqui à minha retaguarda!- disse o Manel. Todos se juntaram á sua volta.- Tenham lá calminha...Vamos ser salvos por o meu...- E assobiou bem forte. Um assobio tal que as crianças choraram, as mulheres gritaram, os animais ladraram (a Patrícia) e o Ostentação deitou sangue pelo nariz! Esperámos por o que vinha lá! Sonhávamos por o grande e poderoso...!
- Simão!
- Oh, Manel, por amor a S. Palito...Assobias.te para vir o Simão? Estamos em Tutano Verde!!! Do outro lado do rio Tonhinho!! Estás maluco?- A Giselle passou-se.
- Calma bezerrinha! Ele bem!
- O burro é velho, coxo e manco!
- Mas ele beeeemm...Ele oube muito bem!
- Estamos do outro lado do rio!- Todos estavam chateados... Não tinhamos cavalos que chegassem e no nosso caso, os Village People, ou iam todos ou não ia ninguém! Estávamos desesperados e já tinha passado da hora do almoço. As crianças comiam.
- Giselle...da-me leitinho...
- Manel dos Coices! Que horror! Este leite das minhas maminhas é para as miudas!
- Mas tou com fome e...- Ouvimos passos...de quatro patas e em cima de uma colina, baixinha, com o sol a bater-lhe de esgelha aparece o burro Simão!! As pessoas ficaram contentes e as crianças também! O burro desceu lentamente a encosta montamo-nos nos cavalos e no Simão e lá fomos nós! Quando chegámos à vila fomos directos à casa da dona Matilde e o Manteigas estava lá encostado a uma pia que a senhora tinha na cozinha, agachado, com as mãos a agarrarem os joelhos e andavam para cá e para lá, para cá e para lá...Uma atitude de louco. Ficámos parados a olhar para ele e ele só dizia: "Ainda não chegou a hora, ainda não chegou a hora". A Marta achou melhor chamar chamar os senhores da clinica de tratamento psicológico e pronto...Mas até lá o sol já se estava a pôr.
- Bezerrinha...Parabéns, meu croquetezinho.
- Oh, Manel...Obrigada...E-eu...eu amo-te meu porco!- Finalmente a Giselle e Manel se entendiam. A tarde estava quente e todos esperavamos pelo mensageiro que iria trazer o colar que iria dar toda a fortuna à Giselle e ao Manel, que a ia gastar toda em sementes de alface...Hei então que surge ao longe no meio da poeira, que cobriu os vestidos das senhoras, que, ainda vestidas para o filme da Eunice se enquadravam naquele que era um cenário perfeito de uma tarde de calor do faroeste! A Eunice sacou da câmara e cá vais disto. Num cavalo, talvez num burro, não, definitivamente num pónei vinha alguèm...Todos nos reunimos no chafraiz principal. O ser aproximava-se num pónei que era meio cinza meio preto meio castanho meio amarelo. O ser vinha coberto por um manto. Saiu de cima do pónei. Trazia uma caixinha na mão, onde possivelmente trazia o colar e a torradeira para a Giselle...Uma caixa muito pequena! A Giselle chegou-se á frente. O Manel estava com ela, atrás dela...cagado de medo. Heis então que o ser tira o capuz que lhe cobria a cara. Todos ficámos espantados! E no meio de um arroto da Ana Simone o Manel disse:
- Mãejinha?

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