sexta-feira, 11 de julho de 2008

Mas que cena!

- Eu tenho mesmo de dizer o que aqui está escrito?
- O que é que foi agora?? Se está aí é para dizer!- Dizia a Eunice com alfinetes ao canto da boca enquanto cozia a saia da Giselle que na cena final da dança tinha de saltar para o colo do padre e dizer um incrivel "Ena pá, está calorzinho aqui!". O guião era abominável e a Giselle estava provavelmente a viver o pior dia de anos dela. Cheguei a pensar que a velha Matilde já não interessava. Uma velha a mais ou uma a menos, que mal teria? Só queria acabar com aquilo rápido. Nem entrar no espetáculo eu entrava! Servia águas...Bom, pelo menos empatava, já que era o que eles queriam fazer, proque pensavam que o Manel e o resto de sabe-se lá quem haviam de chegar. Até lá andávamos no engonhanço. Eu servia as águas nuns copinhos ranhosos com uma substância verda agarrada ao fundo. Tinha imensos, o problema é que este trabalho era extremamente cansativo, isto porque sempre que acabava uma rodada de copinhos, que eram muitas vezes bebidos devido ao engonhanço dos "actores", lá ia eu,vigiado pelo Paixão ou pelo Manteigas, Maurício, cujo filho se encontra com o Manel, meu rico filho, pai de familia, a um poço que se encontrava à frente da casa. Duvido que aquela água fosse potável, mas azar...Queria sair dali!
- Eu sou uma mãe de família não digo estas coisas indecentes! E ponto final!- Nunca na minha vida a minha Marta iria dizer o que dizia naquele pedaço de papel, o pior é que acabou por dizer.
- Mas que é que tem de mal?- dizia o Bica espreitando para o papel da Martinha e ficando vermelho como um tomate- Ena pá! Está calorzinho aqui! Eh eh eh!
- Eunice...eu não vou dizer isto para...um padre!
- O Paixão não é padre, linda! Desempadrou!- dizia a Eunice ainda cozendo a saia da Giselle que não parava quieta de proposito- Por isso afiambra-te! Aproveita bem que agora o totó do teu marido anda para cá e para lá com a águinha.
- Por quem me toma! Sou uma mulher respeitadora!
- Ui...acredito. Por isso é que o teu puto se chama Xavier!- A Eunice foi directa e brusca. Não percebi esta, sinceramente...Pelo que me parecia Xavier era o nome do ex. inspector Manteigas mas...O meu filho...Oh!Não!Foi então que derrubei o tabuleiro das águas no chão.
- Marta!! O Xavier não é meu filho, pois não?- disse dando uma de machão. Tive a preocupação de desabotoar um botao da camisa para que saltassem frozmente todos os meu minimos pelos no peito- Diz-me! Sua...
- Amor! Mauzinho! Achas? Alguma vez? O Xavier é teu filho, é do teu sangue, é o teu herdeiro!
- Então está bem.- Nestas coisas nunca se sabe! Mas a Marta é uma mulher às direitas!
- Vai para a esquerda, Marta! O teu lugar é à esquerda!!
- Já vai Eunice! Credo! Com este vestido não dá muito jeito andar!
- Cala-te e anda e diz lá o que tens a dizer...SILÊNCIO!- A Eunice estava a levar aquilo à séria- MAS O QUE É QUE O HOMEM DAS ÁGUAS ESTÁ A FAZER EM CENA? FOOOORAAA!- Estava estérica.
- Calma!- E e partiu para cima de mim. Agarrou-me no braço e lá se foram as águas.
- Parece que vais tirar o pai da forca mulher!- disse o Bica todo com aquele ar de protagonista que eu deveria ter.
- Não! Mas gostava o quanto antes de por uma velha nela! Por isso aos seus lugares! Cena do combate...MEXAM-SE! Fredy...Costeleta, saca da pistola!
- Oh, Eunice...Não me pessas uma coisa dessas...- disse o Costeleta antes de parcer um carro dos bombeiros.
- Ai...que parvo! Não é isso, amor...É a arma! A pistola...Bum! Bum! Ai...Ainda não é desta que a velha é lixada...MEXAM-SE!- E passado algum tempo estava tudo pronto para começar a gravar- 1...2...3...Acção!
- Oh...Não posso crer! Estes dois bons homens vão lutar, como pode ser possivel? Como pode ser?- dizia a Giselle muito pouco natural.
(Marta)
- Pois...pois...err...eu...- Tinha se esquecido...Eu vou em teu salvamento Martinha!
- Eu tenho de ir buscar água!- Disse eu entrando triunfalmente, vestido de "garçon", em cena, abrindo os braços num jeito de "tacharam" e piscando subtilmente o olho para a câmara e para os telespectadores que deveriam ser...nenhuns.
- COOOOORRTAAA!! CAMBADA DE ESTAFERMOS!- E Eunice estava vermelha e não era porque tinha visto as cuecas do Jerónimo. Oh minha nossa!
- Jerónimo! Levanta as calças! Que estás a fazer?- Girtou agora o Paixão, Hernandez ou o raio que o parta.
- Quero arrear o calh...
- Ahhhhh! Credo!- As mulheres, menos a Eunice, taparam os olhos.
- Agora não! Ias fazer um duelo com o Costeleta!- Dizia ela- E para mais aqui não há espaço para essas coisas.
- Mas estou com vontade...
- Já disse que não! Depois do duelo!- E assim foi. O Jerónimo falava como se quisesse ir á casa de banho que realmente queria e a cena foi esquisita porque para o meio eles beberam àgua e tudo mais...Só para atrasar. De qualquer modo não vi a cena toda, isto porque fui ao poço. O Xavier ficou à porta como ficava sempre, com a Mateiguinhas ao colo, a vigiar-me, enquanto eu fui ao poço enxer a bilha. A água do poço podia não ser potável mas só o correr da água e a sua frescura, e inspirado pela vontade do Jerónimo, deu-me uma vontade de expelir todas as minhas impuresas pela via do canal de reprodução...
- Hum...Oh senhor inspector!- Gritei para o gajo que brincava com a miuda que já tinha uma valente cremalheira na boca, algo incrível- Tenho necessidade de expelir as minhas impuresas pela via da uretra.
- O quê? Pára com isso, anda te embora mas é!
-Mas estou mesmo, mesmo, mesmo com vontade de expelir a liquidozinho...
- Queres o quê?- A distância ainda era grande, do poço à porta de entrada, digo. Por isso ele não ouvia bem e tive de gritar um valente:
- MIJAR!- Ao que o inspector respondeu:
- Ah...Que nojo! Vai ali atrás das urtigas, aqui de lado da casa...Mas vê lá! Não te vou vigiar desta vez, só faltava mais esta...Até porque estou com a Manteiguinhas! Não te armes em espertinho que levas a dobrar!
- Sim, senhor! Eu vou mesmo só órinar- E fui. Ao virar da esquina ouvi qualquer coisa. E enquanto me estava a aliviar olhei para o lado e...estava lá uma criança!Rápidamente abandonei a tarefa de expelir o amarelinho e olhei para a criança que já gatinhava! Estas crianças de hoje em dia...A criança tinha feito um rasto com os seus joelhinhos e eu, peguei-lhe ao colo e segui esse mesmo rasto. Devagar, fui dar atrás da casa onde estava um homem a espreitar pela janelinha que dava para a cave onde nós estavamos! Estávamos salvos...Mas deixei-me estar...Fui chegando pertinho, pertinho e...era o...Graças a...
- Manel!- Sussurei um grito.
- Ehhh Mauricio! Epá...falta-me um puto...
- Está aqui, deve ser a tua filha...
- Não, é a Paixão...Maldita! Endiabrada de um diabo! Mas olha...Sei do que andama tramar...Sairam-me cá uns...
- Não! Não percebes nada nós...- E ouvimos passos. Escondemo-nos atrás de uma carroça velha que estava perto da janela. Alguém se aproximava...Não queria acreditar que nos tinham descoberto, agora que tinha o Manel para me ajudar! De repente senti algo quente no meu pé...Cheirava exptremamente mal até que ouvi um "ahhhh, graças a S. Palito...", de alivio. O Manel pôs a cabeça de fora do nosso esconderijo:
- Oh! Jerónico és tu? Epá, Mauricio é o Bica...- E saímos de lá de trás da carroça.
- Manel!- disse o Bica surpreso- Ainda bem que aqui estás! Agora é que vamos sair daqui, já sinto tantas saudades da minha Lininha e do meu filho...
- Mas como estás aqui? Que vieste aqui fazer? Deixaram-te sair?- perguntei eu baixinho.
- Então não haviam de deixar? Tão eu vim...- E quando olhei para o meu sapato apercebi-me o que é que o Jerónimo tinha ido fazer lá fora. Em suma: O mesmo que eu mas expelido pelo canal oposto. Algo que aterrara violentamente no meu sapato.

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