terça-feira, 8 de julho de 2008

Orgulho de pai

- Xavier...estamos em maus lençóis, mano.
- Epá, qué que se passa agora? Outro puto que se borrou? Ai que eu...
- Não...A Giselle tem uma filha tua- Quando o meu irmão me disse isto, levantei-me repentinamente do sofá velho onde estava sentado a beber a bela da mini.
- Estás a gozar comigo Hernandez! Tu é que andas-te metido com ela no confessionário...Eu não coiso, coiso!
- Ai não? Então porque é que ela diz que sim? Epá, uma das miúdas é minha, outra tua e outra do burro!
- Do burro??
- Do Manel, pá! Eu já não aguento mais isto! Temos de matar a velha e lixarmo-nos para isto tudo! Vamos abandona-las ai debaixo de uma ponte, Xavier!
- Mas uma filha dela é minha...outra e tua e outra é de quem a apanhar!
- Pára com as cantorias, Xavier...Estou a falar a sério. Não é momento para brincadeiras- O meu irmão Hernandez sempre foi o mais malino de nós os dois. Diria mesmo um crápula, um sacana um malfeitor, um bandidão! Desde pequeno que é assim...
- Não vou deixar as meus filhos assim...-disse eu.Tu nem...coisito com a Marta! Estás louco?
- Mas Hernandez...já me apeguei ao miúdo! Vi-o nascer!
- Estás muito sentimentaloide...Qualquer dia acordas e não vês nenhum destes emplastros aqui! Não vês que elas só nos estão a atrasar? A policia anda atrás de nós! Espalharam cartazes! Os Village People não nos vão deixar em paz! Caga para os pirralhos!
- Eles são meus filhos!- E envolvemo-nos numa valente zaragata como dois irmãos devem ter para ver quem come um chupachupa ou uma porcaria qualquer. Mas a verdade é que não queria abandonar a Giselle e as suas triégémeas ou a Marta e o Xavierzinho. Posso ser um crápula mas tenho sentimentos. Vá, deixa-las numa casa de freiras! Mas nunca ao abandono, ao frio, à chuva. O meu irmão estava-me a desiludir muito, muito mesmo! Ele tinha sido padre por uns tempos, isso podia ter feito com que ele amolecesse um bocado! Mas parecia que o insensível Hernandez queria abandonar aquelas recém prenhas e as suas criancinhas! E ainda por cima as gémeas da Giselle eram prematuras! Nasceram todas engelhadinhas, coitadinhas! Não pode ser...não iriam resistir!No final da briga acabei com um dos meus lindos olhos negros e o Hernandez com a boca a sangrar...
- Podemos entrega-las num convento, mas não as vamos deixar por aí!
- Sais-te-me cá um lamexas meu estupor!
- Estou farto disto, Hernandez...Se as vamos entregar, vamos agora! Matamos a velha e pronto. Se não fizermos isso eu vou me entregar, estou farto disto mesmo! E tu não foges!
- Pronto! Ok! Vai buscar os putos e as mulheres, vou roubar ali uma camioneta porque isto de andarmos de autocarro e barco e não sei quê leva-me à falência! E agora com uma catrefada de putos...- Foi então que me dirigi para a cave onde estava o infantário todo.
- Manteigas!- disse a Giselle ao me ver- Olha! A tua filha é a mais precoce, já tem um dentinho!- Era inacreditável! A minha filha acabada de nascer já tinha um dente! E o segundo rebentava a qualquer momento!
- Oh! A sério? Oh, Manteiguinha do papa...- Peguei na bebé. Sempre quis ter filhos. E a minha filha, para além de se parecer um bocado com as irmãs engelhadinhas, era a menos engelhada e era a mais linda, a mais formosa, a mais bem feitinha. Depois de me aperceber que estava a ser lamexas de mais larguei logo a bebé ao colo da mãe.
- Não é possível a Manteiguinha ser minha filha, como é que pode ser? Andas-te metida com todos! Só um pode ser o pai!
- Sei o que te digo Manteigas...Fui ao médico, ele garantiu-me!- Que podia fazer? Mas era notório! A minha filha era parecida comigo! Aquele cabelinho dela todo loirinho, era tão graciosa e chorona...
- Cala-me essa miúda!
- Não é ela que está a chorar é a tua sobrinha-filha, a Paixão...
- Cala-me qualquer uma delas!
- Ai, espera afinal é a porquinha dos Coices...Olha, Manteigas, tenho de registar as minhas filhas! Quero lhes dar nomes! A. Paixão; A. Manteigas e A. Simone dos Coices, não são lindos?
- Simone?- Perguntei eu à pobre rapariga que dava de mamar à mal cheirosa criatura.
- É...o Manel queria...Vou voltar a ver o meu marido não vou? Diz-me que sim!- E ia começar a chorar.
- Sim, sim, sim...Não chores Giselle, não chores...Oh não! E agora o Xavier júnior também está a chorar? Marta! Cala-me esse rapaz!- O Xavier Júnior era também muito giro, como o pai, claro...O pai adoptivo: Eu, claro, o mais belo homem! Quando crescer será como o pai adoptivo! Lindo! Grande! Poderoso! Corajoso! Fantástico! Arrasará o coração de todas as raparigas! Será um máximo! Valente! Apaixonante! Sensível e...um homem do bem...Foi ao olhar para o meu filho adoptivo que percebi que estava a ser um perfeito anormal...Mantinha ali, naquela cave, duas mulheres que tinham acabado de dar à luz, três gémeas prematuras, e o Xavier Júnior...Não podia fazer aquilo! Vou tira-los dali e já! Embrulhamos os miúdos nuns panos, elas puseram uns lenços pela cabeça e rapidamente, antes que o Hernandez chagasse com as suas ideias maquiavélicas, fomos de barco para Torres. A noite já caía mas mesmo assim subornei o homem do registo e as mulheres registaram as suas crianças: Ana Quimbé Paixão, Ana Quimbé Manteigas e Ana Simone Quimbé dos Coices. O pequeno Xavier, como prometido, foi Xavier Júnior. Íamos a sair do registo, a Marta ia à frente com o Xavier júnior, a Giselle com duas das suas pequenas gémeas e eu com a Manteiguinha. Naquele momento apercebi-me de que se não fugisse com a minha filha, provavelmente nunca mais a iria ver. O Hernandez ia querer sair do país...Tinha ideia de passarmos a fronteira e irmos rumo a La Pimpolhita, uma cidade nos confins entranhados de Espinhola, se o fizéssemos, adeus Manteiguinha do papá...Então, ainda a descer as escadas do registo desatei a correr com a minha filha nos braços. Que dramático! Talvez estivesse mesmo a ficar lamexas, como dizia o meu irmão. As mulheres desataram a gritar e a Giselle não parava de correr atrás de mim com as outras duas engelhadinhas ao colo. Mas eu corro mais...Corri, corri até não a ver mais. Escondi-me atrás de uma casa perto do cais. A miúda começou a chorar, devia estar com fome...mas eu não tinha nada para lhe dar! Comecei a embala-la e ela lá adormeceu.
- Parece que levas mesmo jeito para essas mariquices, querido maninho...
- Hernandez? Que fazes aqui?Como sabias que eu estava aqui? Vai te embora! A partir de agora só quero viver com a Mateiguinha! Vou trabalhar e dar-lhe uma boa vida!
- Ai...até me enjoas! Cala-te! Traíste-me! Mas pronto...Já que queres a miúda trás...pode ser um bom isco para chegar à velha Matilde...
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