Quando fui à rua, depois de uma noite bem dormida, reparei que faltava qualquer coisa na praça...A praça estava desdentada e algumas pessoas formavam um circulo à volta do salão da Eunice. Pronto, já mataram mais um inocente! Ai, Quimbé! Ajuda-me a acabar com isto meu pretinho bombom! Fui então até lá. Havia pessoas a apanhar alguns frascos de perfume e champô que ainda estavam intactos, algumas apanhavam escovas de cabelo e corriam a sete pés! Roubavam coisinhas, pronto.- Epá! Epá!Hoube um tremoço de terra! Hoube um tremoço de terra!- Gritava a besta do meu genro, o Manel.
- Tremor, Manel! Tremor!- Dizia a minha Giselle.
- Não pode ser!- juntava-se o Jerónimo com o seu novo dente de ouro ainda mais reluzente que o outro- senão o meu café também tinha ruído! Não faz sentido! Onde anda a Eunice?- Heis então que chega a Eunice, triste e completamente desfeita em lágrimas. Estava horrorizada. Uns diziam que tinha sido uma bomba outros diziam que tinha sido uma fuga de gás. Num salão?
- Eu não ouvi nada- disse eu- dormi perfeitamente!- E não ouvi, na realidade! Aliás, a maior parte das pessoas disseram o mesmo! Que estranho...
- E agora? E agora? Como vou viver?- dizia a rapariga. Ai, uma desgraça nunca vem só! Andam agora aí a dizer que foi praga da Prudência. Dizem que foi por a Eunice lhe ter roubado o Costeleta...Ui! Que medo tenho dessas coisas de assombração! A própria Eunice tem essa opinião e desde então nunca mais correu atrás do Costeleta que também a quer ver pelas costas. O amor tem destas coisas, só eu serei até morrer fiel ao meu Quimbé!
- E o cheiro? Vocês não imaginam!- dizia a Eunice lavada em lágrimas.
- O cheiro? Ai! Querem ver que era o meu Quimbé?- As pessoas olharam para mim e não disseram nada. A Eunice continuava a dizer mal da sua vida:
- Ah! Que vou fazer agora? Aquela mulher! Aquela Prudência! Nem depois me morta me deixa! Grande paspalhona! Grande cabr...
- Oh! Calma! Isto não é nada positivo, Eunice, eu sei! Mas ia te propor uma coisa: Ando com ideias de fazer um salão de beleza. Não andei para a frente com a ideia porque tinhas a tua espelunc...o teu salão, por isso, queres ser minha sócia num grande e lindo salão de beleza?- A Eunice ficou um bocadinho reticente, eu sei que sim...Quando ela apareceu aqui na vila e pegou naquele velho bar de...meninas e o modificou para o salão as coisas mudaram! As mulheres ficaram mais bonitas, ou não...Mas foi sempre ela que levou aquilo para a frente!
- Tá bem, também já perdi tudo, o meu Costeleta, o meu salão...Pode ser!
- Óptimo!
Passado alguns dias da morte da senhora Prudência, a qual chorei muitas...algumas...algumitas...poucas lágrimas, fui convocada para uma reunião, a reunião dos "Village People". A minha Giselle já me tinha andado a falar nisso mas eu pensava que era um creme para as pernas. Mas fui, claro que fui, até porque quero honrar o meu Quimbé e como ele protegeu a nossa pequena criança das garras do padre malandro! Quero praticar o bem, tal como Quimbé, o meu amor, o fez. Aliás, de alguns dias para cá tenho andado a sentir algo estranho. Uma presença! Eu sei que é o meu Quimbé, só pode ser. Aquele cheiro é inconfundível! Aquele odor não engana. Aquele odor a que já estava habituada e que nunca me largou para toda a vida! Fui então à reunião na Associação Recreativa, onde ensaiava-mos para a festa de S. Palito e eu me aproveitava a bem aproveitar do Jerónimo, nunca sendo infiel a Quimbé o meu negrinho ransoso! Nunca! Estava lá a matula toda e o Costeleta fazia a chamada:
- Manel dos Coices!- perguntou e ninguém respondeu.
- Está a chegar...- disse a minha Giselle- Está a mudar as ferraduras do Simão.
- Jerónimo!
- Presente!- disse o Bica.
- Marta!
- Presente!
- Ostentação!
- Oi! Aqui mesmo.
- P-Patrícia? Quem é que pos aqui o nome da cadela?
- Fui eu!- disse o Manel entrando na associação- A pobrezinha também vai participar assim como o meu irmão Simão!- E o burro ao lado dele cheirava os sapatos do Jerónimo- Até já lhe mudei as ferraduras, porque assim, quando precisarmos pronto! Já está prontinho!
- Tomas-te banho como te disse?- perguntou a minha Giselle bruscamente.
- Oh Gisellinha...Eu tomo depois.
- Se não tomares banho hoje logo à noite bem podes esquecer tudo o que me propuseste!- O Manel baixou os olhos e como não tinha mais cadeiras para se sentar sentou-se em cima do Simão e ali ficou. O Costeleta fez um discurso chato como tudo e nós estivemos a ouvir...Mas, subitamente na sala espalhou-se um cheiro que me era familiar. As pessoas exaltaram-se:
- Manel! Por amor de Deus! Agora nem que tomes à mesma banho! Isto faz-se? Que vergonha...- disse a Giselle.
- Ehhh bezerrinha, não fui eu! E o Simão também não eu sei distinguir entre o...
- Que horror! Abram as janelas! Abram a porta! Abram tudo!- gritava o senhor Costeleta. Curiosamente o cheiro a mim não me encomodava...Era o cheiro do...do...do meu Quimbé!! Foi então que todos começaram a abrir as portas e a cadela começou a ladrar para o Ostentação. Era esquisito, a cadela adora aquele homem. Alguma coisa se estava a passar! O Ostentação levantou-se e fez uma coisa nunca antes vista! Penteou-se de risco ao lado, muito certinho. Sacudiu as roupas, veio direito a mim e beijou-me ardentemente!! O homem não me largava! Então o Bica separou-o de mim.
- Epá! Vamos lá a largar a velha, oh Ostentação! Então?- Foi então que o Ostentação começou a falar de uma maneira esquisita. A cadela continua a rosnar e a ladrar como se não houvesse amanhã. O mendigo não estava bem e inalava aquele odor...o...o...o cheiro de meu Quimbé! As pessoas afastaram-se, já tinha aocntecido tanta coisa, poderia o Ostentação estar a ficar louco?
- S-sou...eu! S-S-Sou eu! Não istá mi re-re-reconhecendoo??- O Ostentação estava esquisito. Ora falava à sua maneira, oura falava com uma voz mais grossa.
- Quimbé? Quimbé! És tu! Eu sabia! Aquele beijo! Este cheirinho encantador!
- Tás a ber bezerrinha...até a tua mãe gosta...só tu não...- disse o Manel para a minha filha.
- Cala-te Manel, o meu pai voltou...- O Ostentação/Quimbé aproximou-se de mim.
- Quérida...Minha flôr...como txi amo! Istou sempri olhando pur voceis! E como istá linda nossa Giselli! Puxa vida...como istá tão mulherr!
- Oh...Quimbé! Que saudades!- O Quimbé possuiu o Ostentação para falar comigo, não foi romântico? Hoje em dia já não se faz nada destas coisas, é incrivel.
- Vim aqui à baixo para vos ajudarr a descubrir o sacripanta qui anda matando e burlando todo o mundo! Voces, meus amiguis, meus camaradas, meus amoris...Tenham olho no padri!
- Mas o Paixão saiu da cidade, papá- disse logo a Giselle.
- Mia filha...Cê acredjita qui sim, meu torranzinho? Né não...Ele está aqui bem prertjinho, basta ocês procurarem beeeem! Tenham olho nessi desonrrador dji donzela e ta-ta-também- Parece que a ligação ao além estava a com ruido. O tempo em linha, ou Ostentação, estava a acabar...
- Quimbé! Meu bem! Não vás já! Temos tanto para falar, meu amor!!
- Ma-ma-ma-ma-ma- dizia Quimbé enquanto o Ostentação se torcia todo, as pessoas estvam estupefactas e a cadela ficava rouca de tanto ladrar.
- Mamãe eu quero! Mamãe eu quero! Mamãe eu quero mamaaaaaaaaaar!Oh dá a chupeta! Dá a chup...
- Cala-te Manel! O meu pai está-se a ir!- O Manel levantou-se e começou a dançar fazendo uma coreografia suspeita com o burro. Eu chorava agarrada à minha Giselle abraçda a mim fazia o mesmo!
- O que é que ele quer dizer? Oh! Ma-ma quê?- dizia o Jerónimo sem se aproximar muito do possuido.
- Mant- Mant-eigas...- E o Ostentação voltou. Quando percebeu que tinha restos do meu baton vermelho na boca, pegou na cadela e desatou a correr.
- Manteigas e padre...- disse, por fim o Costeleta- Hei de os apanhar! Com o além não se brinca!- Eu chorava desconsolada...Tenho tanto para falar com o meu Quimbé...Mas pelo menos ele ajudou!
- BLHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAC.
- Giselle! GISELLE!
- BEZERRINHA!- A Giselle acabava de se vomitar toda, tu queres ver que...
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