terça-feira, 8 de julho de 2008

Giselle no terreno

Ai, graças a Deus que vim para a casa da minha rica mãe enquanto tenho um ser que habita nas minhas entranhas...Sem dúvida que aqui na casa da minha mãe tenho muito mais conforto do que naquela espelunca onde mora o Manel! Mas isto não quer dizer que me livrei dele, não, infelizmente não. Ele veio para cá também e o pior é que o quarto de hospedes está coberto de palha mal cheirosa para o Simão...Sim, é nojento, mas o burro mora cá em casa também. Neste momento o Manel está lá com ele a fazer sabe se lá o quê, está lá sempre. Desde que soube que ia ser pai que nunca mais me chamou de bezerrinha nem nada...Anda desligado e lunático. Eu admito: Aprendi a gostar do meu marido. Ele é um bronco, mas que posso eu fazer? Os dias passam e tenho de me contentar com o que tenho!
- Giselle, querida, estás bem? Alguma dor?
- Não mãe, estou óptima!- A minha mãe está preocupada comigo, coitada. O Ostentação agora não a larga e para satisfazer os desejos do sem-abrigo de vez em quando vão a um baile que há na associação recreativa de Jarrinhos, uma aldeia aqui ao lado da nossa. Os dias passam tão devagar quando não temos nada para fazer...Na roça do Manel sempre me entretinha a lavar as coisas, estava sempre tudo porco, mas agora não tenho nada para fazer está tudo tão morto. E a Marta nunca mais disse nada! Grande amiga! O Mauricio até me disse para lhe dizer à uns dias que ia não sei onde ao funeral de uma tia. A Marta não estava em casa, ele saiu a correr, pediu-me para lhe dizer mas até agora não a vi...Andamos desencontradas, não sei...
- TRRRRIIIMMMM- O telefone toca e eu atendo.
- Olá, daqui Giselle Quimbé dos Coices da residência Quimbé, quem fala?
- Giselle!
- A própria...
- Sou eu a Marta!
- Ah! Já não era sem tempo! Olha, amiga, o teu marido foi a um funeral de uma tia. Deves estar preocupada...Já não o vês à imenso tempo não? Onde andas metida? Como está o bebé? Já falta pouco para nascer!
- Já nasceu
- O quê? E tu não me dizes nada? Ai, Marta que desilusão me estas a sair...Nunca mais eu..
- Giselle! Não posso falar muito mais! Mas o meu Xavier é lindo...Olha! Mas escuta! Estou com o Manteigas e com o Paixão e...
- Com o Paixão? Ohh...e como ele está?
- Ele é um bandido de primeira! Mas escuta...Eles a modos que me raptaram!
- Oh!- Não queria acreditar! Estava explicado a ausência da Marta- Mas porquê? Como?
- É uma longa história, depois explico. Agora estou a falar de uma cabine telefónica, eles foram comprar comida, estamos nos arredores de Torres! Tens de me vir aqui buscar! Eu-eu-eu...
- Alô?? Giselle em linha! Marta??
- Giselle! Estamos numa aldeia perto de Torres, qualquer coisa verde! Rápido senão...
- Verde?- E depois a ligação caiu. Comecei a entrar em pânico. TINHAM RAPTADO A MINHA AMIGA! A MINHA ÚNICA AMIGA! Mas comigo não faziam farinha! Ah, não! Eu já vi muito filme lá das américas, eu sei bem como lidar com isto e...
- Giselle, a mãe vai às compras a Torres não tenho nada de jeito em casa.
- Não! Não, mamã...Eu própria vou, deixe-se estar. Estou farta de estar em casa! Ah! Mas não diga nada ao Manel, senão ele quer que eu leve o Simão e não sei quê e eu preciso de me distrair!
- Giselle, deverias ficar em casa e descansar!
- Não, mãe deixe lá, eu vou num pé e voltou noutro.
- Está bem, vai lá...- A minha mãe cai em todas. Deu-me a lista de compras que eu nunca faria e lá fui eu rumo a...a...qualquer coisa verde! Como chegaria lá? Quando cheguei a Torres perguntei a um mendigo e ele disse-me que eu só me podia estar a referir a Tutano Verde, uma aldeia a 3 quilómetros de Torres.
- Como posso chegar lá?- perguntei.
- Só de barco...é do outro lado do rio Tonhinho...Apanha ali no cais e sai logo na primeira- Dei uma moedinha sem muito valor ao pobre conterrâneo do Ostentação e lá fui eu. Tutano Verde é uma aldeia agradável e extremamente verde. Casas verdes tudo verde. A minha missão era encontrar a Marta e o pequeno Xavier, mas como? Como conseguiria? Foi então que fui perguntando às pessoas se sabiam de alguma coisa. Ninguém sabia de nada. Estava exausta. Pousei o meu saco de verga que trazia ao ombro para disfarçar, porque para todos os efeitos eu fui ás compras, e qual não é o meu espanto quando sai de lá de dentro a cadela Patrícia. Pudera! O Ostentação não sai de lá de casa, claro que a cadela tinha de se vir aninhar aqui no meu saco!
- Patrícia! Anda cá! Cais-te do céu minha cadelinha mais linda! Anda, vá...Busca a Marta! Busca!- Eu olhava para a cadela feita parva e a cadela olhava para mim feita cadela- Vá! Busca! Busca! Au! Au!- A cadela não se movia e eu estava ali a empurra-la pelo rabo- Váaaaaaa...Vá lá Patrícia!- Opá! A cadela tinha de fazer alguma coisa! Não diziam que ela era esperta? Então!
- Patrícia...Linda menina- disse eu agachando-me junto dela- eu, Giselle Quimbé dos Coices, prometo que se achares a minha amiga Marta ficarás para sempre em minha casa e terás sempre comidinha da boa!- A cadela parece que gostou da ideia. Abanou o rabo e preparava-se para arrancar mas hesitou. Olhava para mim novamente.
- Ah! Claro e o Ostentação também!- Conclui. A cadela é mesmo esperta! Quando lhe disse aquilo desatou numa correria. Eu também desatei a correr atrás dela e só esperava que a criança não me caísse li no meio do chão! A cadela correu e cheirou e só parou numa casa verde, que surpreendente, já a cair de podre com uma porta que era um bocado de madeira velho. Patrícia olhou para mim e com o rabito a abanar, cansada, deitou-se à sombra de um chaparro que crescia ao pé da casa. Pensei por momentos, ao entrar naquela casa, que a cadela estava enganada. Mas não! Mal entrei num dos quartos dei de caras com o...o...Paixão!
- Giselle?
- Padre?
- Que fazes aqui? Como estás aqui? E-eu tive tantas saudades tuas...- E vinha direito a mim.
- Ai! Não quero nada consigo! Por incrível que pareça agora sou uma Coices, estou grávida e gosto do meu marido.
- E esse filho, Giselle? Não será meu?- Porra! É verdade! O filho pode ser do padre! Afinal de contas eu...eu e o padre, antes do casamento...Oh, meu Deus! Será que...Oh meu Deus!!
- Este filho é do Manel!- disse eu com toda a certeza que não tinha.
- Como sabes? Giselle! Os meus desejos tornaram-se realidade! Vieste ao meu encontro! Vamos ser felizes juntos! Vamos fugir! O meu irmão também tem consigo quem ama! A Marta! Vamos...
- O teu irmão?
- Sou eu- disse o senhor inspector ao entrar no quarto do padre que já nem sei se é padre que já nem sei se é Paixão!- Giselle...minha querida! Não me digas que voltas-te para mim! Ou para o meu irmão? Ou vieste apenas ter com a tua amiguinha Marta?- Xavier? Voltas-te para mim? Irmão?- Estava confusa e grávida!
- Já não percebo nada, e só sei que quero ficar longe de vocês! A Marta? Que fizeram com ela?
- Ela avisou-te de alguma coisa? Cabra!
- Senhor padre! Então?- disse eu.
- Hernandez!- disse o Manteigas.
- Hernandez?- disse eu.
- Hernandez!- disse o Manteigas.
- A Marta!!- Gritei. Estava farta daquilo tudo! A minha amiga tinha tido uma criança, deveria estar fraca, onde andava ela afinal?
- A Martinha está mesmo...- E amordaçou-me aquele homem lindo que é o inspector, mas criminoso, e levou-me para uma cave onde a Marta se encontrava, fechada. A cave era um quarto mal cheiroso. Sei de quem se ia dar bem ali, mas eu não era de certeza!
- Marta!
- Giselle! Então?
- Oh! O Xavier é lindo!
- Estás aqui sozinha, Giselle?
- Sim, mas está descansada...Daqui a nada os Village People estão aqui...Deixei um bilhete na associação recreativa. Passei-o por baixo da porta antes de vir à tua procura. Hoje à noite há uma reunião, por isso...o nosso tempo aqui vai acabar! E os malandros vão voltar para a cadeia!
- Graças a S. Palito, graças a S. Palito...

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