quarta-feira, 16 de julho de 2008

Finalizando no altar

A minha vida naquela terra foi extremamente feliz. Apesar de ter crescido sem mãe o meu pai foi mãe e pai ao mesmo tempo. Fiz de tudo na minha infância: Cacei gafanhotos, depenei patos vivos, comi larvas, concorri a concursos de escarretas, atiradores de ovos podres, comedores de libelinhas em voo...Corri nu à beira rio com os miúdos, assustei miúdas com isto e no meio de tudo isto ainda ajudava o meu pai no café que agora é a grande "Biliobicateca". Depois recebi, enfim, a minha mãe, a senhora Marcolina, pessoa que sempre gostei com um gostar infinitamente persistente e incansável sem saber porquê. E lá estava: Era minha mãe. Hoje consigo compreender tudo por que passou, ela e o meu pai, claro...Hoje sou um advogado de sucesso! Formei-me em Favos, a cidade grande, numa das melhores faculdades de Direito do país: Faculdade das pessoas que querem seguir Direito e outras coisas de Favos. Pois é, estas outras coisas é o que faço. Não sou propriamente advogado, apesar de ter defendido, por suborno da Eunice, o Xavier, o antigo inspector Manteigas, na justiça. Não ganhei a causa, mas também...pff, com tanta porcaria que o homem tinha feito nem que Deus o tivesse defendido! Hoje sou um homem realizado e ainda mais vou ficar! Hoje é o dia do meu casamento!
- Filho...nunca mais te despachas! Que andas a fazer?
- Mãe...Está tão...tão linda! Onde arranjou esse vestido lilás, verde, amarelo e...
- Cinza!
- Cinza? É lindo...- A minha mãe estava super atarefada com o meu casamento e estava incrivelmente feia. Acabei de me arrumar, pus um perfume bem cheiroso e desci as escadas da minha casa. Olhei-me ao espelho, no espelho que fica no fim da escadaria. Estava como nunca me tinha olhado naquele espelho: Não havia resíduos de gordura nem nódoas de tomate na minha camisola! A minha boca não cheirava como se tivesse comido um prato de caracoletas! O meu nariz estava limpo! Tinha crescido...Já não era o miúdo gordo e balofo do Bica, era agora o filho respeitador do Bica era o...Presidente da Vila Sem Nome! Concorri, fui eleito e agora cá estou eu!
- Ahhh estás um xuxuzinho, meu filho...(snif, snif)
- Não mãe, não me mexa na gravata...Não! Não me toque no cabelo! Mãe...Mãe! Não chore...Mãe, vá lá...Não, não está borrada! Venha cá mãe! Não se feche na casa de banho que eu...
- Deixa lá Crispim...- Jerónimo da Bica, meu pai- as mulheres são assim...Choram por tudo!
- Oh pai...pai! Está a comer os croquetes para levar para a assossiação recreativa?
- Estes são para o copo de água?
- Claro pai!
- Epá...- O meu pai nunca ia mudar. Estava muito bem arranjado naquele dia. Já não tinha mesmo quase cabelo nenhum, afinal já se tinham passado 10 anos... Os sinos tocaram naquele momento! Oh! Ia-me casar! Ia-me casar com a mulher dos meus sonhos!!
- Rápido! Vamos! Mãe saia da casa de banho! Tenho de ir ver como estou, tenho de fazer xixi! Tenho de...Mãe! Vamos chegar atrasados à igreja!
- Crispim! A Igreja é a dois passos daqui! Não te vais casar a Torres, filho!
- Mas pai...A noiva é que chega atrasada! Eu tenho de lá estar já! Agora!
- Pronto!- disse a minha mãe ao sair da casa de banho- Estou pronta!- Quando eu e o meu pai olhámos para ela...A sensação foi...Bom, a minha mãe fica horrível de batom vermelho mas eu não tive coragem de lhe dizer isso.
- Lininha...Estás linda!- O meu pai beijou a minha mãe e ela ficou ainda pior: Borrada.
- Borrastes-me Jojó!
- Não mãe! Assim ainda está mais bonita! Está exótica!- Ela caiu nesta e fomos para a igreja, finalmente! Quando cheguei lá as minhas pernas tremeram...As pessoas já estavam lá sentadas. A primeira pessoa a cumprimentar-me foi o Maurício, o meu padrinho de casamento. O tempo também passou por ele e, agora, com uma barba e cabelo já a branquear estava no altar com a Marta que com o passar dos anos ainda ficou mais bonita.
- Então, miúdo? Nervoso?
- Um boooom bocado...
- Ahh...isso passa! Quando vires a tua noiva vais ver!
- Se fores aqui como o teu padrinho- disse a Marta- desatas num berreiro que so visto...Quase que chamou pela mamã!- E rimos daquilo. O Xavier já era um homem feito! E diziam que namoriscava com a nova manicure da vila: A Ana Simone. Junto dele estavam os seus 4 irmãozinhos e dentro da barriga da mãe vinha a caminho aquela que daquela vez seria rapariga, mas que nunca era...Na primeira fila estava o senhor Costeleta e a sua mais recente...namorada! Desde que fez de cherife no filme que passou apenas e só no cine-teatro de Torres as miúdas não o largam! miúdas novas que andam atrás dele, mesmo sendo ele zarolho...Ah...escapou-vos esta? O senhor Costeleta perdeu um olho numa das cenas do filme da Eunice. Levou com um tiro de uma pistola de fulminantes. Mas ainda bem! É isso que lhe dá todo o charme! Aquela pala preta no olho direito derrete os corações das moças. A que estava com ele devia ter uns 18 anos e acariciava-lhe o cabelo que quase não o era.
- Olá senhor Costeleta!
- Ohh...meu rapaz! Parabéns pelo casório! A noiva?
- Ainda não chegou...
- Ui! Então senta-te!- Estava demasiado nervoso para me sentar. O suor escorria na minha testa e as minhas pernas tremiam como varas verdes! A igreja começava a encher. Chegaram a dona Matilde e o Ostentação, de braço dado. Os mais bem vestidos. O colar do Quimbé valeu-lhe uma fortuna e o Ostentação não era de todo um aproveitador...Ele já gostava dela, só se juntou o útil ao agradável. O Ostentação levava uma bengala com uma pega de ouro e a dona Matilde um vestido que deviam ter custado os olhos da cara!
- O meu futuro neto...Cuida bem da minha neta, ouviste(s)?
- Claro que sim dona Matilde...Eu amo a sua neta.
- E tu vê lá! Atiço a Patrícia contra ti e vais a correr daqui a té torres!- E nisto sai de trás do Ostentação, que agora realmente tinha ostentação, a cadela Patrícia, velha e gorda como tudo, com uma coleira de ouro e brilhantes. Acho piado aos velhos...Já tinha passado quase meia hora! Meia hora! E eu estava ali...
- Passou só cinco minutos, tem calma, filho...- disse o meu pai.
- Cinco? Parece que estou aqui à meses!
- Caaaalma...- dizia a minha mãe. Naquele momento a policia entrou dentro da igreja. Fiquei assustado e corri para perto de um agente.
- Passa-se alguma coisa? A minha noiva?- perguntei.
- Não, viemos só acompanhar aqui o pai da moça...- Estava explicado. O inspector Manteigas, ou investigador Xavier ou sei lá, ia ao casamento da filha. Estava preso, é certo, mas mesmo assim foi assistir à cerimónia.
- Fazes uma coisa do tamanho de um tremoço à minha Manteiguinhas e levas um excerto de pancada que...
- Vamos lá a ter calminha e respeitar aqui os agentes de autoridade meu mariconso!- disse um dos agentes. O meu futuro sogro, agora só neste mundo, já que o seu irmão, o padre Paixão, ou Hernandez se foi, calou-se e começou a olhar em volta. Sentia-se triste, eu sei que sim...A "sua" Martinha, era agora dona de um dos mais frequentados salões de beleza (e conselhos sentimentais) do concelho de Torres! A Giselle, agora era a senhora Giselle, minha futura sogra, era uma espécie de psicóloga no salão da Marta ("sentimentalhair") e ajudava o Manel no "café do Coices" e no mini-mercado que havia atrás deste. Mais atrás estava a famosa Eunice, grande realizadora que se preparava para abrir uma agência de produção com Jacinto Quimbé, produtor cinematográfico cujo currículo já havia passado pelas mãos de muitos que, infelizmente, não aceitaram. A igreja estava cheia! Até o preso já tinha chegado! Faltava a noiva e...Oh! A mãe da noiva!
- Dona Giselle! Onde anda a Ana?
- Ela está lá fora, vai entrar agora.- A dona Giselle estava também muito bonita. O café estava dar lucro e sempre dava para gastar uns tostões com uma ou outra roupita mais rica.
- Mas...o pai dela está aqui...Não é ele que vai de braço dado com ela?
- Não- disse a dona Giselle- ajeitando o vestido rapidamente à sua barriguinha de 3 meses. Desta vez vinha lá um Manelinho...- Ela preferiu que fosse o Manel...Ele é o verdadeiro pai delas.
- Hum...err...estou bem? Acha que estou bem dona Giselle?- E de repente..."TAN TAN TAN TAN", soava a marcha nupcial...Eu era uma cascata de água! O padre subiu ao altar. Era novo e bem parecido...ai...a minha sogra está novamente a fazer olhinhos a um novo padre...Mas que importa! A noiva vai entrar na igreja...Tem o véu a tapar-lhe a cara! Bolas! Esta moda de hoje em dia! Mas estava linda...E a igreja também! A minha mãe sempre foi má de vestir, mas para decorar...Aquelas rosas pêssego condiziam perfeitamente com a beleza da minha doce Ana Manteigas. Iam a desfilar na passadeira, enquanto as outras damas-de-honor, as outras duas Anas, agarravam a cauda do vestido, e todos ficaram espantados! Não sei se pela beleza da minha noiva se pelo facto do Manel...Oh meu S. Palito! O Manel tinha tomado banho! Afinal ele não era tão moreno! Ele estava sujo! Ao passar debruçava-se para as pessoas de modo a elas sentirem o seu perfume. Levantava o pescoço e inspirava fortemente. Estava feliz, o Coices. Ele e a Giselle seriam os padrinhos da minha amada. No altar estava também Simão, o burro, com florinhas nas orelhas. Foi ele que sustentou o ramo de flores da noiva durante a cerimónia. A noiva foi-me entregue. Preparava-me para levantar o véu...Todo o movimento de levantar o véu, desde o seu colo até ao topo da sua cabeça foi como uma linha do tempo. Passou-me pela cabeça tudo e mais alguma coisa. E quando olhei para ela, depois de o véu devidamente puxado para trás, aí sim, percebi que se tudo aquilo não tivesse acontecido eu não a teria...Ela sorriu. Todos estavam a sorrir. Comecei a chorar. Não chamei a minha mãe, como a Marta me tinha dito que o Maurício fez, porque ela ainda estava pior. Olhei para um dos claustros da igreja e vi...vi alguém que não era alguém. Aliás eram dois alguém! E será que eram alguém? Era...A senhora Prudência e aquele a que chamavam Quimbé!! Eram fantasmas, mas eu não tive medo algum!Estavam os dois a rirem-se e a...apalparem-se? Bom...Estavam felizes, como eu! Estava na altura, era agora...E, finalmente, quando disse o sim pensei,antes de estalar aplausos: "Valeu mesmo a pena".
- BAMOS COMEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEER!!!- O meu sogro não muda...Nunca mudará!A boda foi muito divertida e animada. O bolo, vindo de Torres, encomendado pelo Manel, meu sogro, dizia: Felixidades aos Noibos"...Não nos importámos com os erros, aliás não houve tempo para isso! Mal pus o pedaço do bolo, como em todos os casamentos fazem, na boca da minha noiva, os convidados saltaram em cima do bolo como se não comessem à três semanas! Nem um bocado provei...Mas não há qualquer problema, não é isso que importa... Lua de Mel aqui vamos nós! Ah! E querem saber quem apanhou o ramo de flores, atirado mesmo antes de irmos para a nossa lua de mel em Boa Praia? Adivinhem.

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