terça-feira, 1 de julho de 2008

Ao ataque!

- Oh senhor Bifana! Entrecosto! Costeleta! Epá, tou a ficar cá com uma fome...
- Que é Manel? Pára de gritar, que horror!- Disse eu descendo do comboio. Tinha ido a Paparicanso tratar de uns negócios, estou a pensar abrir um talho, aqui na vila, já que as pessoas encomenda sempre a carne no café do Bica...
- Epá, bocê não sabe, mas a sua mulher morreu! Bateu as botas! Puff, foi pelo cano!
- O quê?? A minha amorinha? A minha libelinha de asas douradas? O meu tesouro de chocolate?
- Ah...a senhora primeira Prudência dama...táxe lembrado?- Ouvi estas ultimas palavras do Manel antes de entrar em pânico.
- Não!!- dizia eu esbracejando enquanto todos lá na estação me olhavam como se fosse um animal exaltado- Nãaaaaaaaaaaaaaaaao! A minha pintainha perfumada! A minha vaquinha de leite doce! A minha mussinha de mangaaaaaaaaaaaaa! Estás a brincar! Estás a brincar! Manel dos Coices! Estás a brincar, só pode- dizia eu num berreiro de que hoje me arrependo.
- Eh...também não é preciso tanto, senhor Costeleta! Ehhhh ela já era belha! A Eunice tem mais chicha!
- Não...Leva-me até ela! Quero vê-la!
-Mas ela tá morrida...
- Leva-me!- Foi então que o Manel me levou para a vila. Fomos no burro dele, o bom é que não paguei taxi. Quando chegámos a vila, estavam a por o cadáver da minha papoilazinha na ambulância. Corri para lá e bruscamente destapei a minha feijoadinha à transmontana. Que visão...Como é que ainda com 40...45..55...68 anos a minha algazinha do fundo do mar era ainda tão esbelta e aquele sorriso...sorriso? Ela estava a sorrir!
- Ehh...Ela estaba a rir! Debe ter morrido a fajer coisa boa! Bem boa! Não acha Costeleta?- disse o Manel que também observava a minha delicia filhada por cima do meu ombro. Olhei para ele e disse:
- Achas? A minha pobre cerejinha só tinha olhos para mim...
- Para si tinha os olhos, para o Jerónico tinha outra coisa!- E começou a rir parecia um zurrar de um burro, está cada vez mais parecido com o seu animal, aquele animal.
- Que é que estás para aí a dizer?
- Tão! Ela e o Jerónico foram amantes por uma noite! O senhor só não sabia porque estaba lá para Paparicanso! Ui! Diz que foi forte! Diz, diz...- Choquei. Eu mato aquele anormal de dente amarelo! Eu matooooooo!!! Nisto, o Jerónimo chega de carro. A cena foi esquisita. A Marcolina corre-lhe para os braços beija-o toda a gente estranha, uns choram, a cadela do Ostentação aproveita para fazer uma mijinha na roda do carro. Todos dizem viva, viva, o puto do Bica está feliz, a multidão a dispersa e os velhos preparam-se para mais um beijo quando eu interrompo com um valente murro na cara do fura casamentos do Bica!
- Animal!- digo.
- Ehhh não bamos entrar por aí! Eu não tenho nada a ber com isto, ai...
- Cala-te Manel, estava a falar com o Bica...Andas-te a marmelar com a minha mulher!
- A culpa foi dela! E aliás...agora não quero saber disso, só tenho olhos para a Lininha!- Ele estava decidido a ser feliz com a Marcolina. Que fraca escolha, por amor de Deus!
- Amorzinho! Amorzinho!- Vem de lá a Eunice- Tem calma, anda para ali para o meu salão, chegaram um novos óleos de massagem, eu vou te massajar e...
- Sai daqui, Eunice! Saiam todos!! Quero ficar sozinho!! Saiam!
- Ehhh...estamos na rua, senhor Costeleta!
- Saiaaaaaaaaaaaaaam!- Todos se meteram nas suas tocas e a rua ficou deserta. Ajoelhei-me naquela onde deveria ter sido a cena do crime...Ainda conseguia sentir o perfume a rosas da minha borboletinha...Como fomos felizes. Nunca tivemos filhos, mas fomos tão felizes. Aquele assassino...Matou a prima da Marcolina, matou a minha bonequinha de porcelana, quem mais vai ele matar? Eu digo! Ninguém! A partir de hoje, hoje mesmo, agora! Serei" Costeleta, O Justiceiro". Hei de descobrir tudo! Mas até lá...vou chorar a morte da minha sorridente bananinha doce...
- Senhor Costeleta?- Chegou-se alguém enquanto sentia a falta do meu pastelinho de bacalhau.
- Giselle...que fazes aqui?
- Sinto muito pela sua mulher...Apesar de tudo ela era boa pessoa.
- Mas traiu-me!
- Pois...eu também traí o Manel enquanto namorava com ele, mas agora...sabe? Agora já me estou a habituar...Aquele cheiro a cavalo, aquele cabelo rançoso, aquelas mãos gretadas e ásperas, aqueles pés mal cheirosos...Faz tudo parte da minha felicidade. E acho que me tornei uma pessoa melhor!
- Optimo, minha querida, mas o que é que isso tem a ver comigo e com a minha gatinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa? Buaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
- Nada. Mas sabe, estava a pensar criar uma espécie de liga contra o crime aqui na vila- Fiquei espantado! Havia pensado nisso no minuto antes!
- Pensei nisso também!- Levantei-me de repente, sacudi a terra dos joelhos e disse: - Giselle, rapariga, tens alguém em mente para fazer parte dessa equipe?
- Tenho! Até porque já falei com algumas pessoas. O Ostentação quer participar, aliás ele sente-se injustiçado, e dizem que ele agora vai sair do xadrez por isso está cá para as curvas!Ah! E a Patricia também, até porque temos de ter alguém para dar umas boas mordidelas!
- Muito bem, muito bem, continua...
- Pois, mais...Ah! O Bica disse que também participaria, para além da dona Marcolina não o querer deixar participar, não sei porquê...Ela, portanto, diz que não se quer meter nisto e não sei quê, coisas de velha...
- Compreendo, compreendo- dizia eu.
- Bom, depois temos ainda o Manel, eu faço-lhe uns agradinhos e ele vem, ele e o monstro do Simão, porque também precisamos de transporte, não é? Depois, a minha mãe. Diz que quer honrar o meu pai, Quimbé, e vem também. A Eunice também não quer...Essa que é tão para a frente...Não quer.
- Azar, também não quero nada com ela. Ou seja temos: Eu, tu, o Ostentação, o Bica, o Manel, a tua mãe e...
- E a Marta! Ela também vem!
- Já somos alguns! E o padre?
- Oh...padre? O padre? Que padre?- Ela estava-se a fazer de parva.
- Sim! O Amor, ou Desejo ou Paixão, ou lá como ele se chama!- A Giselle baixou a cabeça. Ando mesmo desactualizado das coisas daqui...Parece que o padre saiu da vila...Quando for eleito tenho de...Epa! Pelo menos não tenho candidatos para a presidência da vila! Algo bom! Bem, éramos então 7 pessoas que iríamos por fim a toda esta trama! Sete é um bom número! Óptimo!O bandido vai aparecer e vai pagar por tudo o que fez!
- Então senhor Costeleta? O que me diz de montarmos esta organização?
- Claro que sim! Seremos os " Village People", tenho a certeza de que ninguém até 1958 se lembrou de um nome tão lindo para uma organização!
- Que nome, senhor Costeleta...Isso aparece mais um nome de uma banda gay...
- Cala-te! Alguma vez? Que disparate! É o nosso nome...o nome daqueles que irão apanhar o malandrão! Uma banda gay...que coisa impensável, pff...

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