terça-feira, 6 de outubro de 2009

A maçã da verdade

Não entendi nada daquela noite, nem entendi nada do que se passou naquela manhã. Pelo menos, não fui o único.
- Menina Aurora!- disse eu, entrando na cozinha e evitando que Aurora saia pela porta dos fundos.
- Oh, Frederico, bons dias. Ia mesmo agora apanhar umas maçãs ao pomar, aguarde apenas um instante, volto já.
- E se a for ajudar?
- Está bem, é com muito gosto que aceito a sua ajuda- E lá fomos. Eu agarrava num grande cesto de baixo da árvore e a Aurora, teimosa, subiu a uma escada e tirava, uma por uma, as maçãs da macieira- Ai! Peço desculpa, Frederico! Daqui a nada não tem cabeça para tantos galos de macieira!
- Ora essa, menina Aurora! Mais um menos um...é mais um para a sinfonia!- e riamos os dois.
- Então, mas meu caro Frederico, diga lá o que me queria.
- Nada de mais, nada de importante...
- Homessa! Diga lá, não gosto de rodeios.
- É que...Ontem vi-a a espreitar a porta da condessa- quando disse isso a menina Aurora quase se desiquilibrou- Epá! Cuidado!
- Credo! Eu?
- Sim, a menina...Não vale a pena disfarçar! Sei que também sabe do outro, do tal homem...A pergunta que lhe queria fazer é se conhece o sujeito- Ela continuava a colher as maçãs e atira-las para mim.
- Não, não sei quem é nem quero saber! A senhora lá sabe da vida dela.
- Mas ela está a trair o senhor e é meu dever como seu...
- Você cale a boca!- Disse ela, parando com as maçãs e ameaçando-me com uma- Nem uma palavra ao senhor conde!
- Mas, menina Aurora é meu dever!
- Oiça- disse ela, descendo das escadinhas- Não vê as consequências se disser alguma coisa? Lá se vai a Santa Terrinha, lá se vai tudo!
- Tudo?
- Tudo!
- E o que pensa fazer, menina Aurora?- Num instante ela desequilibra-se e cai redondinha no chão- MENINA AURORA!- Disse eu, atirando o cesto das maçãs para o galheiro!- MENINA AURORA! ESTÁ INCONSCIENTE???- Estava mesmo. Agitei-a.- Menina Aurora, acorde, acorde! Mas agora desmaia-me assim, é o seu passatempo?- Decidi pegar nela e leva-la ao colo até casa. Pesada como tudo, a menina Aurora é bem cheirosa e a dormir, serena, ainda é mais bela.
- Ai Santo Padre S. Toeotónio! Que fizeste à rapariga?- Disse a Caetana, que começava a preparar o almoço.
- Nada! Juro! Ela estava a tirar maçãs, desiquilibrou-se e pronto, vai de cair! Vou leva-la para o quarto.
- Não! A Rita está a limpar tudo. Leva-a para o quarto de hospedes- Assim o fiz. A Caeatana foi comigo, mal chegámos à porta do quarto de hóspedes constactámos que a porta estava trancada. A Rita devia se ter enganado e deu mais voltas à chave.
- E agora, dona Caetana? Não me aguento nas minhas magras pernas! Decida lá, e rápido, para onde levamos aqui a desmaiada.
- Para o quarto da senhora! Ela não está e não se deve importar- E assim foi. Fomos para o quarto da senhora e, finalmente, deitámos a menina Aurora na cama. Não sentia os braços, as pernas. A rapariga é mesmo pesada- Vou buscar uma coisinha que tenho ali que é tiro e queda para acordar donzelas.
- Oh, oh dona Caetana! Nada dessas coisas...se o conde a apanha, da maneira como ele é, ainda a leva para a...fogueira- disse eu, baixinho- Traga um bom jarro de água fria do poço e despejamos-lhe em cima!- Assim foi e assim a bela donzela acordou.
- Santo Sancramento!- disse, quando acordou, ensopada- Au...doi-me o corpo todo e...Ui! Tenho uma dor forte no pé!
- Partiu o calcante, menina. Que azar...- disse a Caetana- Mas olhe, tenho ali uma coisinha que é tiro e queda para dores e...- Só olhei para ela com o ar reprovador- Isto é...- repôs ela- vou ali e já venho!- e desapareceu.
- Então menina Aurora? Quer se matar e matar-me a mim do coração?
- Sois tão amável, Frederico...Oh! E as maçãs?...Oh Meu Deus!
- Não se preocupe, já mandei um criado apanha-las. Estarão fresquinhas para o almoço.
- Sois o meu braço direito, o meu melhor amigo no meio desta vida...- E agarrou-me na mão. Senti-me encabulado e envergonhado.
- Ora essa, cara menina Aurora! Eu? Sou um criado ao seu serviço, sempre. Quer que lhe arranje as almofadas?
- Sim, por favor- Foi aí que encontrámos o que não esperavamos.
- Está qualquer coisa aqui debaixo da almofada, toquei-lhe, mas agora não a encontro...- disse eu- até que...
- Um anel?
- Um anel...- disse eu- E mais!
- Santo Deus...
- Tem a coroa Espanhola...-Ficámos os dois espectados a olhar para a joia." Seria o conde espanhol o amante da condessa?", esta foi, certamente, a pergunta que passou pela cabeça da menina Aurora. Pela minha passou, mas o meu pensamento foi interrompido.
- Cá estou!- disse a Caetana, da porta do quarto- E vejam o meu antidoto para as dores: O barbeiro aqui de Santa Terrinha!- E heis que aparece uma figurinha franzina com uma maleta e um chapéu- Ele trata de tudo! Vamos, senhor barbeiro, sem medos! Vamos lá a tratar da moça- disse a cozinheira. Naquele momento a menina Aurora olhou-me assustada. Num gesto rápido pegou no anel e guardou-o...bom...no decote. Eu levantei-me da cama e dei lugar ao barbeiro. Fui andando devagar até à porta e a Aurora acompanhava-me com o olhar. As nossas almas estavam confusas, muito confusas...

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