Sinto-me tão cansada, os meus pobres pés já não aguentam os sapatos e sinto a cabeça pesada a pedir desesperadamente por uma almofada. Aqui as noites são abafadas e não se sente nem uma brisa lá fora. Dei voltas e voltas na cama mas não conseguia adormecer, nem sequer fechar os olhos. De um dia para o outro a minha vida mudou e agora sinto-me tão só e perdida. Nunca tinha saído sequer da aldeia e vejo-me agora no meio de condes, cavaleiros, batalhas e perigos tal como nas histórias que o paizinho me contava para adormecer. Mas por alguma razão não consigo estar entusiasmada. As pessoas são frias e intimidantes, tudo está planeado e ensaiado não deixando espaço para gestos livres e expontâneos. Quem me dera ir lá fora e passear pelos bosques, deitar-me na relva, nadar no rio ... mas é impossível. Não estou a ser ingrata, gosto bastante da D. Isabel apesar das mudanças de humor e dos caprichos. Trata-me bem, com respeito e não como uma escrava. Fala-me de si e dos seus problemas, coisas que não se contam às amigas próximas quanto mais a alguém que conheceu à poucos dias. É essa confiança que me tem dado forças para aguentar os meus dias, sempre iguais. Adormeci com o sol já no horizonte.Oh meu Deus! Acho que me deixei ir pelo sono, a D.Isabel já deve ter acordado!! Tenho de me despachar ou a senhora enlouquece ...
Desatei a correr pelas escadas e abri a porta devagarinho já a antever o sermão que ía levar. Estava muito escuro, as cortinas ainda estavam corridas e pelo ressonar deduzi que a senhora ainda dormia. Entrei devagar para não fazer barulho e fui pelo lado do senhor conde, que já devia ter saído para a caçada, estendi a mão para tirar a almofada e ... mas, isto é ... cabelo!! Oh meu Deus o senhor conde ainda aqui está! Nem sei como consegui suprimir o grito de surpresa. Voltei para trás e fechei a porta. Que estranho, não costumam dormir até tão tarde. Se calhar sou eu que troquei as horas, talvez seja mais cedo do que eu pensava.
Desci até à cozinha onde estava a cozinheira em grande aflição, cheia de farinha nos braços e até na cara.
- Então menina Aurora? A senhora Isabel está bem? Já viu as horas que são, já lá foi ver se está tudo bem?
- Vim de lá agora mesmo, a senhora ainda dorme tal como o senhor conde.
- Que disparate é esse rapariga? O senhor conde saiu ainda de madrugada para a caçada!
- Mas então ... eu ...
- Mas então o quê? Se for pelo barulho esquece, bem sabes que a senhora ressona que nem um porco. Lá por ser uma dama não deixa de ser uma pessoa.
- Pois deve ter sido isso fiz confusão.
Nisto entra a Rita enxarcada em suor e com um cesto de fruta no braço.
- Então sua senhoria já se levantou?
- Vê como falas Rita!! Dona Isabel ainda está a dormir.
- Estava a falar aqui da princesa. Esta não é escrava como as outras, levanta-se às horas que quer, parece uma rainha. Deseja alguma coisa para comer vossa senhoria? Um morango talvez? - diz Rita forçando uma vénia.
- Não sejas assim Rita! Vai mas é trabalhar que é para isso que aqui estás, não para andares a comentar a vida dos outros. Mas diga lá menina, quer um pãozinho? Qualquer coisa?
- Não obrigado minha senhora. Vou ver como está a condessa, com licença.
- Vê lá o senhor conde não te morda!
- Rita!!
Eu posso parecer inocente mas sei perfeitamente que aqueles cabelos não eram da senhora, ela dorme com a cabeça enfaicada em lenços com medo dos piolhos. Deus queira que o senhor conde tenha voltado sem ninguém reparar, se bem que é difícil. Passei pela porta e, Deus me perdoe, encostei o ouvido para tentar perceber se já tinham acordado. Nada. Esse nada significa que a senhora acordou. Tentei espreitar ela fechadura, vi luz e umas sombras de um lado para o outro, depois pararam. Desencostei a porta e espreitei lá para dentro. Vi a D.Isabel na sua camisa de dormir sentada à ponta da cama. Não estava mais ninguém, eu sabia que não devia ter desconfiado dela, depois disto vou direitinha à confissão que isto não são coisas que se pensem de uma dama, os cabelos soltaram-se das faixas com certeza. Preparava-me para abrir a porta quando ... um homem! Não é o senhor conde de certeza, é mais alto e tem cabelos claros.
- Adious señorita, vou mas volto así que puder pois no consigo vivir sin tus besos. - declarou o homem.
- Adeus meu Raúl. - respondeu a senhora.
Oh meu Deus, que não sei qual pecado é maior, o meu, por estar aqui a olhar pela porta ou o da senhora, o pecado da luxúria. Deus nos abençoe!
Fiquei perturbada com a situação, devo ter ficado ali parada de olhos fechados algum tempo para me recompor. Que vou eu dizer? Que vou fazer? Devo fingir que não ouvi, que não vi ... e o senhor conde? Devo-lhe respeito e fidelidade, é meu dever informá-lo mas ...
- Aurora?
- Senhor Conde!!
- Calma rapariga! Estás mais pálida que o costume e ... quer dizer isso é bom, a não ser que esteja a sentir-te mal, aí é mau ... queres alguma coisa? Posso ajudar-te?
- Não é nada senhor! Já voltou?
- Sim, garanto-te que sou eu e não uma assombração! Quer dizer, cruz credo, que a minha alma vai direitinha para o céu se Deus quiser! E há-de querer com certeza. A senhora já está de pé?
- Sim, quer dizer, não está composta eu própria ainda não ...
- Então dá-me licença que preciso de falar com ela.
- M-mas ... ai realmente não me sinto bem, até acho que ...
E foi aí que desmaiei, quer dizer, não desmaiei fingi. Oh meu Deus tanto pecado num só dia, a minha pobre alma está mais que condenada. Mas tinha de fazer qualquer coisa, no fundo preveni uma desgraça porque se o senhor conde encontra-se a esposa com outro homen nos aposentos ... nem quero pensar. Pronto, ao menos não me sinto tão culpada. O homem levou-me nos braços até ao meu quarto. Talvez fosse o tempo de acabar com esta farsa, já preveni o encontro, agora já chega. Pousou-me devagar na cama e senti-o a sentar-se nela. Preparava-me para abrir os olhos quando ele começou a falar.
- Sois tão bela Aurora! Sei bem que devia ter chamado o padre Damião para ajudar, e não pense que não me preocupe com o seu bem-estar, mas agora que está aqui sem mais ninguém e que não puderá ouvir os meus devaneios ... eu, eu tenho de lhe falar ... tenho de lhe dizer o que sinto, a verdade é que ... é que a amo!
A porta abriu-se de repente e eu não consigo evitar o sobresalto e levantei-me. Era D.Isabel.
- Mas o que significa isto??
- Isabel tem calma que ...
- Não penses que me enganas tu! A aproveitares-te da rapariga que nem deve saber bem o que está a fazer! Seu ...
- Tenha calma senhora! Eu senti-me mal e o senhor conde teve a bondade de me ajudar.
Mas porque é que sinto a obrigação de lhe agradar? Depois do que ela fez ... devia contar de imediato, mas ... o senhor conde também se revelou e ... estou tão confusa! Vejo pecado em todo o lado, eu ...
Voltei a desmaiar, mas desta vez foi a natureza que o ditou.
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