quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sangue de Cristo!

- Senhor padre, venho confessar-me, pode me receber?
- Menina Aurora? Sabeis que não é a hora das confissões...Porém, arranjo um tempinho, limpo isto depois.- Disse eu, enquanto pousava a estátua da santa, que haviam oferecido à igreja. Fomos até ao confessionário.
- Senhor padre, obrigada por me ouvir, se não falar consigo expludo!
- Oh Deus! O que a atormenta?
- Tudo e mais alguma coisa!
- Vamos começar então.
- Senhor prior, a minha senhora trai o meu senhor! Trai e com um espanhol!
- Santo D...
- E o meu senhor está apaixonado por mim e...
-Disse-vos directamente?
- Não, não, Jesus! Estava desmaiada e ele pensou que eu não estava a ouvir.
- Anda com muitos desmaios, menina Aurora.
- Sim, isso também é verdade. Mas...Ouviu o que lhe disse? A minha senhora trai o senhor conde com um espanhol!
- Ah, isso...pois, é...chato.
- Chato? É uma traição, senhor prior! Aos olhos de Deus! Logo ela que é tão religiosa...
- Não se meta nessas coisas, Aurora. É um concelho.
- Não me estou a meter, estou-me a confessar, senhor padre. O meu pecado foi ter escutado , pela manhã, a voz dele, do tal amante e dela, já o senhor tinha saído. Depois, eu e o Frederico encontrámos no quarto dela um anel espanhol!
- Vos e o Frederico, o escudeiro do conde?
- Precisamente.
- E o que fazieis no quarto da condessa com o escudeiro?
- Tinha desmaiado e...
- Desmaia para obter as coisas, Aurora? Isso não se faz!
- Nada disso, senhor padre! Deus seja louvado! Juro pela alma da minha santa mãe que só da primeira vez é que desmaiei para encobrir a minha senhora. Seria a desgraça se o senhor conde a encontrasse em trajes menores com o espanhol.
- E o Frederico?
- Ele estava-me a ajudar, é meu amigo.
- Não há amizade possivel entre homem e mulher, menina Aurora. Ele deve querer algo mais!
- Não me parece, ele anda enrabichado pela Rita, a criada. Enfim, o Frederico não faz parte dos meus pecados!
- Como queira...
- Continuando, senhor padre: O senhor conde gosta de mim...E eu...
- Ai, Santa virgem da Guadalupe...
- Eu sinto que gosto dele também!
- Cruz!
- E agora, o que faço para evitar que esse amor se espalhe pelo meu coração, me corra nas veias, me faça falar o ar, me faça sonhar com aquele homem, com os seus beijos, com o seu peito cabeludo!
- Nada, com essa conversa já nada podeis fazer, minha querida. Mas...olha, reza uns...deixa cá ver...ora, pode ser uns 14 "Avé Maria" e uns...18 "Pai Nosso".
- Tanto, senhor padre...
- E em cima de grãos de milho!
- Oh!
- Sim, tens de tirar toda essa luxuria dentro de ti. O sofrimento é o remédio para acabar com todo o mal dentro de nós!
- E o que é que eu faço para resolver os meus problemas?
- Sou padre, minha pequena, não sou conselheiro. Porque não pedes conselhos ao Frederico?
- Mas, senhor padre...
- Faz o que e disse e verás que te sentirás muito melhor. Lembra-e: Deus é o remédio- E lá foi a moça. Não é a primeira que me aparece com coisas como: "O meu senhor gosta de mim", é o normal. Normal noutros lados, claro, aqui em Santa Terrinha, a coisa muda de figura. Pobre Aurora...tão nova e já a lidar com tamanhos problemas. O problema é que ela sabe do caso da dona condessa...Se ela abre a boca... Bom! Enfim, vamos lá! Sangue de Cristo! Onde é que anda a vinhaça? Nunca me lembro onde guardam o vinho das missas! As beatas daqui empandeiram-me tudo!
- Senho padre!- outra rapariga, a que era das únicas daqui de Santa Terrinha, a Rita.
- Bons dias!
- Quero me confessar...- Outra? Deixei o vinho para outra altura e fui ouvir a pequena.
- Ora então dizei lá, cara devota, que pecados cometeste?
- Estou apaixonada...
- Oh, então, Rita...Isso não é pecado! É algo natural...
- Sim, mas...é por um espanhol!
- Ai...Mas como é que vocês conhecem os espanhois!?
- Vocês? Disse vocês, senhor prior? Há mais alguém?
- Não, foi...foi sobre uma coisa que me lembrei da Biblia, foi isso...Mas quem é o moço?
- Não sei, senhor, ele é...lindo! Entrou lá em casa um dia destes e...
- Oh, Deus Nosso Senhor! Ele é...loiro?
- Sim!
- Olhos claros?
- Sem tirar nem por.
- Estamos perdidos.
- Conhece, senhor padre?
- Eu? Não, só disse porque...porque...normalmente os espanhois são loiros e têm olhos claros.
- São? Pensava que normalmente os espanhois eram mais morenos e...
- Isso não interessa, minha pequena. Diga-me: Vocês têm se visto?
- Só o vi uma vez, mas bastou...Só que tenho sentido umas coisas, quero tanto estar com ele senhor paaaaadreee...
- Chega, chega, vamos lá a acalmar- esta rapariga sempre teve fogo debaixo das saias, segundo me contaram as beatas- vais rezar 14 "Avé Maria" e 18 "Pai Nossos".
- Oh, credo! Pois se o senhor mesmo disse à pouco que estar apaixonada não era pecado.
- Não, não é, mas ter fogo debaixo das saias é, e muito! Vamos, vamos que tenho de me ir refrescar, adeus e boa sorte, Rita.- E lá foi ela. Quando constactei, depois de revirar a igreja, que já não havia o "Sangue de Cristo" (juro que acho que uma beata me anda a beber às esocondidas), fui a casa do conde para, e principalmene, obter algum suminho de uva que me refrescasse a garganta. Quando lá cheguei qual não foi o meu espanto quando encontro numa pequena capelinha feita dentro da própria casa se encontravam as duas raparigas, ajoelhadas em grãos de milho, a rezar. Olharam as duas para mim, sorriram um sorriso amarelo e depois, julgo que não gostam uma da outra, olharam-se e baixaram a cabeça. Como anda esta Terrinha? Os espanhois estão a dominar as mulheres, não a terra...

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