Será pecado pensar que o pecado que cometi me soube bem? Será que por ter sabido bem, logo é uma coisa boa, deixa de ser pecado? Não posso esclarecer estas minhas dúvidas com o padre Damião, a Isabel ficaria logo a saber ... diga-me o que fazer? Por favor meu Deus! Eu sabia que aquela rapariga ainda me ía desviar do meu caminho, nunca a devíamos ter trazido! E se alguém sabe? Se alguém viu? A porta estava aberta, pode muito bem ter passado alguém naquele instante e testemunhado o meu, nosso, pecado. Passei o resto do dia calado e pensativo. Ao jantar Isabel não se calou e percebi que ela desconfiava de alguma coisa, pois olhava para mim com olhos de quem me ia moer a cabeça o resto da noite. Desviei o olhar e concentrei-me na comida e em não olhar para a Aurora. A pobrezinha parecia estar desiludida por eu não lhe dirigir palavra, mas que quer ela? Sou um homem casado, um nobre respeitado que não se pode dar ao luxo de ter problemas com o sogro devido a infidelidades. Apesar de já ter saltado várias vezes a cerca, foram pequenos pulos, pulos sem sentimento, apenas pulos que seriam esquecidos no dia seguinte. Mas nem as mulheres eram as mais honradas nem tão próximas de Isabel. Nem pretendo arruinar a reputação de Aurora que é um anjo, uma santa intocável! É por isso que a consciência me pesa tanto.
- Leucárdio está tão calado? Não me diga que os espanhóis andam a ganhar terreno? - pergunta Isabel sarcásticamente.
- Não é nada, só não estou para conversas. E tu falas o suficiente pelos dois!
Calou-se. Ofende-se facilmente, não passa de uma menina mimada a quem o pai fez todas as vontades desde que veio ao mundo. Não conhece humildade ou cortesia. Ai se pudesse voltar a trás. Tentei evitá-la o mais possível, aquela mulher parece que tem o poder de ler as mentes dos homens! Vou esperar que ela adormeça e só depois subo para os aposentos.
Fiquei a beber uma taça de vinho com o Frederico. Falámos de batalhas e conquistas, de espanhóis e mulheres. Dei por mim a pensar que as minhas confidências ao escudeiro ainda me iam trazer problemas. Mas ele é bom rapaz e dá pouco à inteligência por isso decidi não me preocupar.
- Que achas da Aurora? - perguntei-lhe por fim.
- É boa rapariga senhor conde, daquelas das histórias! Virtuosa e bela, inocente e ... está bem senhor conde?
- Foi só um engasgo! Dizias ...
- É daquelas donzelas que todos os cavaleiros sonham casar. Se ao menos ela ...
Nisto entra a Rita pela sala dentro com as suas habituais risadas, que aquela não gosta de passar despercebida.
- Ai senhor conde, não me diga que a pobre da condessa ainda está sozinha naquela cama tão grande! Se o senhor não se despachar alguém ainda toma o seu lugar!
- Mas que insulência é esta? Que falta de respeito, pensas que falas com quem???
- Calma senhor Leucárdio que ela não sabe o que diz! - responde Frederico prontamente levando a rapariga pelo braço.
Era o que faltava, agora tenho criadas a comentar a minha vida privada pelos corredores. Tenho de ser mais severo!
Decidi que era altura de subir pois já passava da meia-noite. Ainda pensei espreitar o quarto de Aurora, ver se já dormia, mas logo afastei esses pensamentos e corri para o meu quarto. Quando me aproximei da porta ouvi um reboliço. Abri a porta de rompante e deparei-me com Isabel caída no chão, nua e enrolada nos lençóis.
- Que se passa aqui? Que barulho foi este??
- Leucárdio eu ... caí! É isso! Adormeci à tua espera e ... comecei a ... sonhar e olha tive um pesadelo!
- Que pesadelo?
- Ahhh ... estava a cair de um penhasco e ... era isso!
- Que sonho ridículo, arranja-te mulher que parecas uma rameira de esquina.
- Hijo de ...
- Que foi isto?
- Isto? Isto quê Leucárdio?
- Não ouvis-te ...
- Ouvi o quê? Estás a ouvir coisas agora? Estás a ficar maluco como o teu pai?
- Não metas o paizinho nesta história! Queres começar?
- Começar o quê? Tu não começas nada, pelo menos comigo ...
- Que estás a insinuar?
- Olha deixa-me em paz e vai dormir ao lado das tuas mulherzinhas de rua!
Fiquei cego pela fúria! Fora de mim, perdi o controlo do meu corpo ... peguei-lhe pelo braço e levantei-a como se fosse uma pena! Abanei-a e gritei-lhe tudo o que sempre quis dizer. Depois fui-me embora deixando ali caída, enrolada, chorosa e com um ...
- Quem é você? Que faz aqui?
Um homem saiu de debaixo da cama e correu para a janela. Agora sim está tudo acabado, pelo menos fisicamente, não lhe devo nada a ela e ela a mim. Agora somos finalmente um casamento de conveniência, uma fachada. Então agora estou livre para amar quem quiser sem o esconder. E quanto ao homem, pouco me importa a sua identidade, até porque Dona Isabel vai deixar Santa Terrinha amanhã mesmo ao amanhecer.
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