quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Soube bem

- Frederico!
- Menina Aurora, como está? Sente-se melhor?
- Sim, obrigada. Na verdade, depois de ter falado com o padre fiquei muito melhor...Mas- disse eu, pegando-lhe no braço e puxando-o para um canto da sala mais recatado- Mas, diga-me, já sabe mais daquele assunto?
- ...da condessa e do espanhol?
- Falai baixo. As paredes têm ouvidos.
- Não sei de mais nada, e a Aurora?
- Sei que no outro dia a minha senhora recebeu um bilhete. Eu vinha dos meus passeios pelo pomar quando um garoto me apanhou na rua e me deu um bilhete destinado à condessa.
- E o que dizia? O que dizia?
- Não li...
- Oh...
- Não tive coragem. Sou leal à senhora, muito leal! Mas não tinha o selo espanhol.
- Isso também daria muito nas vistas. Aurora, tem de conseguir apanhar esse bilhete.
- Eu? Mas como?
- Não tem maldade nenhuma nesse corpo Aurora, vê-se de longe- e olhou para mim como nunca tinha olhado. Afastei-me- Bom, digo que tem de ir bisbilhotar no quarto da senhora.
- Isso é pecado...
- E o que não é pecado? Estarmos aqui os dois já é um pecado, menina Aurora.
- Que dizeis?
- Nada, nada...esqueça as minhas palavras. Aproveite: vá lá a cima. A senhora saiu faz pouco tempo, saiu com o conde, não deve voltar tão cedo.
- Tenho medo...e se alguém aparece?- Naquele instante fomos interrompidos.
- Frederico!- Disse a Rita, espreitando, nada discreta, para nós- Interrompo alguma coisa? Precisava de ajuda de homem forte e robusto para me abrir o barril do vinho do senhor.
- Sim, claro! Vou já!- e depois disse baixinho- Aproveite agora- e lá foi ele. A Rita atracou-se logo a ele, dando-lhe o braço. Afastavam-se em dircção à cozinha, mas ainda ouvi algumas palavras dela:
- Andais enrabixado pela branquinha?
- Tonterias suas, Rita...Pois se só os seus olhos me encantam...
- Ah, bom!- E lá foram. E eu, lá fui em busca do bilhete perdido. Entrei no quarto e fui direita às gavetas da condessa. Remexi nas coisas, no armário dos vestidos. Pensei: só pode estar no guarda joias e preparava-me para lá ir quando...
- Aurora?
- Senhor conde- disse eu, fazendo uma vénia, ao ver o conde entrar pelo quarto a dentro. Mais dois segundos e apanhava-me com as joias da condessa na mão.
- Que fazes aqui?- disse ele, desconfiado.
- Eu...perdi um fio de prata que era da minha mãe, estou muito abalada...Penso que poderá estar aqui. Esta manhã, enquanto vestia a senhora, devo o ter perdido- Ele olhou para uma gaveta entreaberta e eu acrescentei- E enquanto guardava os seus pertences também.
- Que pena, Aurora.
- E o senhor conde, o que faz aqui? Não deveria ter saído com a senhora?
- Sim, sim mas esqueci-me de uma coisa muito importante, o meu anel de família! Tirei-o para o banho mensal e esqueci-me. Já viu? Malditos banhos...
- Compreendo- disse eu, esboçando um sorrizinho. Ele abriu o guarda joias dele e retirou o anel, depois, chegou mais perto de mim.
- E o seu fio?-disse ele, tão terno...
- Pois- disse, baixando os olhos- deve andar por aqui.
- Já tentou ver debaixo da cama? Dos móveis?
-Sim, já vi e nada...Ah! Deve estar no pomar- entretanto o conde aproximava-se ainda mais. Com esta do pomar, escapei-me até à porta, ou quase até lá.
- Espere!- disse ele agarrando-me no braço. Olhei para ele, sem fixar demasiado o olhar. Que homem...como é que a condessa o pode trair com um espanhol? A minha vontade era gritar "a sua mulher engana-o com o espanhol, trai-o! Será que não percebe que ela é uma víbora e que eu sim, eu, gosto verdadeiramente de si?", mas não fiz nada disto.
- Senhor conde, por favor...eu...
- Aurora...
- Senhor conde, escute: sei o que sente por mim, eu também o...bom...não podemos viver essa paixão, não pode ser! Eu ouvi o que me disse quando estava desmaiada, eu ouvi! E também lhe digo que o que sinto por si ultrapassa em muito a admiração que uma criada deve ter pelo seu senhor mas...o seu casamento...
- Sim- disse ele, espantado, sem me largar o braço- Fico feliz por saber isso tudo mas só lhe queria dizer que tem o fio de prata enrolado no seu pulso...- Não queria acreditar, o que eu fui dizer! Bom, mas como já estava dito aproveitei: beijei o conde com toda o amor! Depois arrependi-me para o resto da vida e desatei a correr até ao meu quarto, onde me tranquei o dia inteiro. Mas soube bem.

Nenhum comentário: