
- Mandou chamar senhor conde?
- Sim, sim mas diz-me lá onde te metes-te a manhã toda?
- Andei a "apalpar" terreno por assim dizer!
- Ah fazes bem! E descobris-te alguma coisa que valha a pena saber?
- Parece que os montes portugueses são bem firmes e a terra suave e macia ...é uma bela terra!
- Estou a ver. Só espero que não andes a arranjar-me problemas. Por falar nisso, preciso de um favorzinho teu.
- Tudo o que quiser señor.
- Preciso que me arranjes uma pena, uma pena de coruja.
- Para o vosso chapéu? Desculpe señor mas, não acha que o chapéu já está bastante ornamentado? Parece algo que o meu primo Pablo usaria, e olhe que o Pablo ...
- Não é nada disso hombre! Isto são matérias importantes, problemas relacionados com o Estado e sobretudo com o meu bem-estar e felicidade.
- Problemas de saias portanto ...
- É a doce Aurora! Roubou-me o coração e a sanidade ... e eu quero-a! Quero Raúl!
- E então vai oferecer-lhe um chapéu todo abichanado coberto de penas de coruja para lhe chegar ao coração e quiçá à roupa interior, é isso?
- Não sejas ridículo! É apenas uma forma de forjar o destino, acelerar as coisas, comprendes?
- Resumindo, disparates do Ramón! O senhor ainda acredita no que diz esse charlatão?
- Claro que sim. Não tem falhado até agora.
- Não tem falhado porque ele é perito em adivinhar as coisas enquanto estas estão a decorrer. É realmente de um talento! AHAHAH!
- Ri-te à vontade mas é a única forma de chegar a ela.
- Oh Javier, agora aqui entre nós, eu conheço-te à muitos anos e tu sempre foste demasiado nervoso, as mulheres não são assim tão fáceis de abordar, algum charme, persuasão, uma flor ou outra e zás já cá canta!
- Mas isso resulta para paixonetas infantis sem qualquer outra pretensão. Com a Aurora é diferente ... e tu fazes aquilo que eu te digo e acabou! Arranja-me a maldita pena! Ah e mais, um raminho de alecrim!
- Devo vestir a minha saia branca? Para ficar mais encantador enquanto colho flores no campo, alecrim, vou cantando e pulando como a campónia que sou ou que essa Aurora é ...
- Deixa-te de brincadeiras ou acabas a esfregar as costas da minha tia!
- Hijo mio? Estais chamando? - pergunta a velha decrépita.
- Não tia, é o Javier e não, não a chamei apenas mencionei o seu nome.
- Tengo comichão hijo, vem aqui e ...
Deixei a tenda antes que a velha se aproveitá-se e me pedisse que lhe corta-se as unhas. Lá vou à procura da coruja, sem saber por onde começar, agora só faltava ter de subir às árvores para atender aos pedidos do senhor conde como se fosse uma mulher de esperanças. Se não fosse o poder que me dá e que ainda me dará. Sim porque não passa de um trouxa que eu posso manipular a meu belo prazer. Ele nem se apercebe do poder que tenho sobre ele e a minha única concorrência nesse campo é a própria tia. E a minha Isabel? Não preciso de melhor aliada do que a esposa do D.Leucárdio. Santa Terrinha é minha e os condes que se entendam entre eles e vão brincar às conquistas para outro lado. Isto de não ter escrúpulos foi a melhor das qualidades com que Deus me abençoou. A consciência não pesa e vive-se sem preocupações, da forma como queremos e com quem queremos. Mas as minhas anbições não são assim tão provincianas, o meu objectivo é mesmo o trono de Castela, que está ali ao meu alcance. Basta que D.Javier não esteja a altura da missão, El-Rei não perdoa os fracos e eu serei conde e depois disso veremos quanto tempo demora até ter a coroa na minha real cabeça.
Mas concentração que isto de caçar corujas não é fácil! Dirigi-me aos bosques e de olhos nos ramos fui andando devagarinho à procura de sinais de alguma ave da espécie.
- Uhuh.
- Uhuh. - respondi eu ao chamamento.
Está próxima, consigo senti-la mesmo por cima de mim mas não a consigo ver e ... que é isto? É branco é? Ah ... o maldito animal fez de mim latrina! Apanhei pelas asas e pû-la dentro do saco bruscamente.
- Fica quieta ou faço de ti animal de estimação da Tia! - disse ameaçando-a.
Não sei porquê mas serviu para a acalmar, até os animais temem a maldita velha, não me admira que seja o próprio diabo disfarçado e por isso os bochos a temem. Mas ... falta alguma coisa, uma erva qualquer, não me lembro do nome! Talvez umas destas aqui façam o mesmo efeito. São verdes, têm folhinhas, mas que estou para aqui a dizer? São invensões do Ramón! Não sei porque me dou ao trabalho!
Voltei já era noite e Javier esperava-me impaciente.
- Já pensava que tinhas fugido! Trouxes-te tudo? A pena o alecrim?
- (Era isso alecrim!) Sim, sim tão aqui as ervas e a própria ave! Trouxe-a comigo não lhe fossem faltar penas.
- Óptimo! Bem pensado Raúl! Temos tudo o que é necessário, certo Ramón?
- Sim claro, que bonito alecrim que nos trouxe caro Raúl!
Claro, deve perceber tanto de flores como de mulheres! Só Deus sabe como me contive para não o desmascarar naquele momento! Mas prefiro assistir à humilhação de Javier.
- Então e a coruja está onde?
- Tenho-a qui neste saco. Vou libertá-la, mas tirem-lhe vocês as penas.
Ao abrir o saco a coruja sai desorientada e voou pela tenda à procura de uma saída. Tentámos apanhá-la em vão. Mapas caíram ao chão, taças e mantos, as velas por pouco não queimaram tudo e a ave pousou finalmente no colo da Tia que dormia profundamente apesar da agitação.
- Vá Raúl vai lá buscá-la! - sussurra Javier.
- Eu?? Eu não toco na velh ... digo, na ave!
Entretanto a velha abre os olhos.
- Que passa? Javier que é isto no meu nariz?
- É uma verr ... digo, uma ave! - responde Javier - Agora faça-nos um favor e devagarinho ... p-e-g-u-e ... n-a-s ... p-a-t-a-s ... e ...
- Mira Javier! Gosta de mim! Que amor de pássaro ... é um presente para mim?
- Claro Tia, o Raúl foi buscá-la e ... mas repare eu preciso que me a dê. Preciso de uma pena ...
- Vou chamar-lhe Esteban! Como o meu querido hijo! Tu queres o quê?? Tu não vais depenar o Esteban!!! Só por cima do meu cadáver!
- Já que propõe ...
- Cala-te Raúl ... repare Tia depenar é uma palavra muito forte, é mais retirar uma das penas do bicho ...
- Esteban!
- ... do Esteban, suavemente para o bem do seu querido sobrinho.
- NO! - protestou a Tia.
Ficou decidido que assim que a Tia adormecesse, EU teria de ir arrancar o raio da pena. O Rául claro! Mas o Raúl não está minimamente interessado em ver a señora em trajes menores e por isso decidiu ir de olhos fechados e guiar-se pelo tacto.
A velha dorme na sua cadeira, tão velha quanto ela, porque tem medo de se deitar e nunca mais levantar. Ora eu não desejo de forma alguma abrir os olhos e por isso fui de gatas pelo chão à procura de sinais dos seus pézinhos. O barulho que fiz era suficente para acordar os habitantes da vila espanhola vizinha, mas a velha permaneceu no seu sono de ... pedra. Finalmente encontrei aquilo que parecia ser um sapato. Confere é um sapato! Com tremores por todo o corpo fui subindo pela a perna, e mais desvio menos (doloroso) desvio senti as penas do Esteban. A velha adormeceu abraçada a ele!
- Esteban és tu hijo?
Apanhei um susto de morte, mas era só a velha a falar durante o sono. Resolvi aproveitar este facto para conseguir o que queria.
- Uhuh é o Esteban uhuh.
- Oh meu querido. Eu sabia que eras tu! Assim que te vi! Encarnas-te numa coruja naturalmente, um bicho sábio e leal como tu eras em vida. A falta que me fizes-te!
- Uhuh agora estou aqui uhuh!
- Nunca mais te largo!
- Mierda!
- Que dizes?
- Uhuh.
E voltou a adormecer aconchegando o pobre Esteban um pouco mais. Consegui retirar uma pena da asa e guardei-a de imediato. Mas fiquei a pensar, o Esteban (humano) morreu em circunstâncias bastante suspeitas. Eu não estava lá quando aconteceu, mas sempre achei estranho a reacção de Javier, tão despegado da Tia derepente não a larga nem por um minuto. É sabido que com a morte do seu filho, Javier passou a ser o herdeiro da fortuna da Tia, mas se assim fosse ele já teria recebido o dinheiro, porque sendo mulher, a Tia não puderá nunca ficar com a fortuna. Não faz sentido que ele continue com ela atrás. Vou obter mais informações da velha adormecida.
- Uhuh.
- Diz Esteban.
- Uhuh o Javier já herdou o que lhe era destinado uh uh.
- Claro que não Esteban! A fortuna do teu pai passa de homem para homem, tu não o herdas-te em vida porque não chegas-te a casar ...
- ... e por isso Javier só o receberá ...
- Se contrair matrimónio, naturalmente. Mas Esteban filho estás estranho, a tua voz ...
- Uhuh.
- Ah pronto!
Então é por isso que o homem se impacienta com a tal Aurora! Está desesperado pelo dinheiro da Tia. Talvez eu lhe atrapa-lhe um pouco os planos ... afinal, nem alecrim nem penas de coruja são tão fortes como os encantos aqui do Raúl.
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