- Então Ramon? Que vez tu nas cartas do destino, oh adivinho?- Está tudo muito nublado...
- Oh...isso quer dizer que as coisas não vão ser fáceis?
- Isso quer dizer que dá chuva para amanhã.
- Falo sobre a tomada da Terrinha, Ramon! Tens de ver se Júpiter está a meu favor!
- Calma, senhor conde, não tenha pressa, meu caro. Bom, vejamos o que temos para aqui: hum...ah! hum...nã...ah, ah!- Enquanto isso o tonto do conde olhava para mim, esperando que, com meia duzia de papelinhos e caras esquisitas lhe dissesse que amanhã teria a Santa Terrinha nas suas mãos.
- Então, criatura?- insistia ele.
- Está dificil, meu senhor...Talvez com mais uns 5 reis, a coisa se aclare!
- Sois um chulo!...Ora toma lá...- disse, atirando umas miseras moedas para a mesa- Miserável! Vamos! Conta-la o que te dizem essas cartas!- Bom, na verdade os astros não me diziam nada. Nunca disseram e acho muito pouco provável que algum dia digam. Sou um mago, um feiticeiro, um charlatão do diabo! Nunca andei na escola, nasci no meio do lixo e lá fiquei até encarreirar na vida junto com um bando de ciganagem. Não me apeguei a eles, assim como não me apego a ninguém. O que trouxe de lá: cartas de tarô roubadas, umas mantas, uns chinelos, e alguma sabedoria, isto, na arte da malandragem, se é que me faço intender- Então? As cartas precisam de mais reis? Olha que não dou nem mais um!
- Não é necessário, senhor. O destino dizem-me que serás feliz mas que terás de lutar muito até conseguires alcançar a felicidade- O conde ficou a olhar para mim. Bruscamente, e assustando o pequeno eu, deu um murro na mesa que fez derrubar o seu cálice de vinho tinto, tão vermelho como sangue de boi.
- Mas que azelha! Isso é muito vago!- disse, levantando-se e andando às voltas pela pequena sala onde nos encontrávamos. Depois, chegou mais perto, e mais perto...- Ouve- disse-me nariz com nariz- estás aqui por causa da minha tia, estás a ouvir, palhaço? Se não fazes o teu trabalho, sei bem como te fazer desaparecer...para o nada! Percebes?- Depois lá se afastou.
- Oh!! Mas heis que chega...hum...um aviso poderoso!
- Então?- disse ele, sentando-se novamente.
- Terás de lutar...espere- disse eu, fechando os olhos e tentando "ver" o que o destino me dizia- Há uma mulher!
- Pois há!
- Sim, há uma mulher!- Ufa...
- Como é que ela é, oh feiticeiro- disse ele, entusiasmadissimo.
- Ela é...uma rapariga, uma rapariga de cabelos loi...
- Ruivos?
- Ruivos, isso! Ruivinhos. Com os olhos ver...
- Azuis?
- Azulíssimos! Uma beleza!
- Uma beleza, sim, é ela...- dizia o conde, quase chorando de emoção.
- Ela é muito bela? É portuguesa? Vá! Diz-me se é portuguesa!
- Deixe ver, vossa senhoria...-disse eu, fechando outra vez os olhos e "sentindo o poder"- Sim, confere, é portuguesa e...calma...sim, confere, é bela, belissima!- Acertei no alvo...mesmo no centro!
- Oh, feiticeiro, sois grande!- disse ele, beijando-me a mão com todo o fervor- E agora diz-me como posso conquista-la- Bolas...
- Ora, senhor conde...Bom, é dificil, uma vez que a bela senhora está do lado deles, dos outros, dos portugueses. Não sei como...
- Não sabeis? E por...7 reis?
- Por 7 reis? Por 7 reis sei mais coisas, sim...- Aceitei o dinheiro que, gentilmente, o senhor conde fez deslizar, suavemente, sobre a mesa- Ora vamos lá ver, é que isto hoje está meio nublado sabe...
- Não levas mais nada daqui...
- Ah! Pura adivinhação! Encontrei!
- Como? Como posso tê-la?
- 7 noites terá de ir colocar na janela do quarto dela um ramo de alfazema!...Espere! Alecrim, um raminho de alecrim atado com uma corda e uma pena de coruja.
- Hã?...Não há nada mais facil como: matar todos e ficar com ela, ou...rapta-la?
- Não use a violência, meu amo, não o faceis...
- Onde arranjo uma pena de coruja?- perguntou o conde- E como tenho a garantia que depois desse esforço todo ela será minha?
- Bom, isso não lhe posso dar, só o destino sabe...Eu sou só um mero portador de mensagens do destino, de algo poderoso que me escolheu como intermediário, como mensageiro!
- Vou já chamar o Raúl...GUSTAVO!!- gritou ele pelo criado. Após uns escassos segundos Gustavo apareceu- Onde anda o Raúl?
- Não sei, meu senhor.
- Não sabes? Maldito sejas tu a gente da tua laia! Vai procura-lo e diz-lhe que quero falar com ele urgentemente!!- O criado saiu a correr- Bem, e nós,- disse-me, levantando-se da mesa- nós, trabalhámos bem hoje...- continuou, fazendo um sorriso que até a mim me meteu medo. Depois de se levantar e arrumar devidamente a cadeira atirou para cima da mesa umas 3 moedas de ouro, as quais apanhei em meio tempo- Se continuares assim e calares a boca, isto é- disse ele, chegando-se demasiado perto de mim (parece que ele gosta deste tipo de confrontação)- se não fores contar à minha querida tia os teus serviços para comigo, ganhas mais destas lindas e douradinhas, caso isso não aconteça, oh, meu caro mago...deixarás de fazer previsões para o resto da tua vida, porque passarás a prever a "vida" dos mortos, percebido?- Afirmei com a cabeça, enquanto guardava as moedas no meu pequeno saco de couro. Todo eu transpirava. A partir desse dia, desejei que aquelas 7 noites nunca passassem. Para mim, o segundo em que o conde deitou as 3 lindas moedinhas para a mesa, podia durar para sempre...
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