quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Um humilde barbeiro

- Atão diga lá o que sente minha menina? É um pelinho encravado? Precisa de fazer as patilhas? O que vai ser?
- Não digas disparates homem! Não vês que a moça desmaiou, tá branca como a morte e aos tremeliques! - protestou Caetana.
- Ê sabia, isto era uma piada. Era pa descontrair! Entã conte lá o que se passou.
- Eu estava a apanhar maçãs e olhe perdi os sentidos! - respondeu a moça.
- E então o que pode fazer pela menina? - perguntou Caetana.
- Bom, nã há muito a fazer, porque veja dona Caetana, a moça desmaiou e agora tá acordada logo o mê trabalho tá feito. Não é por acaso que sou considerado o maior dos barbeiros da Península! De Portugal vá! Pronto do Norte e nã se fala mais nisso.
- Mas não é melhor ver se não tem febre? - insiste a velha cozinheira.
- Está bem, pronto deixa cá ver ... ora ... nã tá tudo nos conformes. Isto deve ter sido do calor, o sol tá muito forte e a gente tem de ter cuidado.
- Deve ter sido isso sim. - respondeu a moça.
- Vês Caetana? Eu sou um profissional altamente recomendado pelas donzelas, só tu é que não me ligas nenhuma.
- Deixa-te de coisas e tem juízo!! E sai daqui que tenho mais que fazer!
Mulheres! Com tantos anos de vida ainda nã as consegui perceber. Mas pronto o mê trabalho tá feito vou mas é para a minha casinha ver se há clientela à espera. Saí do castelo e fui andando junto às muralhas olhando as pessoas que passavam, cumprimentando os soldados, olhando o céu. Ai que saudades do mê Alentejo! Das casinhas brancas, as ovelhinhas pastando, as mulheres a estenderem a roupa ao sol, o chêrinho dos campos. Isto aqui é uma terra abafada e com tudo encafoado entre umas muralhas com receio de por o pé lá fora e deparar-se com um espanhol que lhe faça a folha. No Alentejo nós sabemos lidar com os bandalhos! As nossas foices eram mais eficazes que estas mariquices de canhões e espadas. Mas um homem tem que fazer pela vida e aqui facturo mais do que lá na terra onde os homens não aparam a barba. Aqui os soldadinhos querem tudo aparadinho. Mariconços d'um raio que me ajudão a ganhar algum! Nunca tive mulher nem filhos, tive cá meus amores, mas coisas passagêras que davam pa enganar o corpo. Sempre gostei da minha liberdade e de andar por aí sem compromissos nem aborrecimentos.
Tinha já duas pessoas à minha porta. Um senhor baixo e gordo, que é um dos donos das quintas fora da muralha, e o outro um dos tais cavaleiros altos e espadaúdos que guardavam Santa Terrinha antes da chegada do conde.
- Atã bom dia meus senhores!
- Bom dia? Já viu as horas? Estou aqui à uma eternidade à sua espera! - protesta o lavrador.
- Assuntos do reino caro senhor, tive um caso de uma donzela indesposta lá no castelo. Aqui o Zé tem de atender a todos.
- Sim, sim vamos mas é a despachar que eu tenho mais que fazer!
- Com certeza entrem lá que eu vou só pousar a mala!
A minha casinha é modesta, tem o suficiente para um homem viver, uma caminha, uma mesa e cadeiras, uma brazeira para os dias frios, alguns tachos para as refeições e pouco mais. A água vou buscá-la à fonte e armazeno-a em barris. Já a parte da barbearia está mais composta. Fica num cantinho onde tenho uma cadeira com as pernas de trás partidas de forma a inclinar e a permitir uma mais fácil "barbeação". Foi uma invenção minha, que tirando algumas quedas, tem sido um sucesso! Tenho ainda as navalhas sobre uma mesinha e os panos para limpar. Está mesmo junto à janela para dar luz e para irmos comentando o que se passa no exterior.
- Vá queixinho para cima!
- Mas ó Zé que raio de pocilga que tu arranjas-te? Tens provavelmente a casa mais pobre da terra. Precisas da Dias para vir dar aqui dar uma limpeza nesta espelunca!
- A Dias?
- Sim a mulher A. Dias esposa do Franscisco Dias! Ela anda a cobrar para dar uma limpeza nas casas, podias aproveitar!
- Eu próprio jogo as mãos a isto um dia. Não quero gastar dinheiro com essas coisas.
- Estás a guardar é? Vais deixar Santa Terrinha?
- São cá coisas minhas. Mas diga lá como vão as colheitas?
- As colheitas? Uma desgraça, o que apanho está podre o resto robam-me os espanhóis! E o pior é que nada posso fazer.
- Já falou com o senhor conde?
- Claro! Aquele homem, que só sabe é rezar, disse-me para largar os cães à noite que eles tomavam conta deles.
- E resultou?
- Claro que não! Os cães fugiram!
- Mas eles mais dia menos dia desistem, ficam sêm alimentos e voltam pá terra deles!
- Pois mas se eles se alimentam das colheitas, nós também ficamos sem comida!
- Disse isso ao conde?
- Disse e ele mostrou-se indiferente, não deve ter percebido de como era grave a situação. Mas tu é que me podias ajudar Zé!
- Eu?
- Sim tu! E se começas a ir à tenda fazer os teus serviços? Tenho ouvido dizer que muitos espanhóis ficaram feridos na última escaramuça e que estão desesperados. Se lhes oferecesses os teus serviços talvez conseguissemos fazer tréguas e eu conseguia recuperar os campos e pedir ao conde que alguns dos cavaleiros protegessem a minha propriedade.
- Parece perigoso. Mas talvez faça alguns trocos!
- Mas afinal para que queres o dinheiro?
- Coisas minhas.

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